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França homenageia professor decapitado: "Morto porque encarnava a República e a liberdade"

Homenagem nacional ao professor Samuel Paty, assassinado por um extremista no dia 16 de outubro.
Homenagem nacional ao professor Samuel Paty, assassinado por um extremista no dia 16 de outubro. © Reprodução/France2
Texto por: Cristiane Capuchinho | Paloma Varón
6 min

Cinco dias após o assassinato de forma bárbara do professor de história e geografia Samuel Paty, uma homenagem nacional ao professor foi realizada na Universidade Sorbonne nesta quarta-feira (21). Paty foi decapitado na última sexta-feira (16) após ter mostrado aos seus alunos caricaturas de Maomé durante uma aula sobre liberdade de expressão. Nas palavras do presidente francês Emmanuel Macron, ele foi "morto porque encarnava a República e a liberdade".

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Às 19h30, o caixão de Samuel Paty entrou no pátio principal da Universidade Sorbonne carregado pela Guarda Republicana. A escolha do local para a homenagem é simbólica: o pátio principal da Sorbonne é marca do Iluminismo e um símbolo do ensino há mais de 800 anos na França.

Diante das estátuas do escritor Victor Hugo e do cientista Louis Pasteur, o professor recebeu a condecoração póstuma da Legião de Honra, a mais importante do país. O filho de cinco anos de Samuel Paty foi declarado "pupilo da nação", título dado aos filhos de soldados mortos.

Dentro da universidade, devido a restrições de distância por conta da Covid-19, 400 convidados, entre a família da vítima, representantes das mais diversas tendências políticas, e estudantes da região metropolitana de Paris acompanharam a leitura de textos sobre a profissão de educador, em homenagem a Paty.

O texto “Aos professores” de Jean Jaurès foi lido por um professor e amigo de Samuel Paty. Jean Jaurès foi um intelectual e político socialista francês, assassinado em 1914 por suas proposições pacifistas. 

Ao ouvir o poema "Para Samuel", de Gauvain Sers, lido por uma colega, muitos foram às lágrimas com o trecho "por sorte, todos nós tivemos um professor de história".

Após a leitura da carta do escritor de Albert Camus a seu primeiro professor, Louis Germain, no dia em que o escritor recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1957, o presidente começou a homenagem oficial.

Macron prometeu não falar sobre "o cortejo de terroristas ou seus cúmplices", "eles não merecem". O presidente discursou de maneira emocionada sobre a dedicação de Paty à nobre "tarefa de ensinar a ser cidadão", e reafirmou os esforços do professor em "formar republicanos, o combate de Samuel Paty."

Ao final, uma mensagem à nação e contra o radicalismo islâmico: "Na França, as luzes não se apagarão, nunca".

Leia detalhes do discurso de Macron que emocionou a França

Uma nação unida contra o radicalismo

A política francesa também se uniu nesta homenagem ao professor morto, em uma tentativa de mostrar unidade contra o radicalismo islâmico. Adversários políticos compartilharam a homenagem lado a lado. Entre eles, Marine Le Pen, líder da extrema direita, Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, Manuel Valls, ex-ministro do Interior e o ex-presidente socialista François Hollande (2012-2017). Também participaram da cerimônia representantes do Conselho Francês de Culto Muçulmano.

Do lado de fora, milhares de franceses chegaram cedo para garantir seu lugar diante de dois telões que transmitiram a cerimônia. Entre crianças, estudantes, adultos e idosos, o discurso era uníssono: a homenagem é também uma forma de apoio aos educadores, à liberdade de expressão e um protesto contra o terrorismo.

"Acho que é dever de todo cidadão estar presente a esta homenagem. O governo deve tomar medidas para que coisas desse tipo não aconteçam", afirmou o estudante Maxence, de 16 anos. "Ao atacar um professor, [o terrorista] atingiu a nação inteira", completou seu colega Axel, de 18 anos.

Os dois jovens saíram da periferia de Paris para participar do evento em um momento em que a capital francesa passa por um toque de recolher que obriga a volta para casa até as 21h.

Para o aposentado Gérard Bon, que também assistiu à cerimônia em frente à universidade, o assassinato de Samuel Paty é mais um dentro de "uma cadeia de crimes sem solução."

Os irmãos Côme, 12, e Eve, 10, também foram à Praça da Sorbonne, onde foi instalado um telão, para prestar homenagem ao professor assassinado. "Ele mostrou as caricaturas para educar os alunos, não para dizer que esta religião não é boa", diz Côme, que está no equivalente ao oitavo ano, mesma classe para a qual ensinava Samuel Paty. 

Ao longo de todo o dia, diferentes homenagens ao professor morto foram realizadas em diferentes cidades francesas, Pas-de-Calais, Toulouse, Lyon, entre outras. Um minuto de silêncio foi respeitado às 15h até mesmo pela televisão francesa.

Sete novos indiciados e um grupo pró-palestino dissolvido

Sete pessoas, incluindo dois adolescentes, foram indiciados nesta quarta-feira (21) por envolvimento ou cumplicidade com o assassinato do professor Samuel Paty, aos 47 anos.

O assassino, morto após o crime, teria sido estimulado ao atentado terrorista por uma campanha contra o professor. Paty mostrou caricaturas do profeta Maomé durante uma aula sobre liberdade de expressão. Um vídeo do pai de uma aluna indignado com a aula do professor foi divulgado em diversos grupos islâmicos e compartilhado pela mesquita de Pantin.

A campanha teria incitado o jovem checheno de 18 anos Abdullakh Anzorov a ir até a escola de Conflans Sainte-Honorine para atacar o professor. Sem conhecer o rosto de Paty, o terrorista teria pago cerca de € 300 a dois estudantes de 14 e 15 anos para identificá-lo.

Nesta quarta-feira, o governo francês dissolveu o coletivo pró-palestino Cheikh Yassine, conhecido por divulgar discursos de ódio. Além disso, a mesquita de Pantin, ao norte de Paris, fechou suas portas nesta quarta-feira por seis meses, por sua participação no compartilhamento do vídeo contra o professor.

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