França abre arquivos sobre envolvimento do país no genocídio de Ruanda em 1994

Soldados franceses supervisionam um campo de refugiados tutsis em Nyarushishi, sul de Ruanda, em 30 de abril de 1994.
Soldados franceses supervisionam um campo de refugiados tutsis em Nyarushishi, sul de Ruanda, em 30 de abril de 1994. Pascal GUYOT AFP/Archivos

A França abriu ao público nesta quarta-feira (7) importantes arquivos relativos à situação em Ruanda entre 1990 e 1994, exatamente 27 anos depois do início do genocídio dos tutsis no país, segundo um decreto publicado no Diário Oficial francês.

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O material inclui arquivos do ex-presidente François Mitterrand e de seu primeiro-ministro da época, Édouard Balladur. Vários documentos, sobretudo telegramas diplomáticos e notas confidenciais, integraram um relatório devastador sobre o papel da França em Ruanda na época, publicado por uma comissão de 14 historiadores em março passado, liderada por Vincent Duclert. 

O chamado relatório Duclert traçou um balanço sem concessões do envolvimento militar e político da França no genocídio, que entre abril e julho de 1994 deixou pelo menos 800.000 mortos, em sua maioria tutsis mas também hutus moderados, exterminados em circunstâncias abomináveis, segundo a ONU. 

O informe destaca sobretudo a responsabilidade de Mitterrand e de seus colaboradores mais próximos, que ignoraram as informações e advertências sobre os crimes em larga escala que poderiam ser cometidos. O documento concluiu que o governo francês também falhou em não parar o massacre.

O presidente ruandês Paul Kagame saudou o relatório como um "passo importante". 

Nesta quarta-feira estão programadas diversas cerimônias na França para recordar o 27º aniversário do início do genocídio.

Papel francês ainda gera tensões

Apesar de uma relação melhor entre os dois países nos últimos anos, especialmente após a chegada de Emmanuel Macron à presidência em 2017, o papel da França no genocídio é um tema que ainda gera tensões.

Segundo o Palácio do Eliseu, Macron pretende viajar a Kigali na primeira quinzena de maio, a fim de acelerar a normalização das relações entre os dois países, mas tudo vai depender do contexto sanitário da pandemia.

Essa viagem pode acontecer antes da cúpula que vai discutir o financiamento das economias africanas, prevista para 18 de maio, em Paris.

Um novo centro cultural francês, com custo de € 500 mil, na capital ruandesa está quase pronto, sete anos após o fechamento do antigo instituto francês em Kigali.

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