Ao anunciar prisão de ex-ativistas de esquerda italianos, Macron diz “compreender necessidade de justiça”

As Brigadas Vermelhas foram o grupo de extrema esquerda mais temido na Itália durante os "Anos de Chumbo".
As Brigadas Vermelhas foram o grupo de extrema esquerda mais temido na Itália durante os "Anos de Chumbo". - AFP/File

Sete ex-ativistas do grupo de extrema esquerda Brigadas Vermelhas, condenados na Itália por atos de terrorismo nos anos de 1970 e 1980, foram detidos na França nesta quarta-feira (28), a pedido de Roma. Outros três ex-membros da organização estão sendo procurados, anunciou a presidência francesa.

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Em seu comunicado, o Palácio do Eliseu afirma que a decisão de atuar contra os dez indivíduos, que estão entre as 200 pessoas que a Itália reclama a extradição há vários anos, foi tomada pelo presidente Emmanuel Macron. A lista de dez nomes foi estabelecida após um trabalho bilateral que durou vários meses e levou à seleção de ex-ativistas que cometeram "crimes graves", detalha a presidência francesa.  

O primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, expressou sua "satisfação" com a decisão de Paris. "A lembrança desses atos bárbaros ainda é viva na consciência dos italianos", declarou o chefe de governo. O mais conhecido dos ativistas procurados é uma das sete pessoas presas na manhã de quarta-feira, segundo a polícia italiana.

As Brigadas Vermelhas foram o grupo mais conhecido dos chamados "Anos de Chumbo" na Ítália, período em que extremistas de esquerda foram acusados de promover centenas de mortes e ações violentas. A atuação dessas organizações revolucionárias clandestinas se estendeu de 1968 a 1982. Um dos crimes atribuídos às Brigadas Vermelhas é o sequestro seguido de assassinato do líder democrata-cristão e ex-primeiro-ministro Aldo Moro, em 1978.

Na década de 1980, dezenas de ativistas perseguidos pela Justiça italiana encontraram refúgio na França graças ao ex-presidente socialista François Mitterrand. Ele ofereceu proteção aos radicais de esquerda, dando garantias de não extradição, desde que renunciassem à violência e não fossem acusados de assassinato. A chamada "Doutrina Mitterrand" provocou tensões entre França e Itália durante décadas.

Condenações por terrorismo

As sete pessoas detidas pela França e as três que estão sendo procuradas foram condenadas por crimes de terrorismo, segundo o comunicado da presidência francesa. A nota destaca que Macron continua defendendo a "Doutrina Mitterrand", mas que as detenções e extradições são parte dos esforços para resolver as tensões de muitos anos. "A França, também afetada pelo terrorismo, compreende a absoluta necessidade de fazer justiça às vítimas", afirma o comunicado. 

Os ex-ativistas detidos nesta quarta-feira devem ser apresentados à Procuradoria de Paris nas próximas 48 horas. Um juiz irá decidir sobre uma eventual detenção ou a liberação sob controle judiciário, enquanto a Justiça francesa irá analisar os pedidos de extradição italianos. 

Caso Battisti influenciou decisões posteriores

Segundo fontes diplomáticas, o dossiê de ex-militantes refugiados na França veio à tona com o retorno de Cesare Battisti à Itália. O ex-ativista, que passou décadas exilado no Brasil até ser preso na Bolívia em 2019, e extraditado para a Itália, era membro de uma outra organização revolucionária, a PAC – “Proletários Armados pelo Comunismo”. Antes de se instalar no Brasil, Battisti também passou um período refugiado na França. 

Quando Battisti foi preso, o então ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini – de extrema direita –, acusou a França de abrigar durante décadas "assassinos que mataram inocentes". Na época, ele reivindicou o retorno à Itália de cerca de 15 "terroristas italianos", que tinham sido condenados à revelia pela Justiça de seu país, mas viviam em liberdade na França.

Desde 1981, a França assinou apenas dois decretos de extradição solicitados pela Itália. O ex-presidente Jacques Chirac aceitou o pedido relativo a Paolo Persichetti em 1995, extraditado para a Itália em 2002, e o de Cesare Battisti, em 2004.

Em 2008, o então presidente Nicolas Sarkozy havia decidido não aplicar o decreto de extradição da ex-integrante das Brigadas Vermelhas Marina Petrella, condenada à prisão perpétua na Itália, por causa de seu estado de saúde.

Com informações da AFP

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