França pretende restringir financiamento de mesquitas com fundos estrangeiros

A futura Grande Mesquita de Angers, na França, em construção, em 27 de outubro de 2020.
A futura Grande Mesquita de Angers, na França, em construção, em 27 de outubro de 2020. AFP - JEAN-FRANCOIS MONIER
Texto por: RFI
5 min

Nesta semana, os deputados franceses começam a examinar o projeto de lei para "fortalecer os princípios da República", também conhecido como Lei contra o separatismo. Este texto visa proteger o princípio da laicidade e inclui maior controle das associações religiosas, obrigando-as, entre outras coisas, a serem mais transparentes sobre a origem de suas doações vindas do exterior. Esses artigos são direcionados especialmente à administração de locais de culto muçulmanos. Em Angers, no oeste da França, a questão é polêmica.

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Marie Casadebaig

A construção da grande mesquita da cidade de Angers começou há cinco anos. Quando concluída, será a quarta maior da França, com capacidade para acolher 2.500 pessoas. Dois terços do edifício foram concluídos graças a doações dos fiéis. Mas para financiar mais rapidamente a fase final das obras, a Associação dos Muçulmanos de Angers aceitou a participação do Marrocos, que prometeu pagar € 4,5 milhões sob a condição de se tornar o dono do templo.

Este requisito não tem aprovação unânime dos praticantes do Angers. No final da oração da última sexta-feira, 29 de janeiro, alguns fiéis expressaram sua oposição à transferência da propriedade para o Marrocos. Eles recusam que sua futura mesquita pertença a um país estrangeiro, especialmente porque na comunidade muitos vêm de outros países. "Por que Marrocos e não de outro país?", dizem à RFI. Este grupo de fiéis se sente enganado por ter ajudado a financiar um projeto que agora poderia escapar de suas mãos.

As autoridades locais se opõem

Se a operação marroquina é perfeitamente legal, ela não é apreciada pelas autoridades da Câmara Municipal de Angers. “O que nos incomoda é que um Estado possua um enclave em nosso município, a fortiori um local de culto”, disse à RFI o vice-prefeito, Jean-Marc Verchère. “Embora o projeto comece com as melhores intenções, ele pode excluir uma parte dos muçulmanos, os não marroquinos”.

A Câmara Municipal local encontrou então uma maneira de evitar a cessão por enquanto. Uma linha na escritura de venda do terreno opõe-se à sua revenda antes da conclusão da obra. Mas a prefeitura sabe que só está ganhando tempo. Esta é a sua última alavanca legal.

Para defender o seu projeto, a AMA, Associação dos Muçulmanos de Angers, considera que, se dependesse apenas de doações privadas, a mesquita só estaria terminada nos próximos dez anos e que nesse período as obras podem deteriorar-se. Esta é uma questão urgente, disse, acrescentando que se dirigiu a vários países, mas que apenas o Marrocos respondeu.

Segundo Mokhtar Hedia, porta-voz da AMA, a proposta marroquina foi a preferida pela associação. O Marrocos tem o hábito de financiar mesquitas na França, por meio de seu Ministério de Assuntos Islâmicos. “O país se compromete a continuar a ser apenas gestor das instalações. Posso garantir que, se o projeto for levado adiante, não haverá interferência nos assuntos da mesquita ”.

Diplomacia através da religião

O interesse marroquino é principalmente diplomático, de acordo com Haoues Seniguer, um professor da universidade Sciences Po de Lyon (leste da França), que estuda questões relacionadas ao Islã no país. Segundo Seniguer, é uma forma de Rabat manter um vínculo com sua diáspora por meio da religião.

Mas também para competir com outros países, como a Argélia, em sua tentativa de influenciar o Islã na França. Desde os ataques que ocorreram em seu território no início dos anos 2000, o reino de Marrocos tem tentado conter o extremismo, inclusive em solo francês.

Também por razões diplomáticas, Seniguer considera que, como o Marrocos, os Estados que investem em locais de culto na França têm interesse em sua diáspora respeitar escrupulosamente as leis da República, de modo a nunca manchar sua imagem e arriscar prejudicar sua relação com Paris . “É um islamismo conservador que eles promovem”, diz o professor, “mas um islamismo legalista”. Seniguer dá o exemplo da Grande Mesquita de Lyon, que nunca caiu no islamismo salafista (extremista radical), embora tenha sido financiada principalmente pela Arábia Saudita.

Na França, de acordo com um relatório parlamentar de 2016, cerca de 10% das mesquitas são financiadas por doações estrangeiras, tanto de Estados quanto de patronos ricos. O documento indica que, além disso, os países estrangeiros financiam os salários de mais de 300 imãs e administram a formação de outros cem.

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