Para ONGs humanitárias, venda de Rafale ao Egito representa apoio da França a regime repressivo

Mais 30 caças Rafale foram comprados pelo Egito.
Mais 30 caças Rafale foram comprados pelo Egito. © Indian Air Force via AP

O Egito confirmou nesta terça-feira (4) a compra de mais 30 caças Rafale da França. A notícia foi celebrada por Paris, mas criticada por organizações humanitárias, que contestam o simbolismo do contrato. Para ONGs como a Anistia Internacional, a venda pode ser vista como uma forma de apoio de Paris ao regime egípcio, apontado como um dos mais repressivos do mundo.

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A assinatura foi celebrada pela ministra francesa da Defesa, Florence Parly. Nas redes sociais, ela disse que o contrato “reforça a parceria estratégica militar”, entre os dois países e que o negócio é “crucial para a soberania” da França, além de representar a preservação de 7 mil empregos durante três anos. “O Rafale mostra novamente sua excelência tecnológica e operacional”, concluiu a ministra em sua postagem.

Segundo informações divulgadas na imprensa francesa, o contrato de venda dos 30 aviões de combate é estimado em quase € 3 bilhões. O Cairo, que já havia comprado outros Rafale da França, também assinou dois contratos com o fabricante de mísseis MBDA e Safran Electronics & Defense.

No entanto, se Paris vê a assinatura dos contratos como uma proeza, principalmente para um avião militar que demorou anos para emplacar – inclusive com uma negociação interminável e finalmente fracassada com o Brasil – segundo organizações como a Anistia Internacional, o negócio deve ser visto principalmente como um sinal de apoio ao regime do presidente egípcio Abdel Fatah Al-Sissi.

“Trata-se de um país que tem uma das piores reputações no mundo em termos de direitos humanos”, alerta Aymeric Elluin, da Anistia Internacional. “O que estamos fazendo, apesar das declarações do ministério das Relações Exteriores [da França], que coloca os direitos humanos entre suas prioridades, é que ao vendermos armas, oferecemos um apoio estrutural ao regime [egípcio]. Um regime que, nós sabemos, pratica torturas e está por trás do desaparecimento de pessoas”, denuncia.

Desde que Abdel Fatah Al-Sissi chegou ao poder, em 2014, o Estado egípcio aumentou as compras de armamentos e vem impondo uma violenta repressão contra qualquer forma de contestação ao regime. As ONGs acusam o Cairo de utilizar armas contra civis, principalmente para reprimir a oposição e os ativistas. O Egito rejeita essas acusações.

Parceria estratégia

Apesar das denúncias, o presidente francês, Emmanuel Macron, recebeu Al-Sissi com pompa em Paris em dezembro de 2020. Na ocasião, ele condecorou o líder egípcio com a Grã-Cruz da Legião de Honra.

O presidente francês Emmanuel Macron recebeu o líder egípcio Abdel Fatah Al-Sissi com pompa em Paris em dezembro de 2020.
O presidente francês Emmanuel Macron recebeu o líder egípcio Abdel Fatah Al-Sissi com pompa em Paris em dezembro de 2020. REUTERS - GONZALO FUENTES

Durante a visita, o chefe de Estado europeu se recusou a impor a questão dos direitos humanos como uma condição para a parceria estratégia com o Cairo. Paris se limitou a defender uma “abertura democrática” no Egito.

É justamente essa parceria estratégica sem condições que preocupa as ONGs. “Quais são as garantias, hoje, que esses Rafale não serão usados para violar o direito internacional, por exemplo, na Líbia?”, questiona Elluin, lembrando que o Cairo já viola o embargo sobre o uso de armas contra o território líbio. “O que é mais preocupante nessa história é que, no final das contas, o Egito pode fazer o que quiser. É como se a França dissesse: façam o quiser com seu povo e nós continuaremos vendendo armas. Contem conosco”, se irrita o representante da Anistia.

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