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A Semana na Imprensa

"Não beijo mais no primeiro encontro": Uso de máscaras muda ritos sociais

Áudio 03:12
"Não beijo mais na primeira noite", é o títudo da reportagem na revista semanal Le Point sobre mudanças nos hábitos com o uso da máscara.
"Não beijo mais na primeira noite", é o títudo da reportagem na revista semanal Le Point sobre mudanças nos hábitos com o uso da máscara. © Fotomontagem RFI
Por: Silvano Mendes
7 min

A revista francesa Le Point desta semana traz uma longa reportagem sobre o impacto do uso de máscaras de proteção na vida das pessoas. Além de indispensável como ferramenta para combater a pandemia de Covid-19, o acessório transformou alguns rituais de sociabilidade, tanto na vida profissional como pessoal.

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“Esse retângulo de cerca de 17 centímetros de largura está modificando nossos hábitos, provocando mudança às vezes imperceptíveis, mas que afetam nossa vida social”, diz Le Point, que traz uma lista de situações nas quais o uso de máscaras provocou alterações. “Mesmo se algumas pessoas reclamam ou rejeitam, enquanto outras ironizam ou a usam o tempo todo, a máscara não deixa ninguém indiferente”, escreve a revista.

No âmbito profissional, essas mudanças são palpáveis: o trabalho é, em geral, onde passamos mais tempo e nem sempre pessoas de uma mesma equipe respeitam as regras da mesma maneira. A reportagem conta como em alguns escritórios, por exemplo, as tensões são frequentes entre os funcionários, principalmente nos open space.

Já nos restaurantes, onde o acessório também é obrigatório, os garçons não escondem o incômodo. “Nos acostumamos a respirar menos, como os alpinistas”, relata o dono de um estabelecimento que, segundo a revista, treina em casa para que seu sorriso possa se expressar pelos olhos.

Os mais tímidos aproveitam para se esconder

O uso de máscaras, que é obrigatório na França nos espaços públicos a partir de 11 anos de idade, também teve um impacto importante nas escolas, lembra a revista. Os professores encontram dificuldades em captar a atenção dos alunos, enquanto para as crianças e adolescentes, o acessório acaba isolando aqueles que já tinham dificuldade em se exprimir em público. “Como a comunicação é afetada, os alunos mais tímidos acabam se refugiando atrás das máscaras”, lembra o texto.

Entre pessoas que estão começando a se conhecer o uso de máscaras também tem um impacto importante. A revista relata reflexos adotados nos aplicativos de relacionamento, como Tinder, onde novas regras começaram a ser adotadas por alguns usuários. Como uma jovem que diz, após 15 minutos de bate-papo online, que “não beija no primeiro encontro”. Ou um outro que relata como, ao conhecer pessoalmente sua pretendente, levou alguns minutos para ter certeza que seu rosto correspondia às fotos de perfil, já que ela manteve o uso da máscara durante boa parte do encontro.

Entre as situações inusitadas, a reportagem conta o caso de uma jovem que flertava com o vendedor de uma livraria. A moça, que diz sempre conquistar as pessoas graças a seu sorriso, não esconde a frustração: “Ele não me via rir de suas piadas. Me senti como um Superman que perde seus superpoderes”, resume.

“Ter a metade do rosto oculto nos faz tomar consciência da importância dele na comunicação”, avalia a reportagem. “Essa banalização da máscara, que nos leva a uma anonimato generalizado, é uma ruptura antropológica importante”, comenta o antropólogo David Le Breton, autor do livro Des Visages (Os Rostos), entrevistado pela revista. Mas ele aposta que mesmo se os ritos de interatividade foram alterados, novos gestos serão inventados, como o toque de cotovelos que substitui o aperto de mão na hora de se cumprimentar. “É um período interessante em termos de criatividade social. Encontramos novas maneiras de entrar em contato, preservando a estima que temos uns pelos outros”,

Além disso, essa situação também pode ter um lado positivo. Segundo Marion Zilio, doutora em Estética, entrevista pela revista, a máscara pode nos emancipar de algumas imposições sociais. “Não somos mais obrigados a corresponder às expectativas de uma sociedade que dá tanta importância para o rosto”, ressalta a autora do livro Faceworld.

 

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