Processo de enfermeira que atirou pedras na polícia em Paris vira símbolo da insatisfação de profissionais da saúde

Profissionais de saúde manifestavam na França em junho de 2020 contra as más condições de trabalho (imagem ilustrativa)
Profissionais de saúde manifestavam na França em junho de 2020 contra as más condições de trabalho (imagem ilustrativa) © AFP - ANNE-CHRISTINE POUJOULAT
Texto por: RFI
3 min

Começou nessa segunda-feira (22) o processo de Farida C., uma enfermeira de 51 anos acusada de ter atirado pedras e insultado policiais durante uma manifestação em junho passado em Paris. Ela está sendo vista como um símbolo das más condições de trabalho dos profissionais da saúde, que pioraram no contexto da pandemia de Covid-19. A primeira audiência foi marcada por protestos, dentro e fora do tribunal.

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Farida trabalha no hospital Paul-Brousse de Villejuif, na periferia de Paris, e foi detida durante uma manifestação em 16 de junho. Ela e vários colegas protestavam contra as condições de trabalho, quando as forças de ordem tentaram conter a mobilização.

Acusada de ter insultado os policiais e de ter atirado pedras nas forças de ordem, ela tenta explicar seu ato ao juiz. “Foi uma reação sem pensar”, diz a mãe de dois filhos. “Eu estava exausta, perdi metade dos meus pacientes [mortos de Covid-19] e não foi contra a polícia que joguei essas pedras. Foi simbólico”, continua.

Ao ser questionada sobre a gravidade de seu ato, ela insiste que não pretendia atingir os agentes. “Minhas mãos ferem ninguém. Elas salvam [pessoas] há 20 anos. Quando eu vi meus colegas serem atacados com gás lacrimogêneo, quis protege-los”, insiste.

Protestos

Segundo a Procuradoria, Farida pode ser condenada a dois meses de detenção com sursis. “Esse processo nem deveria ter chegado até o tribunal”, insiste o advogado da enfermeira, alegando que ela “apenas atirou alguns pedaços de asfalto” e que esse caso mereceria, no máximo, uma advertência.

Os representantes da polícia, por sua vez, afirmam ter sido atacados violentamente pela enfermeira, que além de ter atirado “pedras enormes”, teria insultado as forças de ordem os chamando de “putas do Macron” e “policiais de merda”.

Dezenas de manifestantes marcaram presença na porta do tribunal e alguns conseguiram entrar no prédio. Todos os presentes contestam a dimensão desproporcional do processo.

A imprensa segue o caso de perto. Principalmente após as imagens de Farida sendo carregada pelo pelotão de policiais no dia da manifestação ter viralizado nas redes sociais.

Mas além de ilustrar mais um protesto que terminou com tensões entre a polícia e manifestante, o processo de Farida está sendo visto como um símbolo da difíceis condições de trabalho os profissionais da saúde na França, que saiam às ruas e faziam greves meses antes da pandemia de Covid-19 começar.

A enfermeira diz que, se pudesse voltar atrás, não teria atacado os policiais. Mas não abaixa a cabeça e lembra das condições extremas que levam os profissionais da saúde a situações também extremas. “Há 20 anos vemos os hospitais definharem. Quando não consigo reconfortar meus pacientes, sinto que falhei. E tudo isso alimenta a frustração e a raiva”, declarou diante do juiz.

O veredicto está previsto para ser anunciado em mail.

 

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