Entrevista/França

Malinês que escondeu clientes do mercado judaico diz que não é herói

O jovem malinês Lassana Bathily receberá a cidadania francesa após ajudar reféns judeus em um atentado em Paris.
O jovem malinês Lassana Bathily receberá a cidadania francesa após ajudar reféns judeus em um atentado em Paris. AFP PHOTO / FRANCOIS GUILLOT

Na próxima terça-feira (20), Lassana Bathily vai se tornar cidadão francês. O jovem malinês foi o grande herói do supermercado judaico que foi atacado pelo terrorista Amédy Coulibaly  na sexta-feira passada. Para proteger as pessoas, Bathily, que é muçulmano, ajudou clientes judeus a se esconderem em uma câmara fria da loja atacada pelo jihadista. Em entrevista, ele conta detalhes desses momentos na mira do jihadista.

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Apesar da fama recente depois do ato de bravura no mercado kasher, o jovem malinês Lassana Bathily diz que não foi a vontade de ser herói que o motivou na sexta-feira passada. Em entrevista à jornalista Sylvie Koffi, da RFI, Bathily disse está “orgulhoso” de ter podido ajudar, mas confessou que ainda está muito “triste” com o que se passou no supermercado.
Ele só abre o sorriso ao falar da sua naturalização. Um abaixo-assinado recolheu 270 mil assinaturas em favor da concessão da cidadania ao jovem. Ele também planeja ir ao Mali ver a sua família para tranquilizá-los. Confira, abaixo, trechos da entrevista:

RFI: Você pode nos contar como foi a sexta-feira passada ?
Lassana Bathily: Eu tinha descido para o estoque. Depois de cinco minutos, ouvi barulhos e tiros. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas, nesse momento, as pessoas aparecendo correndo e gritando: “Eles estão aqui!”

RFI: E, nessa hora, o que você fez?
Lassana Bathily: Eu estava arrumando os produtos congelados. Aí, propus um esconderijo no congelador. Desliguei o congelador, apaguei a luz e fechei a porta. Alguns minutos mais tarde, Amédy Coulibaly percebeu que tinha alguém no subsolo. Então, ele enviou uma das minhas colegas para exigir a chave da loja. Ela veio uma segunda vez e disse que, se não voltássemos para o supermercado, ele iria matar todo mundo. Nesse momento, todos começaram a gritar e entraram em pânico. Eu propus que usássemos o elevador de subir as mercadorias, mas eles ficaram com medo.

RFI : Você assumiu o risco de fugir sozinho?
Lassana Bathily: Assumi. Meus colegas me disseram que eu tive muita sorte, porque Amédy Coulibaly ouviu o barulho desse elevador e veio ver o que estava acontecendo.

RFI : Na sua fuga, um policial te prendeu e te algemou…
Lassana Bathily: A polícia me mandou colocar as mãos na cabeça. Me arrestei pelo chão. Depois, eles me interrogaram. Eles não acreditavam que eu pudesse trabalhar com judeus. Nesse momento, vi que estava em perigo.

RFI : E você entendeu por que os policiais não acreditaram em você ?
Lassana Bathily: Na hora, não.

RFI : Eles acharam que você era um cúmplice de Amédy Coulibaly ?
Lassana Bathily: Depois é que soube que o agressor também era negro. Nesse momento, entendi a reação dos policiais. Hoje, estou orgulhoso de ter ajudado meus colegas e os clientes. Para mim, foi algo normal. Não fiz isso para ser herói.

RFI : O presidente François Hollande te telefonou. O que ele disse?
Lassana Bathily: Ele me deu parabéns. Conversamos por 30 minutos. Na conversa, ele prometeu que eu seria naturalizado. Para mim, é importante ser francês, porque meu futuro está aqui.

 

 

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