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França tem mais de um milhão de “novos pobres” gerados pela pandemia de Covid-19

A pandemia fez aumentar o número de pessoas que recorrem às associações caritativas em busca de comida na França.
A pandemia fez aumentar o número de pessoas que recorrem às associações caritativas em busca de comida na França. AFP - CHRISTOPHE ARCHAMBAULT
Texto por: RFI
4 min

Desde o primeiro lockdown, em março de 2020, um milhão de pessoas entraram para a pobreza na França. A crise econômica gerada pela pandemia de Covid-19 fez surgir uma categoria de “novos pobres” composta por trabalhadores precários, autônomos, idosos e estudantes.  

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O mundo já conheceu outras crises sanitárias ligadas à propagação de diferentes vírus. No entanto, poucas pandemias geraram tamanho impacto na economia, cada vez mais globalizada. As restrições sanitárias e as diferentes medidas de confinamento obrigaram indústrias a pararem suas máquinas, colocaram o turismo no ponto morto e puxaram o freio de muitas atividades, provocando uma queda no crescimento, inclusive das potências mundiais.

Alguns países se saíram melhor na crise. A China, estopim da pandemia, foi uma das nações que reagiram mais rapidamente e já relançaram sua economia. No entanto, todos os continentes registram o impacto do vírus em suas atividades.

Na França, que vive o seu segundo lockdown desde o início do ano, com o comércio não essencial fechado antes mesmo de ter se recuperado de um primeiro confinamento que paralisou totalmente o país, a situação preocupa. Pierre Soulages, presidente honorário do Socorro Católico (Secours Catholique), associação que fornece ajuda aos necessitados, tem visto cada vez mais pessoas que até então não frequentavam as filas da entidade em busca da comida.

Segundo ele, a população mais afetada hoje são “as mães solteiras com crianças, que já tinham empregos precários e cujos contratos não foram renovados”. Soulages também ressalta a presença de pessoas mais idosas ou próximas de se aposentar, que são preteridas pelos mais jovens diante das poucas oportunidades de empregos. No entanto, ele chama a atenção para o número cada vez maior de jovens pedindo ajuda ao Socorro Católico. “Quando chegam, não possuem mais nada”, relata. “Muitas vezes são estudantes, que faziam pequenos trabalhos para sobreviver, e que precisam continuar a pagar o aluguel e suas despesas pessoais. Estes se encontram numa situação insuportavelmente complicada”, constata Soulages.

“Antes fazíamos doações, agora vivemos de ajuda”

A RFI organiza nessa sexta-feira (20) uma programação especial sobre os impactos da pandemia na economia mundial. Além de receber representantes de instituições multilaterais, como a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, vários desses “novos pobres” franceses testemunharam durante o dia.

Karim e Amina , que vivem na periferia de Paris, são alguns dos representantes dessa “nova pobreza”. Ele, ex-contador que trabalhava como motorista, já dependia de ajudas dos serviços sociais pois sua mulher, esteticista, é inválida há cinco anos.

Karim e Amina Tabchiche são representantes da "nova pobreza" gerada pela Covid-19.
Karim e Amina Tabchiche são representantes da "nova pobreza" gerada pela Covid-19. © Thomas Giraudeau
Apesar de precário, o casal, que tem menos de 50 anos, tinha uma vida digna. Pelo menos até março de 2020, quando a França instaurou o primeiro lockdown. As ajudas sociais dadas à Amina foram reduzidas e Karim foi colocado em férias compulsórias. “Entre março e setembro não pude pagar o aluguel. Já temos € 4 mil atrasados. O proprietário é compreensivo, mas uma hora teremos que reembolsar essa dívida”, explica Karim.

O casal começou a receber benefícios do governo, alguns já existentes e outros criados especialmente para responder ao impacto da pandemia. Mesmo assim, Karim e Amina tiveram que bater na porta de Socorro Popular (Secours Populaire), outra associação de ajuda aos necessitados, que começou a lhes fornecer uma cesta básica.

“Antes do confinamento, nós fazíamos doações para essas associações. Agora, somos sós que precisamos de ajuda”, constata Amina. “Não podemos pedir de porta em porta. É difícil aceitar”, diz, antes de desabafar: “mas estamos no meio do mês e a geladeira já está vazia”.  

 

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