Macron não pede desculpas, mas reconhece "dívida" da França com a Polinésia por testes nucleares

O presidente francês, Emmanuel Macron, durante discurso em Papeete, capital da Polinésia Francesa, nesta quarta-feira, 28 de julho de 2021.
O presidente francês, Emmanuel Macron, durante discurso em Papeete, capital da Polinésia Francesa, nesta quarta-feira, 28 de julho de 2021. Ludovic MARIN AFP

A questão foi um dos principais motivos da viagem do presidente Emmanuel Macron à Polinésia Francesa, onde reconheceu a existência de uma "dívida" com esse território no oceano Pacífico. Até hoje, nenhum governo pediu oficialmente desculpas pelos mais de 200 testes nucleares realizados durante 30 anos no local. 

Publicidade

Com informações de Julie Chavanne, enviada especial da RFI a Papeete 

Foi preciso esperar até os 42 minutos do último discurso na viagem de quatro dias que Macron realiza à Polinésia Francesa. Na sede da presidência do governo local, diante de centenas de pessoas, com o pescoço adornado por colares de flores tradicionais da localidade, o presidente francês finalmente mencionou a delicada questão.

"Eu queria lhes dizer que a nação tem uma dívida em relação à Polinésia Francesa. Durante muito tempo, o Estado preferiu manter o silêncio sobre esse passado. São 30 anos de explosões sucessivas. O que eu quero quebrar hoje é esse silêncio. Eu assumo e quero a verdade e a transparência com vocês", afirmou. 

O cumprimento das promessas deve começar com a abertura de arquivos militares sobre os polêmicos testes nucleares realizados no território de 1966 até 1996. A iniciativa permitirá aos polinésios conhecer a localização e a intensidade precisa desses exercícios que deixaram milhares de vítimas – muitas delas sofrem até hoje de câncer. 

Por isso, o presidente francês prometeu também uma melhor indenização aos atingidos. Segundo ele, os serviços do Estado estarão encarregados de encontrar potenciais vítimas em arquipélagos longínquos do território. 

"Confiem em mim como eu confio em vocês. É preciso tempo. Eu lhes digo tudo o que eu sei: diante de vocês, eu assumo e reconheço. Gostaria que, juntos, possamos afastar essas nuvens e essa sombra, porque temos juntos uma nova página a escrever, feita de ambição e futuro", reiterou.

No entanto, uma palavra, tão esperada pelos polinésios não foi pronunciada: desculpa. Macron descartou o pedido porque, segundo ele, como o general de Gaulle na época, ele não sabe se caso estivesse na mesma posição também poderia ter ordenado os testes nucleares.

"Eu poderia me livrar deste assunto pedindo desculpas, como fazemos quando esbarramos em alguém para poder continuar nosso trajeto, mas isso é muito fácil. E é muito fácil para um presidente da República da minha geração dizer que, de alguma forma, meus antecessores erraram, que o pior foi feito", argumentou. Para ele, a escolha dos testes foi feita na época para que a França pudesse contar com armas nucleares, "especialmente para defender a Polinésia Francesa".

Testes nucleares durante 30 anos

Em 1966, sob o comando do general Charles de Gaulle, a França transferiu seu campo de testes no deserto do Saara aos atóis de Mururoa et Fangataufa, onde realizou 193 exercícios nucleares atmosféricos até 1974, e subterrâneos até 1996. 

Macron reconheceu que o mesmo tipo de teste não teria sido feito "em Creuse ou na Bretanha", regiões da França continental. "Foram feitos aqui porque era mais longe, porque era um local perdido no meio do Pacífico", assumiu. 

Os anúncios ocorrem cinco anos depois do reconhecimento, pelo então presidente francês, François Hollande, durante uma visita em 2016, sobre "o impacto ao meio ambiente e à saúde" dos testes nucleares na Polinésia. Na época, o chefe de Estado fez uma série de promessas, mas muitas delas ainda não foram cumpridas, como a abertura de um memorial dedicado à questão. 

O presidente da Polinésia Francesa, Edouard Fritch, comemorou o discurso de Macron. Segundo ele, "após 25 anos de silêncio, a verdade será finalmente colocada sobre a mesa". 

No entanto, para as vítimas, os anúncios são insuficientes. "Não teve nenhum avanço, apenas demagogia. As mentiras do Estado continuam", criticou Auguste Uebe-Carlson, presidente da associação 193.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.