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Covid-19: fechamento de academias gera polêmica na França sobre contaminação nas salas

O treinador e gerente do ginásio "Body Staff Gym" Mabchour Mourad vestindo uma máscara facial de proteção ajuda e dá instruções a um cliente, em Artigues-pres-Bordeaux, sudoeste da França.
O treinador e gerente do ginásio "Body Staff Gym" Mabchour Mourad vestindo uma máscara facial de proteção ajuda e dá instruções a um cliente, em Artigues-pres-Bordeaux, sudoeste da França. AFP - MEHDI FEDOUACH
Texto por: Lúcia Müzell
8 min

O setor garante que frequentar academias e outras salas de esporte é mais seguro do que ir a um restaurante ou ao cinema. Mas o governo francês insiste que, diante da alta dos casos de Covid-19 nas grandes cidades do país, os estabelecimentos esportivos devem fechar as portas por 15 dias, pelo menos. O foco da discórdia é o uso da máscara de proteção contra o coronavírus – nem sempre respeitado pelos frequentadores.

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A decisão do fechamento foi tomada pelo Ministério da Saúde da França na quinta-feira passada (25), com aplicação a partir do sábado (27) em cidades como Paris, Lyon e Marselha. A medida marcou um primeiro retorno de restrições devido à volta da circulação ativa do coronavírus do país.

O ministro da Saúde, Oliver Véran, alega que as academias representam “espaços confinados onde o uso da máscara é impossível e são, infelizmente, locais relevantes de contaminação”. Ele não apresentou, porém, dados que confirmem o risco mais elevado nestes lugares. O ministério se limitou a informar que, entre os cinco setores que mais apresentam riscos de propagação do vírus, o de atividades esportivas, recreativas e de lazer responde por 17% dos focos de contágio.

Esteiras são protegidas individualmente com placas de acrílico.
Esteiras são protegidas individualmente com placas de acrílico. © Lúcia Müzell/RFI

Ausência de dados conclusivos

Durante a semana, representantes do setor se insurgiram contra a nova determinação, alegando que até o momento, e com a obediência de medidas de precaução, não há prova científica de que as salas de esportes representem um risco mais elevado do que outros locais que recebem público atualmente no país. Os sindicatos protestaram, ainda, contra a existência de distinções dentro do próprio meio esportivo – as piscinas, por exemplo, permanecem abertas.

O sindicato Union Sport Cycles afirma que, apesar das 27 milhões de entradas de alunos em salas de esportes desde 1˚ de junho, apenas 207 casos de coronavírus foram detectados nas academias francesas. A rede de academias Fitness Park assegura ter registrado 63 casos em meio às 7 milhões de entradas contabilizadas em três meses. O problema desses dados é que são baseados em informações dos próprios usuários, na ausência de uma avaliação mais detalhada pelos órgãos competentes.

O setor recém começava a se recuperar da crise gerada pela quarentena, entre março e junho. Setembro é melhor mês do ano para as academias francesas, que registram 30% das vendas de inscrições neste período, logo depois das férias de verão no continente europeu, em julho e agosto.

Tatiana Bichara Leal, manager da academia Ovalie Fitness
Tatiana Bichara Leal, manager da academia Ovalie Fitness © Arquivo Pessoal

“Depois da quarentena, as pessoas viram o quanto o esporte é necessário para a saúde mental”, relata a brasileira Tatiana Bichara Leal, gerente, junto com o marido, da academia Ovalie Fitness, em Toulouse. A prática esportiva ainda contribui para afastar comorbidades como a obesidade, que acentua as chances de desenvolvimento de uma forma grave da Covid-19.

Regras facultativas

Ao liberar a reabertura dos estabelecimentos, o governo francês não impôs obrigações, mas recomendou uma série de medidas para impedir a propagação do vírus nesses ambientes. As principais são disponibilização de álcool gel, limitação do número de clientes, reserva prévia de horário para o treino e separação de pelo menos 1 metro entre os aparelhos ou colchonetes.

Para muitos clientes, entretanto, as medidas não foram suficientes para garantir a segurança para voltar a treinar em um espaço fechado, ventilado por ar condicionado. “Perdemos 12% da clientela, a maioria idosos”, afirma Tatiana.

