Astronauta francês vai comandar pela primeira vez Estação Espacial Internacional

O astronauta francês Thomas Pesquet, entrevistado pela RFI e France 24 na segunda-feira, 19 de abril de 2021.
O astronauta francês Thomas Pesquet, entrevistado pela RFI e France 24 na segunda-feira, 19 de abril de 2021. © RFI France 24

O astronauta francês Thomas Pesquet vai voltar pela segunda vez ao espaço. Ele embarca na próxima sexta-feira (23) em uma espaçonave da SpaceX rumo a Estação Espacial Internacional (ISS) para uma missão de seis meses. Poucas horas antes de decolar, Pesquet concedeu uma entrevista exclusiva aos jornalistas Frédéric Rivière, da RFI, e Sylvain Rousseau, da TV France 24.

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A decolagem estava inicialmente prevista para esta quinta-feira (22) do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, mas teve que ser adiada para sexta-feira por motivos meteorológicos. Além de Pesquet, três outros astronautas experientes — os americanos Shane Kimbrough e Megan McArthur e o japonês Akihiko Hoshide ­— voltam à ISS.

O voo será feito pela SpaceX, que realiza sua segunda missão tripulada e passou a ser uma alternativa à nave russa Soyuz.

O astronauta francês é o representante europeu dessa aventura, apelidada pela Agência Espacial Europeia (ESA) de “Alpha”. Durante os seis meses em que vai ficar a bordo da ISS, Pesquet vai participar de vários experimentos científicos, além de comandar a Estação Espacial Internacional (ISS). “Um europeu comandar a ISS é raro e isso é um reconhecimento à ESA e à minha capacidade”, afirma Pesquet.

Entre os 232 experimentos que serão realizados, ele ressalta o uso de “embalagens comestíveis”. “Pode parecer anedótico, mas vai reduzir o lixo na ISS” e quem sabe, no futuro, na Terra. Outra parte importante da missão, serão as saídas espaciais que servirão para instalar novos painéis solares gigantescos para melhorar o sistema elétrico da estação. O astronauta francês lembra ainda que um dos grandes objetivos das missões na ISS é o avanço da conquista espacial, ajudando a desenvolver a tecnologia para que o homem volte à Lua e chegue a Marte.

Thomas Pesquet vai dividir seu cotidiano no espaço com os ouvintes da RFI, enviando diários de bordo filmados com os momentos mais emocionantes da missão. Ele pede que as pessoas o “acompanhem e o ajudem a se sentir menos sozinho”. A seguir, trechos da entrevista exclusiva:

RFI/France24: Como você se sente às vesperas da decolagem?

Thomas Pesquet: "Estou impaciente, claro. Nesses últimos dias, temos mais tempo livre que de costume. Treinamos um pouco, mas estamos podendo ficar um pouco com nossas famílias, para nos despedir. Até o dia da decolaram, vamos acertar tranquilamente os últimos detalhes logísticos."

Você tem a mesma confiança na SpaceX que na Soyuz que lhe levou à ISS na sua primeira viagem espacial?

"Sim. Os riscos nas missões espaciais são sempre calculados. Normalmente, os foguetes que levam as naves tripuladas voam pela primeira vez. O risco de pane é calculado, mas a gente não sabe exatamente como vai funcionar, uma vez que nunca voaram. Com a SpaceX é um pouco diferente. O foguete é reutilizado e se funcionou uma vez, podemos dizer que não tem por que não funcionar de novo. O foguete Falcon 9 começou a ser usado recentemente para levar astronautas à ISS, mas ele tem um histórico de colocar satélites em órbita, de missões não habitadas, com uma fiabilidade digna dos melhores foguetes do mundo. Não estou nenhum pouco estressado."

Daqui a seis meses, a volta à Terra vais ser menos brutal com o SpaceX que com o Soyuz?

