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Decapitação de professor francês expõe vulnerabilidade de adolescentes na era das teorias do complô

Em Paris, jovens protestam contra o radicalismo e o discurso de ódio.
Em Paris, jovens protestam contra o radicalismo e o discurso de ódio. © Lucien Libert, Reuters
Texto por: Lúcia Müzell
6 min

O assassinato do professor francês Samuel Paty, decapitado por um jovem de 18 anos em vingança à exposição de caricaturas de Maomé, expõe a que ponto adolescentes podem estar vulneráveis à radicalização desde a saída da infância. Para executar seu projeto de ataque, o terrorista contou com a ajuda de pelos menos dois alunos da escola onde o professor dava aulas. Eles têm 14 e 15 anos.

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Os dois menores estão entre os indiciados nas investigações do ataque, ocorrido na sexta-feira passada (16). Na tarde do crime, o terrorista – um russo de origem chechena que jamais tinha visto Paty –, abordou os adolescentes e outros amigos, que concordaram em fazer uma descrição física do professor. Abdoullakh disse a eles que pretendia "filmar o professor, obrigá-lo a pedir desculpas [pela exibição das caricaturas], humilhá-lo e bater nele”. Prometeu-lhes € 350 de recompensa se apontassem o educador quando ele saísse da escola. Foi o que aconteceu. Instantes depois, Paty estava morto, a facadas.

Além disso, o papel de uma aluna de 13 anos, que fez um relato exagerado sobre a exibição dos desenhos pelo professor, também é investigado. Baseado nas declarações da jovem, o pai dela postou nas redes sociais dois vídeos inflamados contra Paty – que passou a ser um alvo de extremistas.

A antropóloga das religiões Dounia Bouzar estuda há mais de 15 anos o fenômeno da radicalização de adolescentes e jovens, contra a qual elaborou políticas junto ao governo do ex-presidente François Hollande (2012-2017). A pesquisadora e consultora acaba de lançar o livro A Tentação do Extremismo, no qual analisa, ao lado do ex-investigador Christophe Caupenne, a vulnerabilidade desse público a ideologias como o jihadismo, o supremacismo branco e o extremismo de esquerda (black blocs).

Em comum, ela identifica que todos são suscetíveis a teorias do complô que confortem determinadas frustrações, em um período da vida em que buscam se afirmar como indivíduos e ser acolhidos em uma comunidade.

"Nem todo complotista é extremista, mas não conheço um jihadista que não tenha passado pelo complotismo”, afirma Bouzar. “No caso do jihadismo, eles consideram que há um complô contra o islã pelos intelectuais, os maçons, por sociedades secretas que incitam o governo a combater os muçulmanos.”

Desconfiança de toda a sociedade

O processo de radicalização se inicia aos poucos, pela influência de algum amigo, familiar ou alguém conhecido pela internet. “A partir de um momento, há uma mudança cognitiva sobre a visão do mundo: eles começam a perder confiança no ser humano, nas leis humanas, na sociedade. Passam a pensar que só podem confiar naqueles que lhes revelaram que não podem mais confiar nos outros”, explica a especialista, que já acompanhou mais de mil jovens no delicado processo de "desradicalização".

A última fase dessa engrenagem, sublinha Bouzar, é quando o influenciador anuncia que a única solução para um mundo melhor é a lei divina, no caso do extremismo radical.

“Eles perdem o discernimento, desconfiam de todos os adultos – e, portanto, dos professores, que passam a ser percebidos como pessoas que querem afastá-los da realidade e do novo discernimento que eles, enfim, conseguiram enxergar”, afirma. “Desde antes dos atentados ao Charlie Hebdo, já havia registros claros sobre professores sendo percebidos como alguém que estava tentando doutrinar os alunos contra o Islã”, adverte.

Radicalização desde os 9 anos

A decapitação do professor por um jovem de 18 anos, com a ajuda de pelo menos dois menores de idade, também não surpreende a psicanalista Brigitte Juy, que atua na formação de professores para identificar sinais de radicalização em sala de aula e no auxílio a famílias nas quais o problema se apresenta. “Podemos ouvir comentários chocantes desde ainda mais cedo, de crianças de 9 ou 10 anos”, indica a especialista.

Ela lembra que, já em 2012, Mohamed Merah, autor dos primeiros atentados que lançaram essa onda recente de ataques na França, foi cultuado como herói por adolescentes de todo o país.

"Alguém que hoje tem 13 anos tinha apenas 5 quando Merah cometeu os atentados. Estamos falando de pessoas que nasceram nessa atmosfera que caricatura a identidade da França, que com seus valores, a laicidade e aulas sobre a liberdade de expressão, estaria 'se opondo' a eles. São crianças que nasceram em famílias ou grupos sociais nos quais existe essa concepção dos fatos, potencializada pelas redes sociais”, diz Juy.

Luta contra a radicalização desde cedo

A solução para o problema, alegam as duas especialistas, não virá por uma só via. “É preciso começar desde muito cedo. A escola tem um papel importante, mas não é a única responsável por fazê-los tomar consciência dessa atmosfera na qual estão imersos”, argumenta Juy. “O papel do professor é despertar o espírito crítico, encontrar maneiras de questionar o complotismo e afastar os adolescentes disso.”

Dounia Bouzar acrescenta o delicado debate sobre a laicidade. Para a antropóloga, apenas aqueles que já acreditam nos valores, deveres e direitos oriundos da educação laica estarão sensíveis a esse argumento, face ao terrorismo.

“Podemos falar de laicidade uma vez que esses jovens recuperarem o livre-arbítrio, quando voltarem a ser indivíduos que pensam e voltarem para a sociedade, voltarem a confiar no ser humano e nas leis humanas e compreenderem que a lei divina não passa de uma utopia”, frisa Bouzar. "Não é a laicidade que vai matar uma utopia jihadista, ou neonazista.”

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