Covid: exigência de passaporte sanitário cria tráfico de atestados falsos na França

Protestos contra a obrigatoriedade do passaporte sanitário na França.
Protestos contra a obrigatoriedade do passaporte sanitário na França. REUTERS - GONZALO FUENTES

O passaporte sanitário, dispositivo que confirma que seu portador foi imunizado ou que teve um teste negativo de Covid-19, está sendo exigido na França para dar acesso a vários estabelecimentos comerciais. A medida foi alvo de protestos e alguns têm recorrido a falsos atestados para poder burlar a regra e circular livremente.

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O passaporte sanitário funciona por meio de um aplicativo baixado no telefone celular, que é apresentado para dar acesso a teatros e cinemas e que, a partir do início de agosto, também será exigido em restaurantes e shoppings. No entanto, o governo possibilita que o documento seja apresentado sob forma de um formulário impresso. E é justamente essa brecha que abriu a porta para que alguns tentassem contornar o sistema.

Atestados falsos vêm sendo vendidos pela internet, e por € 250 (cerca de R$ 1,5 mil) é possível obter um documento que “comprova a vacinação” daqueles que não foram imunizados. A polícia já prendeu no fim de semana passado nos arredores de Paris um homem que carregava 40 atestados de vacinação falsos, além de transportar milhares de euros no bolso. Em seguida, uma mulher que trabalhava em uma farmácia foi detida quando vendia passaportes sanitários falsos.

Eles serão julgados por falsificação de documentos administrativos e formação de quadrilha, entre outros crimes. As autoridades também conseguiram identificar cerca de 50 “clientes” que já tinham recebido os documentos encomendados.

As detenções acontecem em um momento em que o passaporte sanitário vem se tornando indispensável para circular na França. Além disso, nesta terça-feira (20) o governo decidiu que os portadores do documento não precisarão mais usar máscaras de proteção nos lugares fechados, onde é exigido.

A necessidade do passaporte é alvo de críticas e protestos nas ruas. Os opositores às medidas consideram que o dispositivo torna, indiretamente, a vacinação obrigatória.

Recrudescimento das contaminações

Aprovado por decreto, o fim da obrigatoriedade da máscara nos lugares que exigem o passaporte sanitário foi publicado no Diário Oficial francês e entra em vigor imediatamente. Para o ministro francês da Saúde, Olivier Véran, a máscara não é mais necessária, porque, com o passaporte, "estamos seguros de que todas as pessoas que entram estão totalmente vacinadas, ou têm um teste negativo recente". 

A medida foi criticada por especialistas, que consideram a decisão contraditória, em um momento em que o país registra um aumento com maior intensidade das contaminações, com mais de 18 mil novos casos em apenas 24 horas. "Devemos caminhar com todo rigor para combater essa pandemia, e não retirar algumas medidas", declarou o epidemiologista Dominique Costagliola em entrevista à rádio France Inter.

"Esta decisão impede o acesso a estes lugares a cerca de 250 mil pessoas imunodeprimidas graves, que têm passaporte sanitário, estão vacinadas, mas com um risco alto (...) e que só podem contar com que todos usem a máscara para se proteger", reagiu a associação de transplantes de fígado Renaloo.

As autoridades estão conscientes da gravidade da situação, sob o impacto da variante Delta, mais contagiosa. A tal ponto que o porta-voz do governo, Gabriel Attal, disse nessa terça-feira que o país já entrou na “quarta onda" da pandemia.

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