Feminicídio: brasileira morta pelo marido é enterrada em Paris quatro meses e meio após o crime

Foto de Franciele Alves da Silva, morta pelo marido em 25 de setembro de 2020, distribuída aos presentes no velório nesta segunda-feira, 15 de fevereiro, em Paris.
Foto de Franciele Alves da Silva, morta pelo marido em 25 de setembro de 2020, distribuída aos presentes no velório nesta segunda-feira, 15 de fevereiro, em Paris. © Arquivo pessoal
Texto por: Paloma Varón
6 min

Depois de quatro meses e meio de espera, a família da paranaense Franciele Alves da Silva, 29 – vítima de feminicídio na região parisiense em 25 de setembro de 2020 –, pôde finalmente enterrá-la nesta segunda-feira (15), em Paris, após um velório que contou com um padre brasileiro, o pai e o irmão da vítima, além de membros do coletivo Mulheres da Resistência.

Publicidade

“Eu me sinto mais aliviado. Acho que, apesar de não estar onde ela queria estar, ela está em um cemitério, agora pode descansar em paz”, disse o pai de Franciele, Jurandir da Silva, 62, referindo-se à vontade expressa pela filha, reiteradamente, quando se sentia ameaçada pelo marido, de que “se algo acontecesse”, gostaria de ser enterrada ao lado de sua avó em Maringá (PR), sua cidade natal.

“Não seria justo eu voltar para o Brasil e deixar a minha filha no Instituto Médico Legal, sem o direito a uma cerimônia, uma despedida”, completa Jurandir, sobre o tempo que o corpo teve de ficar no IML.

"Que nosso combate não nos leve novamente ao cemitério"

A vinda de Jurandir e Thiago Silva, irmão de Franciele, para a França, assim como os custos da estadia e dos processos que correm na Justiça, foram inteiramente financiados pela arrecadação promovida pelo coletivo Mulheres da Resistência (Femmes de la Résistance), capitaneado pela baiana Nellma Barreto.

"Este trabalho coletivo é muito importante para que não haja mais nenhuma Franciele, que nosso combate à violência doméstica não nos leve novamente ao cemitério e sim à libertação das mulheres por uma vida sem violência”, disse Nellma, que acompanhou pessoalmente a família da vítima desde que o crime foi revelado.

Segundo Jurandir, a cerimônia desta segunda-feira “foi muito bonita, apesar de curta, por causa da pandemia”. A família se prepara para voltar para o Brasil nesta quarta-feira (17). No entanto, os processos para a repatriação do corpo da jovem para o Brasil e também pela guarda de seus filhos de 5 e quase 3 anos de idade continuam em andamento.

“Volto para o Brasil mais tranquilo depois que pude me despedir da minha filha. O foco agora é nas crianças”, diz Jurandir, que vai aguardar as decisões judiciais em Maringá, onde mora. 

Seguindo a tradição francesa, o velório aconteceu com o caixão aberto, apesar de o corpo de Franciele ter passado por três autópsias e de estar no IML desde 25 de setembro de 2020, data do crime. 

 

O Instituto Médico Legal de Paris, onde ocorreu o velório de Franciele Alves da Silva nesta segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021, quatro meses e meio após a sua morte.
O Instituto Médico Legal de Paris, onde ocorreu o velório de Franciele Alves da Silva nesta segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021, quatro meses e meio após a sua morte. © Arquivo pessoal

 

Consulado-Geral do Brasil em Paris esclarece seu papel no caso

Após ter sido citado por Thiago no artigo deste domingo (14) sobre o caso Franciele, o Consulado-Geral do Brasil em Paris prestou os seguintes esclarecimentos

"Como registrado pela equipe da RFI em matérias anteriores sobre o mesmo caso, o consulado-geral do Brasil em Paris, tão logo teve conhecimento do crime, ocorrido em fins de setembro de 2020, manteve interlocução com parentes da vítima (notadamente, com o irmão Leandro Alves da Silva e com o tio Agnaldo da Silva) e com o Dr. Julien Zanatta, então advogado da família.

O consulado-geral prontificou-se, a todo momento, a colher e transmitir informações atinentes ao caso, frisando, quando necessário, os limites de sua atuação face à soberania da justiça local. Manteve, nos meses seguintes ao crime, contatos com as juízas Assouline (processo criminal) e Delestre (guarda dos filhos da vítima).

A juíza Assouline, declarou, em 13/11/2020 (sexta-feira), em mensagem transmitida ao consulado-geral, ser impossível o traslado do corpo da vítima, o que foi transmitido à família, por e-mail, em 16/11/2020 (segunda-feira).

Informado pelo Dr. Zanatta de que a família da vítima havia decidido contratar outro representante legal, o consulado-geral voltou a manter contato com a família, que encaminhou o assunto à senhora Camila Santana, a qual vinha prestando auxílio jurídico à família.

A senhora Santana informou que, tão logo fosse escolhido novo advogado, informaria o consulado-geral.

Em 24/12/2020, o consulado-geral foi informado, pelo ex-advogado da família da vítima, dr. Zanatta, de que estava à frente do caso a dra. Caroline Toby, com cujo escritório o setor de assistência comunicou-se em 30/12/2020, sem, contudo, ter obtido retorno da advogada.

Em contato feito com o consulado em 11 de janeiro deste ano, a senhora Nelma Barreto solicitou, em nome da família da vítima, 2ª via de procuração particular autenticada nesta repartição consular em 10/03/2020. Foi-lhe explicado que o consulado-geral guarda cópias apenas de procurações públicas, esclarecimento que foi transmitido a ela e ao senhor Thiago Silva, irmão da vítima, por e-mail, em 11/01/2021.

No tocante ao depoimento de Thiago Silva, registrado na matéria publicada ontem, o consulado-geral informa que, desde meados de novembro do ano passado, quando da troca de representante legal da família de Franciele Alves da Silva, não mais houve contatos com esta repartição consular da parte de parentes da vítima, ainda que nossos canais de comunicação (telefone, e-mail, WhatsApp), até então utilizados recorrentemente pelos interessados, tenham permanecido irrestritamente disponíveis à família", disse o consulado em comunicado.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.