Meio milhão de idosos franceses vivem isolados em situação de morte social

Mais de meio milhão de idosos na França estão em situação de "morte social", segundo relatório da ONG Petits Freres du Pauvre, divulgado nesta quinta-feira
Mais de meio milhão de idosos na França estão em situação de "morte social", segundo relatório da ONG Petits Freres du Pauvre, divulgado nesta quinta-feira AP - Francois Mori

Um número crescente de idosos franceses vive em situação de morte social, sem vínculos familiares, de amizade ou em associações comunitárias. Essa é a constatação de um relatório da ONG Fondation Petits Frères des Pauvres, publicado nesta quinta-feira (30), que aponta que 530 mil franceses com mais de 60 anos vivem em isolamento e não veem quase nunca outras pessoas. Em 2017, esse número era equivalente a 300 mil pessoas.

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O grupo de idosos em situação de morte social representa 3% da população francesa, o equivalente aos habitantes da terceira maior cidade do país, Lyon.

O estudo, feito pelo Institut CSA Research, descobriu ainda que o número de idosos sem vínculo com família ou amigos mais que duplicou nos últimos anos, passando de 900 mil em 2017 para 2 milhões em 2021.

Como consequência, 36% dos idosos franceses, o equivalente a 6,5 milhões de pessoas, se sentem solitários com frequência, sendo que 2,5 milhões (14%) sentem solidão diariamente ou com muita frequência.

No cotidiano, esses milhões de homens e mulheres com mais de 60 anos encontram outras pessoas apenas em circulos comunitários e associações, ou dependem da visita de voluntários.

Não ter com quem conversar ou ter trocas sociais significativas é uma das queixas mais comuns. “Não tenho medo de morrer. Morrer é não viver o que vivo atualmente. Não é fácil, eu não vejo ninguém.” A fala é de Edith, uma idosa de 76 anos entrevistada pela equipe de pesquisa.

De acordo com o relatório, não ter filhos ou netos, ter dificuldades de mobilidade, ter renda mensal menor que €1.000 (abaixo do salário-mínimo nacional) e não ter acesso à internet são fatores que agravam o isolamento social da população com mais de 60 anos.

O isolamento chega a ser tal que a morte passa despercebida. Em dezembro de 2020, foi encontrado o corpo de uma idosa de 68 anos em seu apartamento no centro de Agen, uma cidade do sudoeste de 34 mil habitantes. O corpo mumificado foi encontrado dois anos após a morte.

Um problema social

O aumento do isolamento idoso, segundo os pesquisadores, é reflexo do crescimento da população mais velha nos últimos cinco anos. A França passou de 14,7 milhões de idosos em 2017 para 18 milhões em 2021. A mudança demográfica, que acontece em boa parte do mundo, precisa de medidas sociais específicas.

Além disso, a pandemia da Covid-19, e a consequente restrição de visitas, agravou a situação dos idosos, sobretudo daqueles que não vivem em casa de repouso nem têm família, e contavam sobretudo com apoio de vizinhos ou voluntários.

Para a ONG que trabalha contra o isolamento social, são essenciais políticas públicas que favoreçam a construção de laços locais com esse grupo, seja por meio de serviços de saúde e lazer, um trabalho com comércios locais e também a integração da população mais velha a centros comunitários e educacionais.

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