Covid 19: médicos responsabilizam variante britânica pelo aumento de internações na França

Hospitais da França vêm registrando um forte aumento de hospitalizações e internações nas UTIs devido à rápida propagação da variante britânica do coronavírus.
Hospitais da França vêm registrando um forte aumento de hospitalizações e internações nas UTIs devido à rápida propagação da variante britânica do coronavírus. AP - Daniel Cole

A França registra nesta terça-feira (9) quase 30 mil hospitalizações de pessoas contaminadas pela Covid-19; mais de 1.800 entradas foram registradas apenas em 24 horas. Além disso, um total, 3.353 pessoas estão internadas nas UTIs francesas: um número que sofreu um aumento de 356 doentes em apenas um dia. Segundo médicos franceses, o fenômeno se deve à forte propagação da variante britânica do coronavírus.

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Em entrevista ao jornal Le Parisien, Gilles Pialoux, chefe do serviço de Infectologia do Hospital Tenon, em Paris, afirma que "as UTIs estão se preenchendo mais rápido do que os serviços convencionais de hospitalização", o que, segundo o especialista, não era observado desde o pico da epidemia na França, no ano passado. "Quando a variante apareceu na Inglaterra, dizíamos que ela não causava mais mortes, mas agora, estamos revendo essa questão", salienta. 

"Estamos impressionados com a rapidez com a qual a condição dos pacientes contaminados com essa variante britânica se degrada", diz o infectologista. "Numa noite, os doentes são admitidos no hospital, e no dia seguinte já precisam ser levados para a UTI", reitera o médico.

Pialoux afirma que os hospitais da grande região parisiense se preparam para um forte afluxo de contaminados pela Covid-19 nos próximos dias. Segundo o especialista, há três semanas, pacientes infectados com a variante britânica representavam entre 1% e 3% das admissões nos hospitais da capital francesa - uma quantidade que chegou a 30% nos últimos dias. 

Nova fase da pandemia

O especialista alerta para uma nova fase da pandemia que, segundo ele, não tem nenhuma comparação com a primeira e a segunda ondas da Covid-19. Pialoux salienta que, em Lisboa, em Portugal, a variante britânica diz respeito a 60% dos casos de coronavírus. Também lembra a situação caótica em Manaus devido à propagação da variante brasileira. "É preciso que a gente olhe ao nosso redor. Não cometamos os mesmos erros de 2020", apela o médico, em entrevista ao Le Parisien

O jornal Le Parisien também aborda outro problema que o setor da saúde vem enfrentando: o aumento de focos de Covid-19 dentro das próprias instituições hospitalares. Segundo o diário, 18 focos epidêmicos foram identificados recentemente em cinco hospitais públicos da grande região parisiense.

Falta de insfraestrutura e de profissionais

A taxa de ocupação dos serviços de reanimação dos hospitais franceses atualmente é de 64,5%. "Um ano depois do início da pandemia, os hospitais franceses continuam enfrentando um aumento brutal de casos graves, sofrendo com a falta de investimentos nas infraestruturas e com a escassez de profissionais de saúde", afirma o jornal Le Figaro

O diário destaca que, diante da falta de reforços, as UTIs francesas continuam "muito vulneráveis". "Após um ano de crise sanitária, nós já entendemos bem: é a ameaça da saturação dos serviços de reanimação que pode parar o país. Então, não poderíamos aumentar nossas capacidades hospitalares para evitar um novo lockdown?", questiona a matéria. 

Desde março de 2020, nenhum leito permanente foi criado nas UTIs francesas. Como foi feito no pico da crise sanitária, no ano passado, é possível mobilizar até 12 mil leitos desde que todos os outros serviços sejam paralisados. No entanto, para isso, é preciso congelar toda a atividade hospitalar. 

Segundo um relatório publicado pelo Sindicato de Médicos de UTIs da França em novembro, a capacidade oficial de hospitalização de doentes da Covid-19 na França continua sendo de 5.130 leitos. "Desde março, nada mais foi feito", afirma Djillali Annane, presidente deste sindicato ao Figaro

O presidente do Conselho de Anestesistas de UTIs da França, Bertrand Dureil, também reclama da falta de profissionais de saúde nas instituições, consequência do enxugamento de verbas nos hospitais franceses, que vem acontecendo desde 2009. 

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