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Francês que teve eutanásia negada e tentava morrer aceita ser tratado em hospital

Alain Cocq, de 57 anos, vive acamado em sua casa, em Dijon, cercado por cuidadoras, mas sofre de dores insuportáveis.
Alain Cocq, de 57 anos, vive acamado em sua casa, em Dijon, cercado por cuidadoras, mas sofre de dores insuportáveis. AFP/Archivos
Texto por: RFI
5 min

O francês Alain Cocq, portador de uma doença degenerativa incurável e que tentou morrer por privação de alimentos e medicamentos durante quatro dias, desistiu temporariamente do suicídio para abreviar seu sofrimento e defender a eutanásia. Internado desde a noite de segunda-feira (7) na unidade de cuidados paliativos do Hospital Universitário de Dijon, no centro da França, Cocq voltou a comer e a se hidratar. "Eu não estava mais em condições de levar esse combate adiante", disse ele nesta quarta-feira (9). Os médicos preveem que ele tenha alta em uma semana ou dez dias.

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Este homem de 57 anos comoveu o país ao anunciar, no fim da semana passada, que iria parar de se alimentar, se hidratar e tomar medicamentos para “se livrar desse imenso fardo” em que a sua vida se transformou, com o agravamento da doença que lhe causa dores insuportáveis. Porém, na noite desta segunda-feira, seu estado de saúde se deteriorou e ele foi socorrido por uma unidade do Samu.

Cocq deu entrada no hospital com um quadro de desidratação profunda. Ele alternava momentos de lucidez e perda de consciência, informou sua advogada, Sophie Medjeberg, também vice-presidente da associação Handi-Mais-Pas-Que (em tradução livre, "deficiente e mais que isso"). Ela relatou que no domingo (6) ele ainda estava "sereno", mas teve vômitos o dia inteiro.

De acordo com a advogada, Cocq estava sofrendo demais com a privação de cuidados e não suportou continuar sem assistência médica. "Ele ainda quer morrer, mas sem sofrimento", declarou Medjeberg ao jornal Le Parisien nesta terça-feira (8). "Sinto muito, mas preciso de serenidade para partir", teria explicado o doente. 

Os franceses acompanham o drama de Alain Cocq há mais de um mês. Ele decidiu se submeter a uma "morte anunciada", depois de ter tido um pedido de eutanásia recusado pelo presidente Emmanuel Macron, na quinta-feira passada (3). O procedimento é proibido na França, apesar de a maioria dos franceses serem favoráveis à legalização da eutanásia e do suicídio assistido.

Na carta que enviou em resposta à solicitação do paciente, o presidente francês declarou que “não estava "acima da lei” e que por essa razão não poderia aceitar o apelo do enfermo. Macron acrescentou que “se sensibiliza e admira o combate incessante” do homem contra a doença e suas consequências, e disse “respeitar, com emoção”, a decisão de Cocq de parar de se alimentar.

Este habitante de Dijon sofre de uma doença extremamente grave, que provoca a aglutinação das suas artérias e vai, aos poucos, destruindo seus órgãos pela isquemia, gerando dores alucinantes. Ele já passou por inúmeras internações e nove cirurgias em quatro anos.

Cocq queria filmar sua agonia e transmiti-la ao vivo pelo Facebook até o último suspiro, "para alertar as pessoas sobre o direito de cada um escolher sua morte" e provocar avanços na legislação sobre o fim da vida. Porém, depois de ter seu pedido de injeção letal negado pelo presidente Macron, a rede social bloqueou na manhã de sábado (5) a transmissão ao vivo do que seriam os últimos momentos do francês em vida.

Legislação incompleta

A França possui uma legislação para evitar o sofrimento de doentes terminais, mas Cocq faz parte das exceções que vão parar na capa dos jornais. A chamada lei Claeys-Léonetti sobre o fim da vida, adotada em 2016, só autoriza a sedação profunda, que acaba levando à morte, em pacientes que apresentam um prognóstico de falecimento a curto prazo, o que não foi possível provar no caso de Cocq.

Ele vive acamado em sua casa, em Dijon, cercado por quatro cuidadoras, uma irmã e amigos íntimos. "É difícil para todos e uma pena que a situação tenha chegado a esse ponto. Pagamos um preço alto para defender a eutanásia", insistiu a vice-presidente da associação Handi-Mais-Pas-Que, autorizada por Cocq a falar em nome dele à imprensa. "A lei Léonetti ainda requer emendas e Alain me encarregou de continuar essa luta por ele", comentou a advogada.

O francês escreveu ao presidente Macron para pedir um gesto de compaixão, porque não aguenta mais tanto sofrimento e acredita que as pessoas devem ter o direito de escolher sua própria morte. Muitos franceses também queriam ver a eutanásia aprovada, como é possível em países vizinhos, como a Bélgica e a Suíça. No entanto, por pressão de setores conservadores e da Igreja Católica, a eutanásia permanece um tabu a ser superado.

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