Macron diz que pandemia ainda não terminou na França e anuncia retomada de construção de centrais nucleares

O presidente francês Emmanuel Macron durante seu discurso na televisão, em 9 de novembro de 2021.
O presidente francês Emmanuel Macron durante seu discurso na televisão, em 9 de novembro de 2021. © Élysée

Em pronunciamento na televisão, Emmanuel Macron falou da situação sanitária, destacando que a França está se saindo melhor do que outros países. O presidente francês anunciou novas medidas de combate à Covid-19 no país, mudanças na forma de pagamento do seguro-desemprego, a retomada da construção de centrais nucleares e defendeu a independência energética. Ele também falou sobre as prioridades dos últimos cinco meses de seu mandato, descartando qualquer reforma previdenciária antes de 2022.

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“Há dois anos, somos confrontados pela pandemia e juntos, nós conseguimos vencer várias etapas, graças ao esforço coletivo e indispensável para proteger cada um de nós”, disse.

“Nossas decisões sempre foram fundamentadas no conhecimento científico”, afirmou. “Foi a convicção de que as responsabilidades individual e coletiva são a nossa primeira força que nos conduziu a fazer dois confinamentos”, lembrou o presidente, antes de agradecer aos profissionais de saúde empenhados nessa batalha e de afirmar que a guerra contra o vírus ainda não está ganha.

“Sabemos que será preciso conviver com o vírus e as suas variantes, até que a população mundial seja imunizada”, continuou Macron. “É por isso que, desde o início da pandemia, a França se engajou em dar doses de imunizantes aos mais pobres”, acrescentou, destacando a importância da solidariedade internacional.

“De acordo com a OMS, a quinta onda de Covid-19 já começou na Europa”, afirmou Macron, comemorando que a situação da França é melhor do que a do Reino Unido e da Alemanha, sublinhou o presidente.

“Nós fizemos o necessário para nos proteger e podemos continuar a dominar a situação, mas apenas se cada um de nós fizer a sua parte”, apelou. “Minha primeira mensagem, então, é um apelo ao espírito de responsabilidade daqueles que ainda não tomaram nenhuma dose da vacina”. De acordo com o presidente francês, são 6 milhões de pessoas nessa situação e que, portanto, tem 11 vezes mais chances de ir parar no hospital com formas graves da doença.

Frente à retomada da epidemia, Macron demonstrou preocupação especial com os mais velhos e os que sofrem de doenças crônicas. Emmanuel Macron pressionou os idosos a receberem uma injeção de reforço, sob pena de perder o passaporte sanitário.

A partir de 15 de dezembro, anunciou ele, os maiores de 65 anos terão que receber uma dose de reforço para manter a imunidade. Além disso, a campanha de reforço estará aberta a pessoas entre 50 e 64 anos, a partir do início de dezembro.

Segundo salientou, a imunidade diminui seis meses depois da vacina e o risco aumenta. Por isso, uma campanha de reforço foi lançada para os maiores de 65 anos e os mais frágeis. “Mas precisamos fazer mais”, disse o presidente. “Se você se vacinou já faz seis meses, eu o convido a fazer essa terceira dose, juntamente com a vacina da gripe”, explicou.

Os que têm menos de 65 anos também têm essa proteção diminuída ao longo do tempo. “Mais de 80% daqueles em reanimação tem menos de 50 anos”, lembrou, afirmando que as autoridades científicas ajudarão, nos próximos dias, a estabelecer como será feita essa dose de reforço de vacinação para franceses entre 50 e 64 anos.

O controle do passaporte sanitário será reforçado nos portos e aeroportos. Macron lembrou, no entanto, que as decisões podem ser adaptadas de acordo com diferentes situações no território nacional. “Graças aos gestos de proteção e à vacinação continuaremos a viver, sem fechar a economia”, disse.

Macron ainda lembrou que a França entrou cedo na pesquisa sobre medicamentos e anunciou o surgimento de uma “nova arma” contra as formas graves do coronavírus até o fim do ano, quando devem sair tratamentos eficazes contra a doença.

Macron ainda falou do orgulho pela França ter sido “um dos países que mais abriram as escolas durante a epidemia” e pela ajuda financeira dada aos estudantes.

Também foi através de um trabalho de cunho social, organizado pelo governo, que foi possível evitar que milhões de franceses caíssem na pobreza. O chefe de Estado afirmou que os empréstimos garantidos pelo Estado e o fundo de solidariedade permitiram dar essa resposta ágil e eficiente. Macron anunciou que os empréstimos com garantia estatal serão prolongados até junho de 2022.

Ele também destacou o apoio dado aos profissionais de saúde, que tiveram seus vencimentos aumentados. Segundo avaliou o presidente, “desde a criação da seguridade social, nunca se investiu tanto na saúde”. Porém, admitiu que a revalorização das carreiras foi necessária, após anos de abandono do setor. E prometeu continuar apoiando esses profissionais.   

Plano para relançar a economia

Macron dedicou parte do discurso a falar sobre o plano para relançar a economia, em parceria com a Europa. Ele destacou que o futuro é cheio de desafios e que o principal deles é garantir crescimento econômico “num mundo em tensão sobre os custos das matérias-primas e da energia.

Apesar de celebrar a taxa de desemprego em níveis baixos, em torno de 7%, Macron conclamou os franceses a visarem o pleno emprego. “Estamos no caminho para que cada francês consiga viver bem do fruto de seu trabalho”, afirmou.

De acordo com o presidente, empresários franceses dizem ter dificuldade para recrutar novos empregados. “Atualmente, 3 milhões de compatriotas estão ainda sem emprego”, destacou, mas “a remuneração pelo trabalho vem aumentando", desde o início do seu mandato.

