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Hold-up: polêmico documentário francês denuncia "complô" da elite mundial com "invenção" da Covid-19

Reprodução do trailer do documentário francês "Hold-up", que trata a pandemia de Covid-19 como um complô mundial para controlar a humanifade. © YouTube
Reprodução do trailer do documentário francês "Hold-up", que trata a pandemia de Covid-19 como um complô mundial para controlar a humanifade. © YouTube © Captura de tela
Texto por: RFI
7 min

Centenas de milhares de pessoas já assistiram ao documentário francês "Hold-up", que suscita uma forte polêmica na França porque apresenta a pandemia de Covid-19 como um "complô mundial". Nas redes sociais, políticos e internautas denunciam um filme "delirante", que dissemina "fake news" sobre a doença.

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O filme só pôde ser produzido graças a uma doação de recursos on-line que coletou cerca de € 200 mil em tempo recorde. Lançado oficialmente em 11 de novembro, o trailer de "Hold-up" ("Assalto", em tradução livre) vem sendo compartilhado em massa nas redes sociais, o que ajudou na divulgação. 

O documentário de 2h40, dirigido pelo produtor Christophe Cossé e pelo jornalista Pierre Barnérias, apresenta a pandemia de Covid-19, apresentada como um complô.

Na página da plataforma Ulule, que recolheu as doações para a produção, a explicação do filme já incita à controvérsia: "A Covid-19 abriu espaço para debates contraditórios entre médicos, especialistas, professores, políticos e especialistas, orquestrados e alimentados pelas mídias", afirma. 

Em uma coluna publicada no site do jornal France Soir, o produtor do documentário, Christophe Cossé, descreve o coronavírus como "não mais grave do que outra doença sazonal" e critica uma "ideologia sanitária autoritária" que quer "criar uma sociedade vigiada e submissa". Ele ataca o que chama uma "inacreditável e fenomenal manipulação global" e afirma que os membros do Conselho Científico da França são "majoritariamente próximos dos laboratórios farmacêuticos.

Teorias conspiracionistas

No documentário, as principais autoridades francesas atuantes durante a crise sanitária - o presidente Emmanuel Macron, o ministro da Saúde Olivier Verán, o diretor-geral da agência de Saúde da França, Jérôme Salomon - são apresentados como mentirosos e manipuladores da opinião pública. Os líderes desse grande projeto mundial de dominação da humanidade seriam, segundo "Hold-up", personalidades clásssicas das teorias conspiracionistas: Bill Gates, David Rockefeller, o Fórum Econômico de Davos ou o economista francês Jacques Attali, que foi conselheiro do ex-presidente francês François Mitterrand.

Para convencer o público dessa "máquina mundial de domínio" representada por uma "simples doença", o documentário dá a palavra a "especialistas". "Uma vez que você convenceu as pessoas de que existe risco de morte, você pode fazer com elas o que bem entender", afirma no filme o antropólogo de saúde Jean-Dominique Michel.

O filme também traz entrevistas com figuras polêmicas da crise sanitária na França, como Christian Perrone, chefe do serviço de doenças infecciosas do Hospital Raymond-Poincaré em Garches, na grande região parisiense. Ao lado do professor Didier Raoult, ele é um dos maiores defensores da cloroquina no país. "Para mim, foi uma grande manipulação do público. As pessoas foram convencidas de que esse era um remédio perigoso, quando esse produto tem 95% de chances de salvar as pessoas", afirma em "Hold-up". 

Um mundo de heróis e bandidos

Usando uma estratégia clássica de disseminação de teorias complotistas, "Hold-up" separa os protagonistas da crise sanitária entre dois campos: os heróis e os bandidos. O documentário divide a questão de maneira sistemática e simplória entre quem considera como "os grandes manipuladores da população" e uma humanidade refém dos poderosos.

Em determinado momento do filme, uma parteira aparece aos prantos afirmando que "inúteis somos nós" diante "daqueles que vão decidir a forma como teremos direito de viver ou de morrer". Em outra parte do documentário, uma médica classifica as empresas farmacêuticas como "vendedoras de doenças".

Para os produtores do filme, não há dúvidas sobre a origem do coronavírus: o célebre laboratório P4 em Wuhan, na China. No entanto, nenhuma prova concreta que justifique a supeita é apresentada.

O uso de máscara também não seria eficaz, segundo o filme, que apresenta a proteção como potencialmente perigosa, favorecendo a proliferação de bactérias, fungos, problemas de respiração e dor de cabeça. Exibindo comparações descontextualizadas da mortalidade da Covid-19 comparadas a doenças cardiovasculares e câncer, o narrador afirma o quanto a preocupação com o coronavírus é exagerada, sem mencionar a súbita superlotação dos hospitais e a quantidade de doentes e óbitos subestimada na pandemia, já que muitos países não têm métodos seguros para registrar a verdadeira quantidade de vítimas.

O objetivo da "invenção da pandemia", segundo "Hold-up", seria o controle da massa pelas elites para dominar as populações e até mesmo reduzi-las. O problema é que os diretores apoiam essa tese em acusações duvidosas e sem evidências comprovadas. Além disso, a participação dos entrevistados é visivelmente manipulada por meio de edições. 

O ex-ministro da Saúde da França, Philippe Douste-Blazy, uma das fontes ouvidas no filme, afirma que foi enganado pela equipe de produção. Dizendo-se "escandalizado" com "quase tudo" no documentário, ele fez um pedido formal para que suas imagens e declarações sejam retiradas de "Hold-up". 

A plataforma de vídeos Dailymotion, onde o documentário estava disponível inicialmente, o retirou do ar. No entanto o filme ainda pode ser assistido no site dos produtores.

Documentário "delirante"

"Cerca de seis milhões de pessoas compartilharam o link do documentário", afirma Tristan Mendès-France, especialista do digital e do complotismo. Lamentando a grande quantidade de pessoas expostas a "Hold-up" ele classifica a produção como "delirante". O problema, segundo ele, é que o contrapeso da checagem das informações chegará depois que o filme terá viralizado e que "o mal será feito".

"O que é notável é que o filme ultrapassou sua audiência natural, os fãs de complô, geralmente de extrema direita", reitera. O preocupante, segundo ele, é que o público saiu do espectro tradicional "contaminando comunidades muito maiores".

O buzz sobre "Hold-up" é tamanho que até mesmo personalidades do mundo artístico, como o rapper Booba e a atriz Sophie Marceau, se pronunciaram a favor da produção nas redes sociais.

"É um filme, não um documentário. É uma obra de ficção do começo ao fim", afirma Sylvain Délouvée, pesquisador em Psicologia Social da Universidade Rennes 2. Ele observa principalmente o abuso de entrevistas com "especialistas de quem jamais ouvimos falar" ou de personalidades polêmicas e extremamente controversas.

A forte repercussão de "Hold-up" em um momento em que a França enfrenta a segunda onda de Covid-19 e a situação dos hospitais beira a superlotação, preocupa as autoridades. "O risco, quando falamos sobre algo, é fazer publicidade", afirma a deputada Coralie Dubost, do partido governista A República em Marcha. Segundo ela, "quando o limite da audiência é ultrapassada, na minha opinião, é preciso dizer basta". 

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