Sarkozy enfrenta nova investigação por atividade de consultoria suspeita para seguradora russa

Nicolas Sarkozy pode ser condenado a quatro anos de prisão em processo de escutas telefônicas.
Nicolas Sarkozy pode ser condenado a quatro anos de prisão em processo de escutas telefônicas. Thomas SAMSON AFP/File
Texto por: RFI
4 min

A Procuradoria Nacional Financeira (PNF) francesa está investigando o ex-presidente Nicolas Sarkozy por suspeita de "tráfico de influência" e "ocultação de crime ou delito", em conexão com suas atividades de consultoria na Rússia. O inquérito, conduzido por juízes anticorrupção, foi aberto em meados do ano passado, revelou nesta sexta-feira (15) o site de informações Mediapart. 

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A Justiça francesa busca verificar se o ex-chefe de Estado atuou apenas como consultor da seguradora russa Reso-Garantia, o que seria perfeitamente legal, ou se ele teria se envolvido em atividades de lobby potencialmente criminosas, representando interesses de oligarcas russos, afirma o Mediapart

Segundo o veículo de informação, Sarkozy recebeu um pagamento de € 500 mil referente a um contrato de consultoria assinado com a companhia russa em 2019, cujo valor global era de € 3 milhões. O depósito, ocorrido no início de 2020, foi rastreado pelo sistema Tracfin, uma ferramenta do Ministério das Finanças francês que monitora as transações bancárias superiores a cerca de € 100 mil, para evitar lavagem de dinheiro. Ao detectar o depósito vindo da Rússia na conta de Sarkozy, a equipe do Tracfin enviou um relatório à Procuradoria Nacional Financeira (PNF), que decidiu abrir uma investigação. 

"Conselheiro especial"

A seguradora Reso-Garantia pertence a dois irmãos russo-armênios, os bilionários Sergey e Nikolay Sarkisov. Eles confirmaram ao site Mediapart terem contratado Sarkozy como "conselheiro especial" e "presidente da comissão de consultoria estratégica do conselho de administração".

Fundada em 1991, a Reso-Garantia é uma das principais seguradoras da Rússia. A companhia é especializada principalmente em seguros de automóveis e motocicletas e possui 11 milhões de clientes. Em 2007, a seguradora francesa AXA fechou um acordo com os acionistas da Reso-Garantia para a aquisição de 36,7% do capital desta empresa, por cerca de € 810 milhões. De acordo com o site Mediapart, a AXA é um cliente importante do escritório de advocacia Realyze, cofundado em 1987 por Nicolas Sarkozy.

Procurado para comentar as revelações do site Mediapart, Sarkozy não se pronunciou. Mas assessores disseram que ele está "totalmente tranquilo" e garante que "as atividades de consultoria" foram realizadas "no estrito cumprimento das normas legais e éticas". Sarkozy já expressou em várias ocasiões sua irritação contra a PNF: “Tenho a impressão de que o Ministério Público Financeiro foi criado para mim”, declarou em 7 de dezembro passado, durante seu julgamento no chamado processo das escutas telefônicas.

Casos em tramitação na Justiça 

Esta nova investigação representa um problema jurídico adicional ao ex-presidente de direita. Em dezembro, ele foi julgado por outro suposto delito de corrupção e tráfico de influência no caso das escutas telefônicas. A sentença do Tribunal de Paris será anunciada em 1º de março. A Promotoria pediu quatro anos de prisão contra o ex-presidente, dos quais dois com direito a sursis.

A partir de 17 de março, ele será novamente julgado, desta vez no caso Bygmalion, em que é suspeito de "financiamento ilegal" de sua campanha eleitoral de 2012. Mas o principal escândalo que preocupa Sarkozy é o de suspeita de financiamento líbio da campanha presidencial de 2007. Nesse processo, a PNF evoca um "pacto de corrupção" com a ditadura de Muammar Kaddafi.

Sarkozy foi o primeiro ex-presidente da França desde o estabelecimento da Quinta República, criada pela Constituição de 1958, a comparecer como réu em um tribunal. Antes dele, apenas Jacques Chirac (1932-2019), seu antecessor e mentor político, foi julgado e condenado por desvio de verbas públicas, quando ocupou o cargo de prefeito de Paris. Porém, devido a problemas de saúde, Chirac nunca compareceu perante um tribunal.

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