"Não sei, mas segundo meus colegas, que fizeram a missão de demonstração, a volta é um pouco brutal. Mas antes, eles tinham voado em ônibus espaciais, que pousam como um avião, o que é muito mais suave. Entre a SpaceX e a Soyuz acho que é quase similar. A Soyuz tem um sistema de retropopulsão que é acionado a 90 centímetros do solo e amortece o pouso final. Fora isso, a velocidade de descida é a mesma, isto é, oito metros por segundo, que equivale a entre três a dois andares e meio por segundo. Mesmo com um paraquedas, a nave desce nessa velocidade. Independentemente de cairmos na água sem amortecedor ou no solo com amortecedor, vai sacudir bastante. O acesso à estação é de um dia de ida e meio dia de volta. Isso representa muitas horas, semanas de treinamento na nave Crew Dragon e no Falcon 9. É o momento mais arriscado da missão.

Há quatro anos, você já passou seis meses na ISS. O que vai mudar nessa sua segunda viagem espacial?

"Muita coisa vai ser diferente e muita coisa será igual. O objetivo global das missões de seis meses a bordo da ISS não muda. São dois objetivos. Primeiro, as experiências cientificas que não podemos realizar na Terra e são feitas a bordo pelos astronautas. O segundo objetivo é a preparação do futuro da exploração espacial. Isso ganha a cada dia mais importância na ISS. A estação é uma maneira de exercitar nossa experiência, de desenvolver nossa tecnologia para voltar à Lua e ir a Marte. Esse é o objetivo de todo mundo. O que vai mudar é a tripulação, mas terei a sorte de voar com dois astronautas com quem já voei, o que é muito raro e vale a pena ressaltar. Minha função a bordo vai mudar um pouco. Agora que tenho mais experiência, terei a honra de ser o comandante a bordo da ISS. Se tudo acontecer como previsto, na segunda metade da minha missão serei o comandante e poderei transmitir a experiência que tive na minha primeira missão às pessoas que realizam sua primeira missão e que têm menos tempo de espaço do que eu."

Você poderia nos dar detalhes sobre as experiências científicas que serão realizadas durante os seis meses de missão? Quais serão as mais importantes?

"Os experimentos são muito diversificados. Fazemos experiências sobre composições, ligas e materiais diversos. São estruturas que compreendemos muito melhor sem gravidade. Fazemos os testes e enviamos diretamente os resultados aos cientistas na Terra. Também fazemos testes de medicina porque os vírus também não se comportam da mesma maneira no espaço. Ao todo, faremos 232 experimentos. A Agência Espacial Europeia é responsável por 40 deles, sendo 12 diretamente preparados pela CNES a Agência Espacial Francesa. Estou entusiasmado com o estudo que vamos fazer de “minicérebros”, que são organoides de células-troco cerebrais. Os cientistas gostam de observar como elas se reproduzem, como se aglomeram. Acho isso fascinante! Outra experiência que pode parecer anedótica, mas não é, fui eu que encomendei ao CNES. Pedi para desenvolverem novos métodos de embalagem. Tudo o que levamos para a ISS tem que estar bem protegido para resistir ao choque da decolagem, de aterrissagem. Isso cria “lixo” a bordo da estação. Evidentemente, não podemos jogar nada fora pela janela ou na lixeira. Somos obrigados a estocar tudo até que tenha uma nave que volte para a Terra. O lixo é realmente um problema. É um pouco maluco, mas pedi para criarem embalagens, espumas comestíveis, usando pão de especiarias, por exemplo, e uma impressora 3D. Parece loucura, mas vai nos ajudar muito. Vai dividir a estocagem e o lixo por dois. E essa experiência teria uma aplicação concreta. Seria formidável se pudéssemos diminuir as embalagens e o plástico na Terra."

Já sabe quantas saídas no espaço haverá e os detalhes?

"Temos quatro saídas no espaço previstas durante essa missão de seis meses. Vamos dividir essa tarefa entre os membros da tripulação. Todo mundo tem talento, é capaz e foi treinado para isso. Não sei ao certo, mas terei talvez a chance de fazer uma ou duas saídas. De qualquer maneira, o que está programado para essas saídas é melhorar o sistema elétrico dos paneis solares da estação. Os módulos mais antigos da ISS têm 20 anos. A estação cresceu muito e a geração de potência elétrica é um pouco limitada em relação a seu tamanho. Temos permanentemente sete astronautas a bordo 7 e queremos aumentar um pouco a capacidade dos painéis solares. Vamos instalar novos painéis que vão se desdobrar, é uma tecnologia incrível. Um mecanismo gigantesco, realmente complicado, de mais ou menos 350 kg. Vai ser como montar um “jogo mecanno” no espaço. Não vejo a hora de começar."

