Protocolo de consentimento é o que atrasa vacinação na França, diz co-diretora do Observatório da Saúde Mundial

A aposentada Mauricette, de 78 anos, inaugurou a campanha de vacinação contra a Covid-19 na França, em 27 de dezembro de 2020.
A aposentada Mauricette, de 78 anos, inaugurou a campanha de vacinação contra a Covid-19 na França, em 27 de dezembro de 2020. REUTERS - POOL
Texto por: Daniella Franco
8 min

O governo francês é alvo de críticas, há vários dias, sobre a lentidão para a vacinação contra a Covid-19. Ao contrário de muitos países, a França conta com doses suficientes para a primeira fase da imunização. No entanto, a autorização para a aplicação do produto nas casas de repouso para idosos tem tomado muito mais tempo do que se imaginava, aponta Anne Sénéquier, co-diretora do Observatório da Saúde Mundial e pesquisadora do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas da França (Iris).

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As críticas vêm da parte da oposição, do movimento antivacina e ocupam editoriais dos principais jornais franceses. Em pouco mais de dez dias de campanha, a França conseguiu vacinar cerca de 7 mil pessoas, ocupando a posição de lanterninha na União Europeia e muito aquém dos Estados Unidos, que já imunizou cerca de 3 milhões de pessoas, ou de Israel, onde 7,5% da população recebeu a primeira dose do produto.

Segundo o site Covidtracker.fr, que compila dados sobre a pandemia, a França conta atualmente com um estoque de 560 mil vacinas da Pfizer/BioNTech. Com a aprovação da Agência Europeia de Medicamentos do produto da Moderna, nesta quarta-feira (6), novos lotes devem chegar ao país. No entanto, desde a inauguração da campanha de imunização, em 27 de dezembro, a França pena a cumprir o calendário, que previa inocular a primeira dose em 1 milhão de pessoas até o final de janeiro.

Para Anne Sénéquier, a estratégia de vacinação determinada pelo governo francês justifica a lentidão. Ao contrário de vários países, a França escolheu levar as vacinas até as casas de repouso para idosos, onde ocorre a primeira fase da imunização, evitando que residentes e cuidadores se desloquem até hospitais ou centros de vacinação. Mas, segundo a especialista, a burocracia relacionada ao procedimento para o consentimento à aplicação do produto tem atrasado o processo.

“O trabalho de pesquisa sobre autorização para as vacinas não foi feito antes da chegada dos imunizantes. E, quando eles chegaram, consultas de ‘pré-vacinação’ começaram a ser organizadas nas casas de repouso para recolher o consentimento das pessoas, contar a quantidade de voluntários dispostos a participar deste processo, enviar os formulários de encomenda aos centros de estoque de vacinas. Tudo isso demorou quatro, cinco dias, o que fez que a quantidade de pessoas imunizadas na primeira semana não tenha passado de mil”, observa.

O protocolo pode ser longo: antes de receber a injeção, cada pessoa deve realizar uma consulta médica para verificar se há contraindicação para a vacina. O médico também é responsável por transmitir ao paciente todas as informações sobre o imunizante para que ele tome a decisão ou não de ser vacinado. Todo o procedimento e o consentimento ficam registrados no dossiê de saúde do indivíduo. Caso ele não seja capaz de de expressar – situação comum entre os residentes de casas de repouso – um representante legal deve tomar a decisão no lugar do idoso.

De acordo com a co-diretora do Observatório da Saúde Mundial, a demora para obter o consentimento também pode estar relacionada ao forte ceticismo dos franceses em relação à vacina contra a Covid-19. A França tem uma das populações mais resistentes ao imunizante na Europa. Uma pesquisa recente do Instituto Odoxa para o jornal Le Figaro e a Franceinfo apontou 58% das pessoas ouvidas não pretende se vacinar, um número que cresceu durante a fase atual da crise sanitária.

Para Anne Sénéquier, uma das razões para este aumento é o grande destaque que o movimento antivacina ganhou na mídia. “Observamos uma multiplicação de contestação nos últimos meses e talvez deu-se um espaço exagerado para essa desconfiança. Por outro lado, nesse contexto de atraso da campanha, ouvimos, pela primeira vez desde o início da epidemia, pessoas que querem ser vacinadas. Então, talvez esse seja um bom sinal”, pondera.

