França comemora 40 anos da eleição de François Mitterrand com esquerda sem rumo

Manchete de vários jornalis franceses nesta segunda-feira (10) para os 40 anos da histórica eleição de seu primeiro presidente socialista, François Mitterrand.
Manchete de vários jornalis franceses nesta segunda-feira (10) para os 40 anos da histórica eleição de seu primeiro presidente socialista, François Mitterrand. © Fotomontagem RFI/Adriana de Freitas

A França recorda nesta segunda-feira (10) os 40 anos da histórica eleição de seu primeiro presidente socialista, François Mitterrand, que morreu em 1996. A imprensa aproveita a ocasião para analisar a crise na esquerda, a um ano de uma nova eleição presidencial no país. 

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A vitória de François Mitterrand contra Valéry Giscard d'Estaing em 10 de maio de 1981 foi celebrada pelos principais políticos socialistas em um encontro organizado neste domingo (9) em Saône-et-Loire, na região da Borgonha. Estavam presentes o ex-presidente François Hollande, o ex-primeiro-ministro Lionel Jospin e a prefeita de Paris, Anne Hidalgo.

O grupo escolheu a Borgonha porque foi lá que Mitterrand animou, nos anos  1940, um núcleo de Resistência ao nazismo e conheceu sua mulher, Danielle, na cidade de Cluny. Mas a "família" não estava completa pela ausência notável do atual secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, que preferiu participar da Marcha pelo Clima, em Paris.   

"Nem para comemorar Mitterrand os socialistas se entendem", comenta um deputado do PS nas páginas do jornal Le Parisien. "Vítima de suas divisões, a esquerda perdeu uma grande parte do voto popular e está à procura de um líder", escreve o jornal em sua chamada de capa.

Em poucas palavras, o cientista político Gérard Grunberg resume a atual situação do Partido Socialista e das outras legendas de esquerda concorrentes entre si, como A França Insubmissa, o Partido Comunista e Europa Ecologia Verdes. "Temos uma esquerda fragmentada e enfraquecida que não representa um ator político na próxima eleição", avalia o especialista. 

Nas pesquisas de intenção de voto para a presidencial de 2022, somados todos os votos das diferentes formações de esquerda, o eleitorado fica em torno de 30%, contra mais de 50% no primeiro turno da eleição de Mitterrand, em 1981. A razão dessa dispersão é a falta de uma oferta política clara e de um projeto de transformação social capaz de reverter os desequilíbrios das políticas neoliberais, observa o Le Parisien.

Falta de oferta política compreensível para os trabalhadores

Em 1981, Mitterrand entusiasmava os eleitores oferecendo a possibilidade de rompimento com o capitalismo. Entretanto, após dois mandatos à frente do país, crises econômicas sucessivas, medidas de austeridade, o fracasso dos programas de nacionalização e o alinhamento da França a uma Europa liberal e de moeda única, o eleitorado popular absorveu esses acontecimentos como uma renúncia e até mesmo uma traição à população mais necessitada, cita o Le Parisien.

O governo do presidente François Hollande, que se elegeu em 2012 com a promessa de combater o capitalismo financeiro, mas na prática aplicou medidas vantajosas para o empresariado e reduziu direitos trabalhistas, foi a gota d'água para a decomposição da esquerda.

Nas páginas do jornal Libération, o socialista Benoît Hamon aponta o que mudou nesses 40 anos. "A esquerda se tornou culturalmente minoritária. O debate se deslocou da questão social para a questão identitária", analisa. Os intelectuais de esquerda já não conseguem mais mobilizar os trabalhadores, que buscam refúgio no populismo da líder de extrema direita Marine Le Pen.

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