Navio Ocean Viking inicia nova missão de salvamento de migrantes no Mediterrâneo

O navio Ocean Viking, da organização não governamental SOS Mediterrâneo, está iniciando uma nova campanha de resgate de migrantes ameaçados de naufrágio no mar Mediterrâneo.
O navio Ocean Viking, da organização não governamental SOS Mediterrâneo, está iniciando uma nova campanha de resgate de migrantes ameaçados de naufrágio no mar Mediterrâneo. AP - Fabio Peonia

O navio Ocean Viking, da organização não governamental SOS Mediterrâneo, está iniciando uma nova campanha de resgate de migrantes ameaçados de naufrágio no mar Mediterrâneo. Nas últimas missões que realizou, em janeiro e fevereiro, a embarcação resgatou 796 pessoas que faziam a travessia da Líbia para a Europa. O barco deixa o porto de Marselha nesta terça-feira (9).

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Guilhem Delteil, repórter da RFI a bordo do Ocean Viking

Após dez dias de quarentena em um hotel de Marselha, a tripulação do Ocean Viking embarcou na segunda-feira (8) para a terceira missão do ano no mar Mediterrâneo. Com um largo sorriso no rosto, o ativista Leo, que exerce funções de marinheiro e salva-vidas, recepcionou todos os participantes desta nova operação no convés. O isolamento dos últimos dias e os numerosos testes anti-Covid realizados na tripulação permitiram ignorar o distanciamento social imposto pela pandemia há um ano. Alguns metros mais à frente, na entrada da área de convivência do barco, Jérémie deu as boas-vindas aos recém-chegados. 

Leo e Jérémie são os únicos que já participaram de uma missão este ano e decidiram continuar a bordo. Entre os recém-chegados, alguns já se conheciam de ações semelhantes, enquanto outros vivem uma experiência inédita. O fim da quarentena representou um alívio, já que veteranos ou marinheiros de primeira viagem finalmente poderão executar as tarefas para as quais se prepararam nas últimas semanas. 

Alguns, habituados às missões de resgate da SOS Mediterrâneo, conhecem bem o barco; outros descobrem a embarcação. As cabines têm beliches para duas ou três pessoas. Todos recebem equipamentos de segurança: sapatos com sola de borracha, colete salva-vidas e capacete. Depois da equipe de logística encerrar o inventário dos equipamentos, outro grupo passou a descarregar os suprimentos de comida e higiene pessoal que chegaram ao porto transportados por um caminhão. 

O cálculo dos estoques de comida e a vistoria dos equipamentos foram reforçados desde que cinco barcos de salvamento foram bloqueados nos últimos meses pelas autoridades italianas, que os acusaram de irregularidades a bordo. “Irregularidades insignificantes”, julgou a organização Médicos Sem Fronteiras, afirmando que “as autoridades italianas manipulam e abusam dos procedimentos marítimos legítimos”. O próprio Ocean Viking teve de permanecer ancorado durante cinco meses em 2020 e só pôde retomar suas atividades em janeiro passado.

Treinamento em tempos de Covid-19

A SOS Mediterrâneo aproveitou o período da quarentena para treinar a tripulação: revisão dos procedimentos de resgate, gestão de traumas das pessoas resgatadas, protocolo de saúde a bordo do navio e iniciação à navegação marítima, entre outros processos. Antes da pandemia do coronavírus, uma parte dessa preparação era feita a bordo do barco, quando ele zarpava em direção à Líbia. Porém, com a pandemia, para aproveitar o tempo ocioso da quarentena, as instruções foram transmitidas por videoconferência no quarto do hotel.

Como num avião, um barco tem suas próprias regras de segurança e os passageiros devem ser apresentados a elas. Assim, todos visitaram os diversos compartimentos do navio, do convés aos porões. Os mais experientes recordaram os riscos e as precauções a serem tomadas em caso de incidentes. Algumas recomendações, que podem parecer banais, foram insistentemente repetidas. "Ao subir ou descer as escadas, mantenha sempre uma das mãos no corrimão; nunca ande com as duas mãos ocupadas, mantenha sempre uma delas livre para se estabilizar." Os procedimentos de evacuação foram ensaiados.

O Ocean Viking também tem suas regras de convivência: deve-se respeitar um certo silêncio na área das cabines para que as pessoas possam dormir e se recuperar para os salvamentos, seja durante o dia ou na madrugada. As refeições são servidas cedo. O jantar, por exemplo, fica pronto às 17h45 para permitir que a equipe da cozinha, nos dias de maior movimento, possa dormir também. E, como lembra um cartaz na porta da cozinha, o chef é "o homem mais perigoso do barco". "Eu controlo sua comida, eu controlo seu humor", diz uma caveira desenhada com um chapéu de chef. Esta é provavelmente a principal lição do dia! 

Rota mortífera

O mar Mediterrâneo é a rota migratória mais mortal do mundo. Em 2020, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) registrou 1.277 mortos e desaparecidos nesta travessia. Apenas no primeiro bimestre de 2021, o número de vítimas, segundo a ONU, totaliza 233 pessoas.

Para a SOS Mediterrâneo, que realiza campanhas de resgate há cinco anos, existe uma situação de urgência. A crise da saúde não interrompeu os fluxos migratórios. De acordo com o Acnur, 95.000 migrantes chegaram à Itália, Espanha, Grécia, bem como Chipre e Malta atravessando o Mediterrâneo em 2020. Nos dois primeiros meses de 2021 foram 10.000 pessoas.

O Ocean Vinking solta as amarras do porto de Marselha nesta terça-feira com a intenção de trazer o maior número de pessoas que encontrar em sua rota à terra firme.

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