Tirano ou herói? Comemoração do bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte é criticada na França

A estátua de bronze de Napoleão Bonaparte no monumento dos Invalides, em Paris, França.
A estátua de bronze de Napoleão Bonaparte no monumento dos Invalides, em Paris, França. Thomas Coex AFP/Archivos

O presidente francês Emmanuel Macron marcou nesta quarta-feira (5) com um discurso e uma cerimônia os 200 anos de morte de Napoleão Bonaparte. O personagem é indissociável da história da França, mas seu legado é controverso e muitas pessoas criticam é homenagem oficial, dizendo ser “impossível” lembrar em 2021 a memória do primeiro imperador dos franceses, que restabeleceu a escravidão em 1802.

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Napoleão Bonaparte é uma figura de transição entre o Antigo Regime e um novo tempo liberal. Ele chegou ao poder em 1799, na esteira da Revolução Francesa, e em 1804 se autoproclamou Imperador. Napoleão governou a França por 15 anos e iniciou reformas importantes no país, como o Código Civil, o Tribunal de Contas, os Liceus... Ele declarou guerra às monarquias da época e conquistou quase toda a Europa.

Detido pelos ingleses em 1815 após a derrota na batalha de Waterloo, ele morreu no exílio em 5 de maio de 1821, aos 51 anos, na ilha de Santa Helena. Seus restos mortais foram repatriados em 1840, por decisão do rei Luís Filipe, e colocados no monumento dos Invalides, em Paris.

Mas o legado de Napoleão divide até hoje os franceses, que questionam se o personagem histórico deve ser visto com um herói ou um tirano. E a decisão de Emmanuel Macron de comemorar o bicentenário de sua morte reacende a polêmica.

Vários políticos da oposição, que denunciam “a tendência bonapartista” do atual presidente francês, veem na homenagem uma politização da história. O deputado centrista Jean-Christophe Lagarde disse à RFI que “política não se mistura com a história, principalmente em se tratando de Napoleão Bonaparte”. Alexis Corbière, do partido de esquerda radical França Insubmissa, declarou que “celebrar Napoleão no contexto atual é alimentar essa figura que assombra a vida política”.

Restabelecimento da escravidão

Além da fama de autoritário e misógino, um dos legados mais polêmicos de Napoleão é o restabelecimento da escravidão nas colônias do país. A prática havia sido abolida em 1794, após a Revolução Francesa, e a libertação definitiva dos escravos foi decretada na França em 1848.

“Não podemos celebrar coisas contrárias. Se Emmanuel Macron insiste em comemorar o bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, ele não será digno de celebrar a abolição da escravidão em 10 de maio”, ressalta indignado George Tin, presidente de honra do Conselho de Representantes das Associações do Movimento Negro da França.

A homenagem choca particularmente os habitantes dos departamentos ultramarinos franceses, Guadalupe, Martinica e Reunião, cuja população é formada em grande parte por descendentes de escravos. “Nenhuma vítima pode celebrar seu opressor, a não ser que esteja louca ou alienada”, afirmam o Comitê Internacional dos Povos Negros (FKNG) e o Movimento Internacional por Reparações (MIR). Em um comunicado, os dois movimentos associam a homenagem e um “racismo liberticida”.

"Comemorar significa lembrar coletivamente, mas não honrar”, detalha o historiador Frédéric Régent em entrevista à rádio France Info. Para ele, “graças à essa comemoração, a maioria dos franceses vai saber que Napoleão restabeleceu a escravidão”.

Partidários

A polêmica espelha as tendências políticas atuais na França. Segundo o porta-voz da bancada do governo na Assembleia, o deputado Pieyre-Alexandre Anglade, é ridículo ver o deputado da França Insubmissa Alexis Corbière, que tem um líder (Jean-Luc Mélenchon) que se vê como um homem providencial, dizer que Macron se aproveita do mito napoleônico”.

O conservador Pierre-Henri Dumont, do partido Os Republicanos, não vê nenhuma polêmica na herança de Napoleão. Para ele, o primeiro imperador francês merece uma homenagem. “Temos o Código Civil, os liceus, os prefeitos (representantes do Estado nos departamentos e regiões), os departamentos. Não temos que ter vergonha de celebrar”, defende Dumont.

Comemorar, mas de maneira lúcida e equilibrada, sem esconder os pontos negativos do legado do imperador francês, é o que propõe o governo. O deputado Oliver Bechet do partido A República em Marcha, de Macron, lembra que “Napoleão tem uma imagem na França e uma imagem catastrófica no resto da Europa, onde ele foi julgado por vários povos como opressor”.

Temendo que o presidente francês brilhe sozinho nessa homenagem, Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita Reunião Nacional e principal adversária de Macron nas eleições presidenciais do ano que vem, publicou um manifesto na imprensa em que proclama “viva o imperador, viva a grandeza”. Ao contrário dos outros críticos, ela lamentou que essa homenagem nacional a Napoleão, que “trabalhou para a reorganização da França como unidade, como nação, de maneira pacificadora, e tanto fez pelo país e pelo mundo”, seja tão irrisória.

Homenagem nos Invalides

Emmanuel Macron pronunciou um discurso em memória de Napoleão Bonaparte no Instituto da França, antes de depositar uma coroa de flores no monumento dos Invalides. “Não fazemos uma celebração exaltada, mas uma comemoração exaltada”, justificou o presidente francês. “A obra completa de Napoleão, cheia de contrastes, ainda não revelou todos os seus segredos. Ela continua a nos modelar”, declarou Macron. Respondendo às críticas, ele enfatizou que o restabelecimento da escravidão em 1802 foi um “erro, uma traição ao espírito dos iluministas”.

“Embora para alguns Napoleão tenha destruído a Revolução Francesa, para outra parte da historiografia e estudos mais atuais, não é bem assim. Napoleão Bonaparte consolidou o direito e o poder burguês que era o ideal da Revolução Francesa. Não era um ideal de democracia”, pondera a historiadora brasileira Lucia Bastos das Naves, da UERJ, autora do livro “Napoleão Bonaparte: imaginário e política em Portugal”.

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