Polêmica estratégia de vacinação

Outra polêmica envolvendo a estratégia do governo francês para imunizar a população contra a Covid-19 diz respeito à contratação de uma consultoria privada americana, a McKinsey and Company. O caso foi revelado pelo jornal Le Canard Enchaîné e pelo site Politico, e confirmado pelo Ministério da Saúde nesta quarta-feira (6).

“Essa consultoria está ligada à task force do Ministério da Saúde e colabora sobre a estratégia e a logística. Mas não são eles que elaboram sozinhos a estratégia”, indicou uma fonte do governo ao jornal Le Monde.

As revelações fizeram reagir a oposição, tanto à esquerda quanto à direita. “Isso é prova da desqualificação dos agentes de Estado que estão encarregados da estratégia de vacinação. Isso mostra que, até aqui, nada foi previsto e isso é alarmante”, publicou no Twitter o chefe do Partido Socialista, Olivier Faure.

“Emmanuel Macron, que é incapaz de dirigir sua administração, incapaz de se fazer respeitar, incapaz de ordenar, confiou à consultoria McKinsey and Company a estratégia de vacinação francesa. Essa é a realidade do país!”, afirma Nicolas Dupont-Aignan, presidente do partido de direita França Em Pé, em um vídeo divulgado nas redes sociais.

Em coluna publicada no jornal Le Figaro no último dia 1° de janeiro, o economista Antoine Levy, que prepara uma tese no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) afirma que a lentidão da vacinação francesa é “símbolo da desclassificação” e do “impressionante empobrecimento organizacional e tecnológico” do país.

Vacina francesa não ficou pronta a tempo

Outra falha apontada por Antoine Levy é o atraso francês, em relação a outros países, para desenvolver seu próprio imunizante. “A França é o único membro do Conselho de Segurança da ONU (China, Estados Unidos, Reino Unido – sem contar a Alemanha) a não ter desenvolvido sua própria vacina”, sinal de uma “incompetência administrativa, técnica, industrial, científica”, diz.

Anne Sénéquier contesta a crítica. “Que a vacina seja dinamarquesa, alemã, inglesa ou americana, isso não muda nada. O importante é salvar a vida das pessoas. Por outro lado, vimos que desde que os laboratórios começaram a anunciar resultados sobre seus imunizantes, os países mais ricos se apressaram para fazer acordos e reservar essa vacinas que atualmente não estão disponíveis para todo o mundo. Vemos bem que os países tropicais, por exemplo, não estão vacinando hoje e isso não é correto”, avalia.

O laboratório francês Sanofi anunciou em dezembro que seu produto estará pronto para utilização somente no final de 2021, uma questão que também suscitou críticas por parte da opinião pública. Mas, para a pesquisadora do Iris, é normal que entre os 214 "candidatos-vacina", apenas três ou quatro estejam prontos atualmente.

“Essas vacinas tiveram menos de um ano para serem desenvolvidas. Pode ser que, em termos de destaque da pesquisa francesa, não termos apresentado um imunizante na frente de outros países seja algo negativo. Mas, em termos sanitários, é bom que não haja apenas uma ou duas vacinas e que outras continuem sendo desenvolvidas. Precisamos vacinar 7 bilhões de pessoas em todo o mundo”, destaca.

Na terça-feira (5), o Ministério francês da Saúde anunciou uma série de novas medidas para acelerar a imunização no país. Para tentar apaziguar a desconfiança sobre o método adotado pelo governo, o ministro francês da Saúde, Olivier Verán, afirmou que em apenas um dia cinco mil pessoas receberam a primeira dose no país. Um conselho de defesa sanitária também foi organizado nesta quarta-feira, às vésperas de uma coletiva de imprensa do primeiro-ministro Jean Castex sobre as mudanças na estratégia de vacinação no país.

Anne Sénéquier prefere manter o otimismo sobre a questão. “Vamos aumentar a quantidade de pessoas imunizadas, vamos abrir centros de vacinação em hospitais, vamos facilitar o procedimento para o consentimento, e tudo isso é muito bom. Uma campanha de vacinação nacional exige uma logística importante e sabemos fazer isso”, afirma.

A pesquisadora lembra que, no final do ano, antes da chegada do inverno no Hemisfério Norte, a França realizou uma vacinação em massa contra a gripe e atingiu um objetivo muito maior do que se deseja atualmente contra o coronavírus. Em apenas dois meses, entre meados e outubro e dezembro, 13 milhões de franceses se imunizaram contra a gripe. “É preciso nos basearmos em nosso ‘savoir-faire’ e aplicarmos esse conhecimento e experiência na luta contra a Covid-19”, conclui.

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