A ISS está em bom estado?

"Sim, ela está em bom estado. A estação é como um barco ou um submarino. Passamos muito tempo fazendo sua manutenção. Tomamos muito cuidado para que ela dure o maior tempo possível. Apesar disso, os módulos mais antigos, como dissemos, tem cerca de 20 anos. No espaço, um ambiente extremo, temos a cada hora variações de temperatura entre mais 100°C e menos 100°C, se estamos no sol ou na sombra. Todo o equipamento foi concebido para suportar isso, mas os módulos mais antigos começam a mostrar pequenos sinais de fadiga, nada muito grave. A previsão é que até 2028 a ISS não terá problemas. Os engenheiros acreditam que ela está estruturalmente saudável pelo menos até esta data, mas nós pensamos que ela vai durar mais do que isso."

Qual é a sua resposta às críticas crescentes contra o custo e o estado de conservação da ISS?

"Não acho que as críticas aumentaram, ao contrário. Vejo que tem menos críticas hoje do que no início da minha carreira, em 2008, quando perguntavam o que eu ia fazer no espaço, e para que isso servia. As pessoas não estavam bem informadas. Desde então, me esforço para explicar as experiências que fazemos e o futuro da conquista espacial. É importante explicar porque fazemos isso com fundos, verbas públicas. Temos que mostra para o que serve e traduzir esse trabalho científico em coisas da vida cotidiana. É isso que tentei fazer durante a minha primeira missão e é isso que vou tentar fazer durante a próxima, se tiver tempo."

Ser o comandante é um reconhecimento?

"Sim, é um reconhecimento. Não é frequente que um europeu ocupe essa função. Não podemos esquecer que somos parceiros minoritários no programa da estação espacial. Isso tem um custo menor para nós do que para o contribuinte americano ou russo. Mas a contrapartida é que tomamos menos decisões do que a Nasa. Me confiar o comando da ISS é um reconhecimento da ESA e da minha capacidade. Estou feliz. O que vai isso mudar no dia a dia?  Com uma tripulação experiente como a que terei, acho que não vai mudar muita coisa. Lá em cima, não é o recreio, todo mundo está lá para trabalhar e não é preciso dizer para as pessoas arrumarem seus quartos (risos). O leadership é fundamental principalmente nas situações de urgência, quando é o comandante que impõe o ritmo, define os papeis, designa as tarefas. Na emergência, não há discussão possível, é o leadership que entra em ação."

O que faz falta quando você está na ISS? 

"É um lugar comum, mas antes de mais nada, a família, os amigos, esse contato humano. Mas ao mesmo tempo temos muita sorte porque podemos falar com eles pelo telefone e uma vez por semana temos uma ligação vídeo. É muito melhor do que o início da ISS. Outra coisa, é falta de liberdade, de fazer o que nos passa pela cabeça. As pessoas se deram conta durante o lockdown a que ponto isso é precioso e faz falta. Nos esquecemos que temos isso todo dia. Para nós, é parecido. Durante seis meses, não podemos infelizmente sair na hora que temos vontade, comer o que queremos, assistir o que quisermos na TV, mas não temos escolha."

E quando você está na Terra você tem saudade do espaço?

"Sim, sinto saudade do espaço. Não vou mentir, a sensação física de flutuar é extremamente agradável. A gente ri à toa porque se libera de peso de seu corpo. A gente voa, flutua, é como um sonho infantil. Temos que nos acostumar, claro, mas isso é muito agradável. Também senti falta de estar em missão, em uma expedição com colegas e com uma intensidade de objetivos diários. Quando acordamos de manhã na ISS, sabemos por que estamos ali. Todo mundo no centro de controle trabalha para que tudo aconteça direito. As interfaces são limitadas, as prioridades claras, nos dispersamos muito menos do que na vida na Terra. Estou impaciente para experimentar de novo essa sensação."

Você fará e enviará diários de bordo filmados que serão difundidos pela RFI?

"Sim e espero que as pessoas me acompanhem durante essa missão e me ajudem a me sentir menos sozinho."

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