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Após assassinato de professor francês, liberdade de expressão será um desafio nas escolas?

"Samuel Paty foi morto por ter feito seu trabalho de professor", diz cartaz de manifestante durante mobilização na Praça da República, em memória ao professor assassinado na sexta-feira (16).
"Samuel Paty foi morto por ter feito seu trabalho de professor", diz cartaz de manifestante durante mobilização na Praça da República, em memória ao professor assassinado na sexta-feira (16). © Adriana Brandão/RFI
Texto por: Daniella Franco
7 min

Um dia após as gigantescas manifestações em memória ao professor Samuel Paty, assassinado na última sexta-feira (16) em um crime que horrorizou a França, o setor da Educação se questiona quais serão as consequências deste episódio nas escolas. Em todo o país, educadores expressam sua indignação e refutam a autocensura sobre a liberdade de expressão nas salas de aula.

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“É importante falar sobre a liberdade de expressão na sala de aula. Vamos continuar debatendo sobre isso e lutando pela laicidade na educação nacional”, diz a professora de História e Geografia Marylin, que foi à manifestação na Praça da República, em Paris, no domingo (18). À RFI, ela contou já ter enfrentado reações violentas da parte de alunos ao abordar os atentados terroristas de janeiro de 2015 na França.

“A escola é o local de debate, é o local onde argumentamos, onde incitamos os alunos a refletirem e a se tornarem cidadãos esclarecidos”, afirma Muriel, outra professora que participou da mobilização em memória a Samuel Paty em Paris. “A única coisa que esse professor fez foi desempenhar bem o seu trabalho, transmitir valores, incentivar os alunos a pensarem. E ele morreu por estar cumprindo o seu dever, o que é inaceitável”, reitera.

O assassinato do professor Samuel Paty, decapitado após ter suscitado uma forte polêmica por exibir caricaturas de Maomé em sala de aula, trouxe à tona uma questão para a qual os professores tentavam há anos chamar a atenção: a dificuldade de abordar temas relacionados à religião nas escolas. Por isso, para os representantes do setor da educação, tratar de assuntos considerados tabus na sociedade é fundamental.

Hipersensibilidade a temáticas religiosas

Christine Guimonnet, professora de História e Geografia em Pontoise, na grande região parisiense e secretária-geral da Associação de Professores de História e Geografia, percebe uma “hipersensibilidade a temáticas religiosas” na sala de aula. Por isso, segundo ela, “é importante que possamos ajudar os alunos a interpretar tudo isso”.

“Alguns estudantes me dizem: ‘não é normal que faltemos com respeito às religiões, não é normal haver blasfêmia’. Então, neste momento, é preciso explicar para eles que a blasfêmia, em um Estado democrático, em um Estado laico, não existe e não é um crime. É preciso diferenciar entre criticar uma religião e o fato de que as pessoas, a título pessoal, podem se sentir chocadas”, defende, em entrevista à RFI.

Apesar de reconhecer que a liberdade de ensinar esteja ameaçada, Christine Guimonnet convoca toda a sociedade a reagir em defesa da educação. “Existe um risco, mas não deveria. Precisamos trabalhar juntos, instituições e Estado, para que possamos todos ensinar conforme o que está previsto nos programas, expandir as temáticas, nos concentrar nos interstícios onde poderemos difundir o saber e o conhecimento para que nossos alunos saiam fortificados de tudo isso”, afirma.

Mesmo após o choque com o assassinato de Samuel Paty, a necessidade de continuar abordando a liberdade de expressão nas escolas é unanimidade entre os profissionais da educação. O professor de História e Geografia Benoît Teste, secretário-geral do sindicato de educadores FSU, recusa a ideia da dificuldade de tratar o assunto em sala de aula.

Espírito crítico

“Acho que sobretudo não devemos pensar isso. A principal mensagem que queremos enviar é que é preciso seguir adiante e reforçar o que fazemos hoje sobre a liberdade de expressão, a educação ao espírito crítico, a laicidade, o vivermos juntos. Não devemos acreditar que nada é possível nos estabelecimentos de ensino”, afirma, em entrevista à France Inter.

Benoît Teste também acredita que é necessário ponderar o tratamento do assunto para que sua abordagem não seja exagerada. “Não se trata de falar sobre isso em todas as aulas, o tempo todo, mostrar as caricaturas em qualquer momento. É preciso fazer isso com discernimento, ver o que será útil, sem censurar, mas manter a relação com que está previsto nas instruções oficiais e programas, que devem servir de base para as aulas”, recomenda.

Falhas no sistema educacional

Frédérick Genevée leciona História e Geografia a alunos do Ensino Médio. Em entrevista à RFI, ele defende que o ensino da liberdade de expressão “não pode ser feito de qualquer jeito”. Segundo ele, parte da dificuldade de tratar o assunto com os jovens está dentro do próprio sistema educacional francês. O professor critica, por exemplo, o fato de as salas de aula serem sobrecarregadas “com 35 alunos”. Também reclama que, desde a reforma do Ensino Médio, em 2019, a duração das aulas de História e Geografia em muitos estabelecimentos de ensino diminuiu de duas horas para uma hora e meia.

“Ou seja, hoje temos menos tempo para aprofundar esse tema difícil com os alunos. Então, antes de nos dizerem o que temos que fazer, seria necessário que nos dessem tempo suficiente para trabalhar. São questões difíceis de serem tratadas. Uma aula sobre esse assunto não pode simplesmente ser improvisada”, salienta.

O professor explica, por exemplo, que o ensino da liberdade de expressão na França remete ao papel da Revolução Francesa, as lutas por esse valor no século 19, a origem da lei da separação entre a Igreja e o Estado, em 1905, que exigem a contextualização de um longo percurso até que se possa tratar a liberdade de imprensa nos dias de hoje e as questões da atualidade.

Paradoxo

“Estamos vivendo um paradoxo. Porque, ao mesmo tempo, ouvimos nossa hierarquia e os ministros dizerem que é preciso falar de laicidade. Estamos de acordo. Mas nos deem tempo e meios para lecionarmos com imparcialidade para que os alunos possam entender a origem e a importância de tudo isso. Caso contrário, vamos entrar em um método autoritário e isso, com certeza, não funciona”, afirma.

Para Frédérick Genevée, não há dúvidas que as polêmicas caricaturas publicadas pelo jornal satírico Charlie Hebdo devem ser mostradas em sala de aula, mas sempre “contextualizando e mostrando a dinâmica histórica à qual esses acontecimentos se inserem”.

“Daqui para frente, tudo vai depender da reação da sociedade e não apenas dos professores e dos alunos. Se for adotado um discurso de guerra civil pela extrema direita, talvez iremos teremos que lidar com graves consequências deste trágico episódio para a nossa profissão. Mas, diante do professionalismo dos meus colegas e da receptividade que tenho observado nos alunos, eu sinceramente espero que não”, conclui.

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