Na sua academia, os vestiários foram fechados, as portas de entrada e saída passaram a ser distintas e um circuito para o uso dos aparelhos de musculação foi estabelecido, para diminuir ao máximo a circulação no local e limitar os contatos entre os praticantes de esportes. “As pessoas entenderam que, no contexto atual, elas não estão ali para conversar e fazer amigos, mas sim para treinar. Fizemos tudo isso para a proteção delas, por nos preocuparmos com a saúde dos nossos clientes”, diz a carioca.

Uso de máscara durante o exercício

O uso da máscara, porém, se mostrou uma barreira difícil de ultrapassar. "Se tem uma coisa que me irrita é máscara no queixo”, brinca a gerente. Como em bares e restaurantes, a regra na maioria das academias francesas é colocar o adereço durante os deslocamentos, mas não no momento dos exercícios. “A gente fez máscaras personalizadas e presenteou os clientes, para estimular. Demos um brinde, igual a criança, para eles obedecerem. Mas nem todos usam”, diz a brasileira.

A academia Front de Seine investiu 40 mil euros para tornar o espaço mais seguro contra o coronavírus.
A academia Front de Seine investiu 40 mil euros para tornar o espaço mais seguro contra o coronavírus. © Lúcia Müzell/RFI

Em Paris, a academia de alto padrão Front de Seine buscou o caminho mais próximo do risco zero para reconquistar os clientes. Cerca de € 40 mil foram investidos no programa batizado de 100% Covid Free, que inclui adaptações do local, instalação de placas de acrílico entre os aparelhos, mudança do ar condicionado por um sistema de ventilação que troca o ar seis vezes por hora, e compra de equipamentos como termômetros automáticos, distribuidores de álcool gel e lenços desinfectantes. Os custos mensais de manutenção também subiram € 6 mil a mais ao mês para garantir o aumento da frequência da limpeza por profissionais e o material cotidiano de desinfeção para professores e alunos.

“Ninguém anda sem máscara aqui e ela só pode ser retirada enquanto o aluno estiver realizando o exercício”, resume o representante comercial Thomas Brenot.

Ao chegar no local, os clientes têm a temperatura verificada e recebem um “kit Covid”, composto por uma máscara, um pano e um spray desinfetante. Durante o treino, devem higienizar cada aparelho ou colchonete utilizado. Um funcionário circula pela academia para verificar que todos estão cumprindo as normas.

“Você não vê esse rigor em nenhum lugar dos que permanecem abertos, como lojas e restaurantes. É desmotivante saber que esse nosso esforço não é considerado e todas as academias foram obrigadas a fechar, indiscriminadamente”, lamenta Brenot.

Thomas Brenot, respeitante comercial da academia Front de Seine, em Paris.
Thomas Brenot, respeitante comercial da academia Front de Seine, em Paris. © Lúcia Müzell/RFI

Recursos à Justiça

Os representantes do setor foram à Justiça para revogar a determinação do ministério. Em Rennes, as academias já puderam reabrir por determinação judicial e em Toulouse deve ocorrer o mesmo neste sábado (3).

A capital também deverá se beneficiar de uma medida semelhante. O Tribunal Administrativo de Paris pediu à Secretaria de Segurança que derrube o fechamento até segunda-feira e faça uma distinção entre os cursos individuais ou coletivos nos quais não há nenhum contato entre os praticantes, e aqueles nos quais o contato é inevitável.

“Nada indica que as salas nas quais são praticadas atividades físicas (…) não implicando nenhum contato entre os participantes possam ser vistas como locais de propagação ativa do vírus Covid-19, embora esses estabelecimentos sejam frequentados por jovens adultos”, frisa o tribunal.

Academias como a Ovalie Fitness adaptam disposição dos aparelhos para respeitar distanciamento de pelo menos 1 metro entre os alunos.
Academias como a Ovalie Fitness adaptam disposição dos aparelhos para respeitar distanciamento de pelo menos 1 metro entre os alunos. © Tatiana Bichara Leal/ Arquivo Pessoal

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