França/Manifestação

Autorizado pelo governo, protesto por Gaza em Paris ocorre sem incidentes

Manifestante com bandeira palestina em frente ao Hôtel des Invalides
Manifestante com bandeira palestina em frente ao Hôtel des Invalides Gabriel Brust / RFI Brasil

Aos gritos de "on a gagné!" (nós vencemos!), as cerca de 20 mil pessoas que protestaram em solidariedade a Gaza nesta quarta-feira (23) chegaram ao final da marcha, no jardim do Hôtel des Invalides, em Paris, celebrando uma vitória na queda de braço com o governo francês.

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Ao contrário do protesto pró-palestina ocorrido no último sábado, que não obteve autorização oficial e acabou descambando para a pancadaria entre manifestantes e a polícia, a marcha de hoje foi permitida e terminou sem maiores incidentes. Embora a oposição tenha acusado o governo de estar inseguro ao voltar atrás em sua decisão, o primeiro-ministro Manuel Valls disse que não há nenhuma incoerência.

O argumento do governo é que, ao contrário da manifestação de sábado, que foi convocada por um coletivo pouco conhecido e sem maiores negociações antecipadas, o movimento de hoje foi organizado por centrais sindicais e grupos de esquerda reconhecidos, que teriam acordado um trajeto com a polícia e oferecido garantias de segurança para que o ato transcorresse sem incidentes. A opinião pública, desta vez, ficou ao lado do governo Hollande: 62% dos franceses apoiaram a decisão de proibir a primeira manifestação, segundo pesquisa encomendada pelo jornal Le Figaro.

Protesto rive gauche

Outro aspecto que deve ter pesado na decisão, embora o governo não reconheça, é que a manifestação de sábado ocorreu na região do Boulevard Barbès, em um dos bairros de Paris que concentra a maior quantidade de imigrantes e franceses muçulmanos – além de ser uma das regiões mais pobres da cidade.

O movimento de hoje, ao contrário, evitou o "olho do furacão" e foi marcado para circular nas ruas da rica e tradicional margem esquerda do Rio Sena, onde os turistas e os poucos parisienses que ficam na cidade durante o verão puderam apreciar a marcha a partir do terraço dos cafés. Resultado: um protesto cheio de universitários e partidos de esquerda, e menos pessoas de origem árabe.

Um pequeno grupo de jovens de origem árabe com bandeiras da Palestina puxou a caminhada, com provocações constantes à polícia ao longo do trajeto e principalmente no fim, quando tentou ultrapassar a barreira policial sobre a Ponte Alexandre III. A imensa maioria de manifestantes que vinha atrás, no entanto, era do movimento sindical, universitários e partidos de esquerda, que unificaram a defesa de Gaza e a crítica ao governo francês. “Israel assassino, Hollande cúmplice” era o principal grito de guerra, entre bandeiras de Che Guevara e retratos de Barack Obama, criticando o apoio dos EUA a Israel.

Personagens da marcha

“Uma das razões de esta causa ser tão importante para os franceses é porque fomos nós mesmos um povo colonialista e que fez guerras coloniais” nos contou Pierre Sardou, vereador do município de Bagnolet, na periferia de Paris, enquanto distribuía panfletos da Frente de Esquerda. “Mas nós soubemos lutar pela libertação daqueles povos. Lutar pela Palestina livre é continuar aquele combate”. Em seu panfleto, afirma que o governo de Israel “tenta reprimir as aspirações do povo palestino para desenvolver e reforçar seu projeto colonial”.

Jovem refugiado sírio de 21 anos, Forrad Saman, que vive na França há seis anos, acompanhava a marcha carregando solitário uma bandeira de seu país. “Nossa situação na Síria parece com a dos palestinos, muitos de nós tivemos que partir de nossas casas. Não estive na manifestação de sábado porque não estava autorizada e aquele tipo de violência não ajuda em nada o movimento”.

A pequena reação da opinião internacional às centenas de palestinos mortos por Bachar El-Assad na Síria no ano passado é apontada por movimentos judaicos como a prova de que a indignação contra Israel é seletiva. Saman acha que a mobilização dos franceses é a mesma: “Nós fazemos encontros todos os sábados há três anos na Praça du Chatelet”.

Tensão histórica na França

Se a intenção declarada de François Hollande era a de evitar "importar" o conflito Israel/Palestina ao proibir a primeira manifestação, o tiro parece ter saído pela culatra. Especialistas apontam dois movimentos errados de Hollande ao lidar com a crise logo em seu começo. Primeiro, afirmou, quase imediatamente após o início da ocupação, que "Israel tem o direito de tomar todas as medidas para resguardar a segurança de seus cidadãos", uma declaração, para alguns, apressada e peremptória demais para os padrões da diplomacia francesa. Segundo, a própria proibição da manifestação, que teria incitado ainda mais a participação popular.

A culpa, no entanto, não pode ser inteiramente creditada aos movimentos desastrados de Hollande. Lar de 6 milhões de muçulmanos e 600.000 judeus – a terceira maior população judaica do mundo e maior até que a dos EUA em relação à população total –, a França também viu distúrbios e manifestações violentas há cinco anos, quando da primeira ocupação israelense.

Pode-se ir ainda mais atrás na história e buscar dois pontos de conflito tanto de Israel quanto do povo árabe com a França, ambos ainda não completamente superados: a deportação de judeus durante a ocupação nazista e a sanguinária Guerra da Argélia, ainda viva na memória dos argelinos que ocupam os bairros do norte de Paris – a maior população estrangeira da França.
 

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