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A Semana na Imprensa

Ciência aberta pode ser solução para evitar venda de artigos científicos falsificados, diz pesquisadora francesa

Áudio 03:12
A revista francesa L'Express analisa o próspero comércio de artigos científicos falsificados.
A revista francesa L'Express analisa o próspero comércio de artigos científicos falsificados. © Fotomontagem RFI
Por: Adriana Moysés
7 min

A revista francesa L'Express publica uma longa reportagem, em sua edição semanal, sobre um negócio opaco, lucrativo, que arranha a credibilidade do meio acadêmico e, em última instância, mexe com a saúde das pessoas: as empresas que vendem artigos científicos falsificados. A maior fábrica desse tipo, localizada na China, foi revelada pela microbiologista holandesa Elisabeth Bik, que é ouvida pela L'Express junto com colegas franceses que trabalham na área de ética e integridade científica.

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A fábrica chinesa de "papers" denunciada pela holandesa em seu blogue – "Science Integrity Digest" – tinha criado até fevereiro de 2020 pelo menos 521 estudos fictícios. A descoberta aconteceu pelo uso repetitivo de imagens de laboratório quase idênticas ilustrando diferentes artigos.

Os clientes são na maior parte das vezes cientistas carentes de publicações, requeridas para uma promoção na carreira acadêmica ou no setor privado. O documento, quando é apresentado ao interessado, costuma estar redigido e prestes a ser aceito por uma revista científica.

Na China, como os médicos são obrigados a publicar um artigo científico em uma revista internacional para obter seu diploma, e não têm tempo hábil para fazer uma pesquisa em paralelo à faculdade, eles costumam comprar esses artigos prontos. A maior parte dos "autores" são pessoas ligadas às escolas de medicina ou a hospitais chineses.

A França ainda é poupada por esse fenômeno, dizem os cientistas Claude Forest (Inserm), Jacques Haiech (CNRS) e Christian Hervé (International Academy of Ethics (Iameph). Mas eles temem que um dia os pesquisadores do país sejam atraídos por esses métodos. Eles não sabem estimar quanto os chineses pagam por um "paper" falsificado, mas dizem que empresas de comunicação americanas ou europeias que produzem estudos reais para empresas ou laboratórios pagam entre 10.000 e 20.000 euros pelo serviço.

O médico francês Hervé Maisonneuve, especialista em integridade científica, situa o preço do artigo chinês falsificado em torno de € 2.000, enquanto a holandesa Bik aponta a faixa de € 5.000 a 8.000.

A maioria dos 521 artigos chineses fictícios foram publicados em seis revistas de editoras respeitáveis, incluindo uma das maiores da área, a Elsevier. Como explicar que revistas dotadas de comissões de revisão, compostas por cientistas independentes, não tenham verificado os resultados dos estudos enviados?

Há vários anos, especialistas franceses apontam que a área da saúde é a mais afetada pelas "fake news" e a chamada "fake science".

Perda de tempo e risco para a ciência

Ghislaine Filliatreau, diretora de pesquisa e delegada para integridade científica do Inserm (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica), suspeita que a verificação de dados e imagens provavelmente não foi respeitada. “Por falta de tempo, falta de meios ou por pouco conhecimento da área", resume. Ela adverte que esse tipo de falsificação grosseira cria um problema real para ciência, porque pesquisadores independentes podem querer consultar esses estudos – em acesso pago – para o seu trabalho e "perder um tempo precioso tentando reproduzir resultados falsos".

Recentemente, para demonstrar a falta de rigor científico nas verificações, pesquisadores publicaram um estudo falso sobre cloroquina e patinetes para denunciar uma revista científica asiática.

A generalização da ciência aberta, que consiste em disponibilizar gratuitamente todos os estudos e seus dados na internet de forma a garantir a maior transparência, pode ser uma solução interessante para combater as fraudes. “Isso tornaria necessário realizar operações de controle e melhorar a qualidade das informações, já que seriam pesquisáveis ​​e verificáveis ​​por todos”, indica Ghislaine Filliatreau à reportagem da L'Express.

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