Macron falou para a juventude francesa, destacando que três milhões de jovens puderam ter uma formação ou acompanhamento profissional. “No momento em que eu falo, o desemprego entre os jovens é o mais baixo em 15 anos”.

Reforma da previdência

De acordo com o presidente da República, as condições atuais "não permitem relançar a reforma das aposentadorias”, disse, invocando "a necessidade de acordo" sobre o tema, embora considerando que seria necessário "tomar decisões claras", a partir de 2022. Essas decisões, que “serão objeto de debate”, implicarão em “trabalhar mais tempo,” e “abolir os regimes especiais”, acrescentou.

Mesmo tendo deixado as reformas mais importantes de fora, pelo menos nesse momento, o presidente anunciou novidades para a obtenção do pagamento do seguro-desemprego. A partir de 1° de dezembro, o trabalhador deverá comprovar 6 meses de trabalho, no período de dois anos, para ser indenizado. Atualmente, o pagamento é feito a partir de quatro meses de trabalho comprovado. Além disso, os desempregados serão incentivados a procurar trabalho, sob risco de terem o apoio cortado.

Macron, no entanto, deixou claro a necessidade de mexer no sistema de aposentadorias e acabar com a desigualdade nesse setor. O presidente anunciou uma aposentadoria mínima para os agricultores, a entrar em vigor em 2022.  Contudo, admitiu que será preciso mais tempo para “tomar decisões claras”, apontando que o caminho para os franceses será de “trabalhar mais tempo para alcançarmos um sistema mais justo de aposentadorias”.

O presidente também falou na necessidade de “harmonizar as regras entre os setores público e privado”, para que nenhuma aposentadoria seja inferior a €1000. Para isso, será preciso “encorajar as pessoas a trabalharem além da idade legal, pois o trabalho continua sendo uma bússola para cada um de nós”, para “aumentar o poder de compra, proteger a família e concretizar projetos”, completou.

“Com a pandemia, nossas vulnerabilidades ficam expostas”, disse o presidente. “O vírus mostrou nossa dependência em relação a países estrangeiros, incluindo produtos de primeira necessidade, como máscaras, paracetamol e outros”, destacou.

“Com a vacina, reaprendemos que tudo pode mudar com uma rapidez inédita”, disse Macron. “Ao mesmo tempo, os desafios anteriores à crise continuam, como a proteção do planeta, o envelhecimento populacional, o aumento das desigualdades”, completou.

“O mercado apenas não é capaz de fazer frente a esses desafios”, sublinhou. “É preciso haver uma intervenção pública forte”, disse, anunciando investimentos importantes futuros em áreas-chave como robótica e a produção de semicondutores.

Plano França 2030

Macron destacou um plano dotado de € 30 bilhões, em cinco anos, a serem investidos em dez setores considerados promissores para o futuro, “como a descarbonização da indústria, veículos elétricos, aeronaves zero carbono, saúde, etc”, citou, além de educar e formar os jovens nas profissões do futuro, para construção de semicondutores. “Nosso objetivo é que os produtos e tecnologias não venham somente dos Estados Unidos e da Ásia, mas sejam elaborados na França, na Europa”, afirmou.

“Se continuarmos a fazer as reformas, a transformação e investimentos certos, a França pode continuar a ser essa grande potência educacional, industrial, agrícola e de inovação”, completou, “mantendo objetivos climáticos e de biodiversidade”.

Por fim, Macron destacou que a França não será forte sozinha. “O desafio é tão grande que só uma Europa solidária e voluntária” pode fazer frente aos problemas futuros, disse. “É nesse contexto de choque de potências, entre Rússia, Estados Unidos e China, além de desestabilização de várias zonas geográficas do mundo, que a França assume a presidência da União Europeia, em 1° de janeiro de 2022”, destacou.

“Sem a EU, não teríamos obtido as vacinas contra a Covid-19 tão rapidamente”, disse. “Juntos, poderemos proteger melhor nossas fronteiras externas. Continuaremos a ter uma relação de paz e crescimento com a África, além de controlar os gigantes da informática e desenvolvermos uma estratégia confiável de redução de CO2, compatível com a nossa soberania industrial e tecnológica”.

Novo fôlego às usinas nucleares

O presidente Emmanuel Macron também anunciou, nesta terça-feira, que a França pretende relançar um programa nuclear e construir novos reatores em seu território. "Vamos, pela primeira vez em décadas, relançar a construção de reatores nucleares em nosso país e continuar a desenvolver energias renováveis", disse ele. “Tudo isso para garantir a independência energética da França, para garantir o abastecimento elétrico do nosso país e para atingir os nossos objetivos de neutralidade de carbono em 2050”, defendeu.

“Se quisermos pagar por nossa energia a preços razoáveis ​​e não depender de países estrangeiros, devemos continuar a economizar energia e investir na produção de energia livre de carbono em nosso solo”, disse Emmanuel Macron. No entanto, o presidente não deu maiores detalhes sobre o cronograma, o tipo de reator previsto ou a localização das instalações.

Mensagem de união

Macron terminou seu discurso na televisão com uma mensagem de união. “Durante todos esses meses, estivemos unidos, fiéis ao que somos, profundamente humanos”, disse. “Eu sei que as incertezas, o cansaço e a raiva podem ser angustiantes, mas vejam o que conseguimos fazer nos últimos meses: conseguimos o impensável”, relatou.

"Digo com muita convicção: não tenham medo, creiam numa França forte e com espírito de resistência, num mundo que se abre ao obscurantismo e ao retorno do nacionalismo", concluiu.     

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