"Tenham medo do vírus, não da vacina", implora premiê francês diante da queda de injeções

O primeiro-ministro francês, Jean Castex, e o ministro da Saúde, Olivier Véran, em visita à região de Landes, foco de contaminação da variante Delta na França.
O primeiro-ministro francês, Jean Castex, e o ministro da Saúde, Olivier Véran, em visita à região de Landes, foco de contaminação da variante Delta na França. AFP - GAIZKA IROZ

O primeiro-ministro francês, Jean Castex, lamentou a queda no número diário de vacinados com a primeira dose de imunizante contra a Covid-19. Em visita a Mont de Marsan, na região de Landes, no sudoeste da França, que se tornou um foco de contaminação da variante Delta, ele pediu um esforço da população para evitar, ou pelo menos atenuar, uma nova onda epidêmica no fim de agosto.

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O primeiro-ministro anunciou um "plano de ação local", que inclui um reforço dos testes de diagnóstico e da vacinação. Se as medidas forem insuficientes, restrições locais não estão descartadas.

"Vacinamos apenas cerca de 200 mil pessoas por dia, pela primeira vez", disse o ministro, lembrando que há uma "desaceleração" no agendamento de injeções. Os centros de vacinação franceses já chegaram a realizar mais de um milhão de aplicações por dia.

A França fechou um contrato com um aplicativo chamado Doctolib, para que as pessoas pudessem marcar hora em um dos centros de vacinação homologados. Também é possível fazê-lo pelo telefone. No caso de pessoas mais velhas, com dificuldade de acesso à internet, a Seguridade Social entra em contato diretamente com o idoso. Atualmente, todos os residentes no país a partir de 12 anos podem receber a injeção.

Castex lançou um apelo "solene" aos profissionais da Saúde que ainda não foram vacinados. "É primordial que todos os profissionais da Saúde, incluindo todos os cuidadores das casas de repouso para idosos, estejam vacinados até o final de agosto", disse, sem mencionar se tornaria a vacinação obrigatória para algumas categorias da população. "Podemos e devemos melhorar", afirmou.

De Bruxelas, onde participa de uma cúpula da União Europeia, o presidente francês, Emmanuel Macron, pediu "vigilância" em relação à nova variante, que se dissemina "muito mais rapidamente do que as anteriores." A situação torna indispensável uma melhor coordenação da campanha de vacinação no país, "que deve acelerar ainda mais."

Vacinação obrigatória não está descartada

O ministro francês da Saúde, Olivier Véran, não descarta a vacinação obrigatória para todos. Véran é favorável à utilização de "métodos persuasivos" para convencer indecisos e deixar a militância antivacina sem alternativa. O objetivo do governo é vacinar, com duas doses, 35 milhões de franceses até o final de agosto, contra cerca de 19,6 milhões atualmente, e 40 milhões com uma dose, contra 32,7 até agora.

"Tenha medo do vírus, não da vacina", insistiu Castex. Atualmente, estima-se que menos de 80% dos franceses sejam favoráveis às vacinas contra a Covid-19, segundo uma pesquisa da Agência de Saúde Pública do país divulgada no início de junho. O número é insuficiente para atingir a imunidade coletiva, estimada em pelo menos 85% de adultos vacinados.

Uma das dificuldades é o uso das doses de AstraZeneca, recusada por muitos franceses por conta dos raros casos de trombose. Além disso, há má compreensão sobre a eficácia dos imunizantes: parte da população acredita que eles não seriam eficientes contra a variante Delta, então "não compensa" se vacinar.

Duas doses protegem contra variante Delta

Esse argumento encontra respaldo, em parte, nas notícias sobre vacinados que contraíram a doença. Os estudos mostram que essa possibilidade é alta no caso de um esquema incompleto de vacinação, com apenas uma dose, que gera uma proteção insuficiente, de acordo um estudo do NHS (Public Health England), a Agência do Departamento de Saúde do Reino Unido. Essa mesma pesquisa afirma que as chances de hospitalização com duas injeções das vacinas Pfizer ou Moderna, a base de RNA mensageiro, ou da AstraZeneca, são mínimas e ocorrem principalmente em pacientes com sistemas imunológicos fragilizados, seja pela idade ou por diferentes patologias.

A faixa etária dos 20-50 anos é a mais reticente à vacinação na França. Muitos acreditam que correm poucos riscos de desenvolver uma forma grave da doença, mas se esquecem, por exemplo, da Covid longa, que atinge cerca de 10% dos contaminados, incluindo assintomáticos. Há desconhecimento também sobre a ação do Sars-CoV-2 no organismo a médio e longo prazos, que tem, segundo cientistas, um tropismo cerebral capaz de desencadear doenças como depressão, problemas de memória ou ainda perda cognitiva.

(AFP e RFI)

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