França declara 'desastre' agrícola após geadas danificarem 80% dos vinhedos

Vinhas congeladas na Borgonha.
Vinhas congeladas na Borgonha. REUTERS - PASCAL ROSSIGNOL

O governo francês declarou um desastre agrícola depois que uma geada incomum neste início da primavera no Hemisfério Norte danificou plantações e vinhas em todo o país.

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O ministro da Agricultura, Julien Denormandie, disse na quinta-feira (8) que a onda de frio com temperaturas abaixo de zero nesta semana na França foi "particularmente difícil" para o setor, com "perdas significativas" registradas.

"Estamos totalmente mobilizados para que as medidas de acompanhamento sejam implementadas o mais rápido possível", disse ele à rádio pública Franceinfo.

"Especificamente, implementaremos um regime de desastre agrícola", disse, explicando que incentivos fiscais poderão ser previstos, bem como ajuda de bancos e seguradoras.

Uma semana sombria

O ministro descreveu a situação como "bastante excepcional", com vinhedos atingidos, mas também outras culturas, como beterraba e colza, em regiões que vão do norte ao sudeste do país.

As temperaturas abaixo de zero nas regiões de Drome e Ardèche, no centro-sul da França, fizeram com que os produtores de frutas perdessem até 90% de suas colheitas de damasco e pêssego.

A associação nacional de vinicultores CNIV alertou que a situação é “uma das mais graves das últimas décadas”, e que vai diminuir drasticamente a produção este ano.

"Já sabemos que teremos uma safra muito baixa em 2021", disse Jean-Marie Barillere, chefe do CEEV, um grupo europeu de comércio de vinhos.

A geada "afetou 80% dos vinhedos franceses", disse ele. "Arboristas e produtores de vinho acabaram de sofrer uma semana sombria."

Prevenção de geada

 

Vinhas congeladas na Borgonha.
Vinhas congeladas na Borgonha. REUTERS - PASCAL ROSSIGNOL

Em uma tentativa de evitar a geada, os vinicultores franceses acenderam milhares de pequenas fogueiras que causaram uma camada de poluição no sudeste do país.

A prática de acender fogueiras ou velas perto de vinhas ou árvores frutíferas para evitar a formação de geada é uma técnica de longa data usada no início da primavera no hemisfério norte, quando os primeiros brotos verdes ficam vulneráveis ao frio. Vinhedos inteiros parecem estar em chamas, numa tentativa de evitar o congelamento dos brotos.

O órgão regional de monitoramento da qualidade do ar, o Atmo Auvergne-Rhone-Alpes, emitiu um alerta sobre a poluição por partículas finas induzida pelo fogo na região sudeste, que inclui a cidade de Lyon, onde uma camada de fumaça foi visível na quinta-feira.

Alguns viticultores e fruticultores também usam máquinas eólicas para evitar o aparecimento de geadas. Outros usam aspersores de água, permitindo um revestimento fino atingindo temperaturas abaixo de zero, pois a camada de gelo age como um mini-iglu.

Nada funcionou

A onda de frio dessas duas noites nesta primavera europeia pode ser particularmente prejudicial para os produtores de vinho e de frutas porque as temperaturas congelantes vieram depois de uma semana de clima excepcionalmente quente.

No coração do vinho francês, no cinturão de Bordeaux, o sindicato de produtores CIVB alertou que era "certo que as geadas da primavera afetariam severamente os volumes de colheita em 2021".

Viticultores e fazendeiros relataram seu desespero enquanto inspecionavam os danos na manhã de quinta-feira, após uma segunda noite tentando manter o gelo sob controle.

"Trabalhamos na encosta principal e queimamos fardos de palha e pilhas de madeira para tentar salvar o que podíamos", disse o enólogo Remy Nodin de Saint-Peray, na região de Ardèche, sudeste da França.

“O objetivo era criar uma manta de fumaça para que, quando o sol nascesse, não queimasse as vinhas por causa da umidade”, acrescentou.

"Regamos, aquecemos, nada funcionou", disse Stephane Leyronas, um produtor de kiwi, na área de Aubenas nas proximidades.

“Usei um lança-chamas e acendi mais de 700 pequenas fogueiras que não duraram nem a noite inteira”, acrescentou.

(Com informações da AFP)

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