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Feminicídio: filhos de brasileira morta pelo marido na região parisiense permanecerão sob a custódia da justiça francesa

Franciele Alves da Silva, 29 anos, foi morta pelo marido e deixou dois filhos, de 2 e 4 anos
Franciele Alves da Silva, 29 anos, foi morta pelo marido e deixou dois filhos, de 2 e 4 anos © Arquivo Pessoal/ FB
Texto por: Adriana Brandão
6 min

O brasileiro Rodrigo Martin, que matou sua mulher Franciele Alves da Silva a facadas na sexta-feira (25) em Champigny-sur-Marne, na região parisiense, será indiciado nesta terça-feira (29) pelo crime. A situação dos dois filhos menores da vítima preocupa familiares e amigos. Desde o feminicídio, as crianças de 2 e 4 anos estão em um lar para crianças sob a custódia da justiça francesa.

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Rodrigo Martin, de 27 anos, que se entregou à polícia no sábado (26) depois de passar 24h foragido, está detido provisoriamente para interrogatório na delegacia de Créteil, também na região parisiense. Ele está sendo representado pelo escritório Avi Bitton e o advogado franco-português Nelson de Oliveira, associado de Avi Bitton, teve o primeiro contato com seu cliente nesta segunda-feira (28).

“Ele está muito chocado, fechado, sem capacidade de exprimir direito o que aconteceu”, disse Nelson de Oliveira à RFI. O brasileiro confessou o crime e está cooperando com a polícia, informou o advogado, que não quis dar mais detalhes da conversa que teve com seu cliente, alegando segredo profissional.

“As investigações irão determinar se havia uma realidade de violência doméstica antes do crime, se houve premeditação ou se ele perdeu o controle durante uma briga”, indica Oliveira, que foi contratado pela mãe de Rodrigo, que também mora na França, e pelo empregador do brasileiro. A polícia já começou a ouvir testemunhas, amigos e familiares do casal, que morava em Champigny-sur-Marne. Rodrigo Martin, que fala mal francês, mora na França há cerca de 18 meses e trabalhava na construção civil, com contrato e documentação em dia, segundo o advogado.

Nelson de Oliveira adiantou que o agressor será apresentado nesta terça-feira a um juiz no Tribunal de Creteil, que irá indiciá-lo por “assassinato de cônjuge”. O crime de “feminicídio não tem definição jurídica na França”, lembra o advogado, que prefere, por enquanto, não usar esse termo. “Não sou capaz de dizer se havia uma realidade de violência ou se foi um fato isolado”, disse ele.

Depois de indiciado, o brasileiro será colocado em prisão preventiva. O julgamento definitivo deve acontecer em um ano e meio.

Futuro das crianças

O advogado disse ainda que Rodrigo Martin pensa muito nos filhos. Ele chegou a pedir que a mãe, cuja identidade não foi comunicada, cuide dos garotos, mas sabe agora que situação das duas crianças será decidida pelas autoridades do país.

Os meninos de 2 e 4 anos estão sob proteção da Justiça francesa de menores. Em oito dias, um juiz da vara de menores será designado para determinar quem vai ficar com a guarda das crianças até o fim do processo, informou Pedro Gomides, do Consulado do Brasil em Paris, que acompanha o caso.

De acordo com a justiça francesa, “as crianças estão bem em termos de saúde, mas como são muito pequenas, têm dificuldades em entender a situação”, relatou o cônsul-adjunto. Por isso, as assistentes sociais que cuidam dos meninos vão tentar pegar objetos e brinquedos na casa deles para "dar um sentido de lar e facilitar o processo”, indicou Gomides.

O consulado foi procurado até agora apenas pela família da vítima. O irmão de Franciele, Leandro Gabriel Torres da Silva, que queria vir à França cuidar da repatriação do corpo e se inteirar da situação dos sobrinhos, voltou a falar com as autoridades consulares nesta segunda-feira.

Ao que tudo indica, ele ficará por enquanto no Brasil e será representado na França pelos advogados brasileiros Camila Santana e Joelson Dias, em parceria com o francês Julien Zanatta. A liberação do corpo de Franciele, que ainda tem que ser autopsiado, pode levar vários dias, antes de poder ser enviado ao Brasil.

A família da vítima mora em Maringá, no interior do Paraná. Na noite desta segunda-feira, eles divulgaram uma nota por meio dos três advogados. “Ainda não temos detalhes sobre o translado do corpo para o Brasil e as circunstâncias que envolvem sua morte, em decorrência de provável feminicídio, estão sendo investigadas pela justiça francesa”, diz o texto.

Crime chocante

O crime aconteceu na noite de sexta-feira (25) no apartamento onde os brasileiros moravam. Alertada por uma vizinha, a polícia foi ao local e encontrou Franciele inerte, com uma faca cravada no tórax e outros três cortes na parte inferior do corpo. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu.

Poucos dias antes da agressão fatal, a brasileira de 29 anos compartilhou uma mensagem premonitória: "Não se case com a morte – não adote um barbado. Se relacionar com alguém que só te faz sofrer é se entregar à morte e esperar que ela não vá acontecer".

A violência do crime chocou grupos de brasileiros residentes na França nas redes sociais. A militante contra a violência doméstica Nellma Barreto, fundadora do grupo Mulheres da Resistência (Femmes de la Résistence) em Paris, lançou uma coleta para ajudar nas despesas de repatriação do corpo de Franciele e permitir que seu irmão Leandro possa vir para a França acompanhar os trâmites. O link para contribuições está acessível nas páginas do Femmes de la Résistence no Facebook e no Instagram e no site helloasso. "Eu faço um apelo aos brasileiros que ajudem essa família que está desesperada e não tem recursos", insiste a militante feminista.

Em cinco anos, desde que chegou à França, Nellma diz ter prestado assistência a muitas brasileiras vítimas de violência doméstica, mas nunca havia ocorrido um feminicídio.

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