Expulsão de usuários de “cracolândia" de Paris reabre polêmica sobre salas de consumo de drogas

Moradores protestam contra abertura do Jardim Eole para viciados em drogas (19/05/2021)
Moradores protestam contra abertura do Jardim Eole para viciados em drogas (19/05/2021) AFP - GEOFFROY VAN DER HASSELT

Um dia depois de a prefeitura de Paris realizar uma operação para expulsar usuários de crack reunidos em uma praça no nordeste da cidade, o debate sobre a abertura de mais salas de consumo de drogas está lançado na capital francesa. Retirados da praça Eole, entre os distritos parisienses 18 e 19, os usuários voltaram a perambular pelas ruas do bairro nesta quinta-feira (1°).

Publicidade

Faz anos que esses dependentes químicos são levados de um ponto para outro da região, em reação à insatisfação dos moradores com a situação. No último capítulo da “novela" da cracolândia no nordeste parisiense, a prefeita Anne Hidalgo – que havia autorizado em maio a abertura da praça durante a noite para receber os usuários – ordenou a retirada de dezenas deles, para devolver o local às famílias que frequentam a área durante o dia, com crianças. À noite, o local acabou se tornando palco de uso não apenas de crack, como cada vez mais de drogas mais pesadas, conforme indicam as seringas usadas deixadas espalhadas pelo chão.

“Na semana passada, chegamos às 10h e ainda havia dependentes tomando café da manhã nos brinquedos do parquinho das crianças. Se nada for feito, daqui a pouco elas vão brincar com seringas, cachimbos”, relata John, um pai de família que mora no bairro, à agência AFP.

“Essa decisão [de fechar a praça à noite] me parece precipitada, afinal os usuários não desapareceram: agora eles só estão em volta do parque”, constata José Matos, chefe de serviço do centro de acolhimento e acompanhamento de usuários de drogas da associação Gaïa, responsável pela única sala de consumo aberta na capital, perto da estação de Gare du Nord, no leste da cidade.

Embate entre prefeitura e ministro de Macron

Em entrevista à RFI, Matos diz compreender a rejeição que este tipo de estabelecimento possa causar entre moradores e forças de ordem. O tema gera uma disputa entre a prefeitura e o governo do presidente Emmanuel Macron – assim como a prefeita Hidalgo, o ministro da Saúde, Olivier Véran, se mostra favorável à medida, mas o do Interior, Gérald Darmanin, da ala mais à direita do governo, considera que o consumo de drogas não deve ser apoiado, e sim combatido.

“É claro que eles não vão desaparecer. É por isso que nós precisamos que o governo diga claramente qual é a sua doutrina”, disse o subprefeito do 18o distrito, Eric Lejoindre.

Para profissionais que lidam com o tema, a abertura de mais salas são a única maneira eficaz de tratar o problema. “Elas não são uma vara de condão, que vão resolver todos os problemas. Mas se queremos tirar o consumo das ruas, é preciso oferecer uma opção, porque ele vai continuar em algum lugar”, observa Matos.

"Uma sala de consumo não é apenas um local para usar a droga, mas é uma porta aberta, onde a pessoa faz conexões, é ouvida e pode ser direcionada para um tratamento. Evidentemente, o ideal é que todas parassem de consumir, mas nem todas têm a capacidade de parar já, ainda mais as que estão no crack, uma droga extremamente viciante”, ressalta o assistente social.

Com informações da AFP 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Acompanhe todas as notícias internacionais baixando o aplicativo da RFI