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“O tiro me atingiu, mas não acabou comigo nem com Charlie Hebdo”, lembra sobrevivente em processo sobre atentado

O jornal Libération publica nesta sexta-feira (11) testemunhos pungentes dos sobreviventes e familiares das vítimas dos atentados de janeiro de 2015 em Paris, que começaram com o massacre no jornal satírico Charlie Hebdo.
O jornal Libération publica nesta sexta-feira (11) testemunhos pungentes dos sobreviventes e familiares das vítimas dos atentados de janeiro de 2015 em Paris, que começaram com o massacre no jornal satírico Charlie Hebdo. © Fotomontagem RFI
Texto por: RFI
4 min

Os testemunhos pungentes dos sobreviventes e familiares das vítimas do ataque ao Charlie Hebdo marcaram a primeira semana do processo sobre os atentados de janeiro de 2015 contra o jornal satírico e contra a mercearia judaica da Porta de Vincennes. O julgamento que começou em 2 de setembro, em Paris, vai durar várias semanas.

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Os depoimentos dos sobreviventes do Charlie Hebdo são reproduzidos pela imprensa francesa desta sexta-feira (11). Libération estampa uma primeira página de luto e diz que os testemunhos sobre o massacre na redação do jornal, em 7 janeiro de 2015, "petrificaram" as pessoas que estavam na sala de audiência.

Os sobreviventes e seus familiares tiveram três dias para tentar descrever o que aconteceu durante o 1 minuto e 49 segundos do ataque dos irmãos Kouachi. Chérif e Said mataram 11 pessoas, sendo oito integrantes da redação de Charlie. Ao terminar o massacre no prédio, ainda mataram um policial que chegava ao local de bicicleta.

Parentes e sobreviventes contaram como vivem com essa lembrança. “Palavras sobre o horror, que tentaram contar o indescritível, depoimentos de pessoas inocentes que narraram a morte, o sofrimento, a dor e a interminável reconstrução física e psicológica”, diz Libération. Alguns sobreviventes não quiseram ou não puderam depor, como o jornalista Philippe Lançon, autor de um livro memorável sobre o massacre (“Lambeau”), que confessou se sentir "muito frágil" para testemunhar.

Parte da acusação considera esse processo o julgamento da liberdade ameaçada, do obscurantismo que asfixia a sociedade. Para outros, ele é apenas o processo “de uma tristeza infinita, da lembrança de uma manhã fria de janeiro que começou num ambiente de camaradagem e risos e terminou em um banho de sangue”.

Depoimentos

O webmaster Simon Fieschi, de 36 anos, gravemente ferido na coluna vertebral, hesitou entre expor sua dor e a importância de testemunhar. Na audiência, encontrou a fórmula precisa para resumir o ataque. "O tiro de metralhadora me atingiu, mas não acabou comigo. Eu diria que o efeito foi o mesmo em Charlie Hebdo."

Porém, o jornal deixou de ser um semanário descontraído e de insubmissos. Ele passou a ser uma fortaleza, com endereço secreto, cercado por mil muralhas, portas metálicas, áreas de segurança, senhas, policiais e detectores de metais. Quando finalmente os jornalistas e chargistas que sobreviveram e ainda trabalham no jornal chegam à redação, “temos que começar a trabalhar e rir porque Charlie é zombeteiro”, relata Fabrice Nicolino.

A chargista Coco relembrou o início do ataque, reivindicado pela Al Qaeda, que mudou a história de Charlie e da França. Ela foi a primeira a encontrar os irmãos Kouachi na entrada do prédio. Eles a ameaçaram com a metralhadora e a obrigaram a abrir a porta. “Eu fiz o código da porta e senti a excitação dos terroristas que chegavam perto de seu objetivo”, lembra Coco, soluçando.

Depois do massacre, o silêncio, lembram os sobreviventes. “Falávamos sussurrando para não incomodar os mortos”, diz Riss, hoje o diretor de Charlie Hebdo.

Boas risadas

O processo é também um momento de lembrar dos mortos e um desses momentos provocou boas risadas na sala de audiências, diz Le Figaro. Atendendo a um pedido da família de Charb, diretor de Charlie Hedbo na época do atentado e o principal visado pelos irmãos Kouachi, desenhos dele foram projetados: charges de padres, imãs, rabinos, cruzes, luas e estrelas e muitos palavrões e blasfêmias. Até os acusados de cumplicidade nos ataques, que estavam no banco dos réus, riram. Após três dias difíceis, o espírito de Charlie, que alguns tentaram assassinar, pairou durante alguns minutos no ar, segundo o diário conservador Le Figaro.

O processo dos atentados de 2015 é seguido com atenção em outros países europeus. A mídia alemã, britânica e espanhola acompanha de perto as audiências. Entre os 90 veículos de comunicação credenciados para cobrir os 49 dias de audiências, 29 são estrangeiros e em sua cobertura eles ressaltam as ameaças constantes contra a liberdade de expressão no continente.

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