Psicólogos franceses fazem greve com aumento de carga de trabalho na pandemia

Diante do anúncio de novas medidas destinadas, entre outras coisas, a reembolsar certas consultas psicológicas, várias federações de psicólogos convocaram manifestações nesta quinta-feira em toda a França.
Diante do anúncio de novas medidas destinadas, entre outras coisas, a reembolsar certas consultas psicológicas, várias federações de psicólogos convocaram manifestações nesta quinta-feira em toda a França. © Captura de tela

Eles têm o hábito de ouvir, mas agora querem ser ouvidos: centenas de psicólogos franceses foram às ruas em diversas cidades da França, nesta quinta-feira (10). Os profissionais denunciam as condições de atendimento nos hospitais e consultórios diante do aumento da demanda de pacientes durante a epidemia.

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Segundo um estudo da Santé Publique France, a Agência Nacional de Saúde Francesa, o número de pessoas em “estado depressivo” no país mais do que dobrou entre setembro e novembro de 2020.

De acordo com uma outra pesquisa recente realizada pelo mesmo órgão, 34% das pessoas interrogadas estavam deprimidas ou ansiosas. No primeiro lockdown, em março de 2020, esse era o caso de 26,7% dos franceses, que do dia para a noite tiveram que a aprender a conviver com o distanciamento social, o uso das máscaras, a generalização do trabalho à distância e as medidas impostas pelo lockdown. Além, é claro, do risco de contrair uma doença potencialmente fatal.

A pedopsiquiatra francesa Mounia, que preferiu omitir seu nome completo, atua há mais de 40 anos na área. Ela participou de um dos protestos desta quinta-feira em Paris e denuncia a degradação das condições de trabalho na sua profissão. Em entrevista à RFI, Mounia também citou a interferência no trabalho dos psicólogos durante a epidemia.

“Passamos a receber ordens do governo sobre a maneira como devemos trabalhar. Nunca vimos isso antes”, relata. Ela faz menção a uma lei publicada em março desse ano que dá a prerrogativa às agências regionais de Saúde na escolha da terapia que será usada para tratar o paciente. O risco é a imposição de métodos que não levam em conta as especificidades de cada um deles, diz Mounia.

 “O local onde realizamos as sessões deve ser um local de emancipação”, defende. “Recebemos adultos e crianças, para que possamos ajudá-los a se sentir melhor em relação a seus sintomas, para que possam encontrar seu lugar ao sol”, explicou.

Salários baixos

A falta de reconhecimento da profissão também está no centro das reivindicações. “Em nosso hospital, assim como muitos colegas, fomos mobilizados durante a crise da Covid, mas não tivemos nenhum reconhecimento, nem do governo, nem em termos de salário”, denuncia Éliane, 47 anos, que trabalha em um hospital público de Paris.

“Somos profissionais diplomados, com pelo menos cinco anos de estudos universitários. No hospital, nosso salário inicial é de apenas € 1470 (cerca de R$ 9050,00)", contou. A título de comparação, o valor corresponde ao preço de um aluguel de um apartamento de cerca de 40 m2 em Paris, em um bairro popular.

“Com a Covid, houve uma explosão do sofrimento psíquico e os hospitais psiquiátricos não puderam suprir a demanda dos pacientes. O governo buscou soluções, mas não escolheu as melhores”, explicou o psicólogo Guillaume Lelong à revista francesa Marianne.

Entre as medidas propostas pelo governo francês estão as consultas gratuitas para os estudantes e o reembolso de dez sessões anuais de 30 minutos para adultos com problemas mentais de intensidade leve a moderada. O preço: € 22. Outras propostas de lei, que tendem a reorganizar o acesso às consultas, também podem comprometer o acompanhamento a longo prazo.

Na prática, esse pacote de dez consultas com um psicólogo deverá ser receitado por um médico para ser reembolsado pela Seguridade Social. Para obter novas sessões, o paciente deverá pedir uma nova receita para seu clínico-geral.

Epidemia agravou e provocou aparecimento de doenças mentais

O papel de psicólogos e psiquiatras tornou-se ainda mais essencial durante a epidemia. Os casos de insônia, ansiedade, depressão e dependência química dispararam durante a crise sanitária.

Os efeitos desse período na saúde mental da população são vistos pelos profissionais como um desafio coletivo. A crise nas unidades de atendimento psiquiátrico dos hospitais é comparável ao drama vivido nos setores reservados aos pacientes da Covid-19, durante as ondas epidêmicas.

No último ano, “houve a intensificação de diversas patologias”, relatou ao programa da RFI Priorité Santé Antoine Pelissolo, psiquiatra-chefe do hospital Henri-Mondor, em Créteil, na região parisiense. “Neste momento, há muitos fatores que se acumulam e agravam a depressão, a angústia e outras doenças. Vimos muitas pessoas que pareciam bem, nunca tinham consultado ou tido sintomas psiquiátricos, passarem por momentos difíceis”, relata.

O especialista francês ressalta que, apesar, das dificuldades, a população se adaptou de maneira surpreendente a uma situação “extraordinária”, mas isso tem um custo. “Adaptar-se significa fazer um esforço muito grande para mudar, achar soluções, e não somos todos iguais em relação à capacidade de adaptação. Existe até mesmo uma patologia. Nela, a pessoa se torna incapaz de continuar se adaptando de maneira indefinida. Não é grave, mas pode predispor a uma depressão”, alerta.

As categorias mais vulneráveis da população são naturalmente as mais expostas às consequências psíquicas da epidemia: desempregados, idosos, estudantes e outras pessoas em situações precárias.  O estudante Paul Legrand está no segundo ano de Direito e Ciência Política de Montpellier e sente falta de vida social.

“Eu me sinto deprimido. Em um quarto de 9 metros quadrados, a gente se levanta de manhã e tem a impressão que as paredes se aproximam cada vez mais da gente. Há uma mudança também em relação à higiene de vida: posso passar três semanas sem me barbear, já que não vou me encontrar com ninguém”, descreve.  

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