Amontoados em alojamentos no aeroporto de Paris, migrantes barrados são contaminados por Covid-19

Lotação e falta de controle em área do aeroporto de Paris Charles de Gaulle coloca em risco saúde de migrantes e trabalhadores
Lotação e falta de controle em área do aeroporto de Paris Charles de Gaulle coloca em risco saúde de migrantes e trabalhadores AFP - ERIC PIERMONT

Na última semana, a França reforçou o protocolo sanitário exigido de viajantes de certos países, como a Índia e o Brasil, para barrar a entrada de variantes do coronavírus mais contagiosas. No entanto, dentro do principal aeroporto de Paris, imigrantes, dentre eles muitos indianos, se acumulam na área restrita, colocando em risco outros viajantes e funcionários.

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Desde sábado (23), quem viaja para a França de países com grandes níveis de contaminação pelo coronavírus, como a Índia, o Brasil, a Argentina e a África do Sul, precisa fazer uma quarentena rigorosa de dez dias, sob pena de ser multado em até € 1.500. “As variantes são uma ameaça contra a qual devemos nos proteger”, justificou o primeiro-ministro Jean Castex, em visita ao aeroporto Roissy, em Paris.

Os cuidados com a chegada de estrangeiros e com a transmissão do coronavírus, no entanto, não se estendem a área restrita do aeroporto internacional, um dos principais da Europa. Na zona preparada para receber viajantes que não consigam provar que estão em situação regular para entrar na França ou para seguirem seu trajeto, o espaço é exíguo e os testes são raros. 

Uma reportagem do site Mediapart publicada nesta semana denuncia que desde janeiro, ao menos 20 imigrantes que ficaram barrados no aeroporto foram diagnosticados com Covid-19, entre eles, alguns dizem ter sido infectados já em solo francês. 

Atualmente, dos 126 migrantes presos no aeroporto, 87 são indianos. Entre eles, há ainda duas mulheres grávidas, grupo de risco da Covid-19. Segundo a reportagem, ao menos quatro pessoas apresentavam sintomas encontrados em versões menos severas da doença.

Os migrantes, enquanto esperam a averiguação de seus documentos e uma solução para seus casos, podem passar até 26 dias presos no aeroporto, sem direito de partir para outro destino. Ali, dividem salas de refeição e quartos de nove metros quadrados sem ventilação natural. Os migrantes, muitos deles refugiados que pedirão asilo, não fazem testes sistemáticos nem têm garantidas as condições para o controle de transmissão de um vírus respiratório: não há sabão ou álcool gel para consumo público. 

A reportagem indica ainda que alguns migrantes, aceitos em território francês, são liberados sem que façam um novo teste ou tenham a garantia de um lugar para se isolarem durante uma quarentena, evitando o possível contágio de outras pessoas.

ONGs abandonaram aeroporto por risco

A circulação descontrolada do coronavírus e, potencialmente, da variante indiana nesta parte do aeroporto, aponta a reportagem, coloca em risco os outros migrantes obrigados a dividirem espaço com contaminados ali, mas também a estratégia de segurança sanitária adotada pelo país para barrar novos tipos do vírus.

Devido aos riscos para seus voluntários, a Anafé e a Cruz Vermelha, duas ONGs que se dedicam à assistência de migrantes, decidiram deixar de trabalhar no aeroporto Roissy Paris-Charles de Gaulle.

Entre policiais de imigração, voluntários e trabalhadores do aeroporto que atuam nessa parte do terminal 2, ao menos vinte pessoas foram diagnosticadas com Covid-19 em 2021.

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