Política/Extrema-direita

Racha na extrema-direita francesa: Marine Le Pen rompe com o pai

Em imagem do dia 14 de abril, Jean-Marie Le Pen beija a filha e herdeira política.
Em imagem do dia 14 de abril, Jean-Marie Le Pen beija a filha e herdeira política. AFP PHOTO / JOEL SAGET

Briga familiar na Frente Nacional, o partido de extrema-direita francês. A líder da sigla, Marine Le Pen, anunciou nesta quarta-feira (8) sua intenção de se afastar de seu pai, Jean-Marie Le Pen, fundador do partido. A decisão é uma consequência de declarações de Jean-Marie, que voltou a afirmar que os campos de concentração nazistas foram "um detalhe da Segunda Guerra" mundial. Na próxima reunião do diretório nacional, prevista para o dia 17 de abril, Marine anunciará sua posição contra a candidatura anunciada do pai às eleições regionais de dezembro.

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A gota d'água para a ruptura foi uma entrevista de Jean-Marie Le Pen, de 86 anos, ao jornal de extrema-direita Rivarol. O fundador do partido racista e xenófobo, até hoje presidente de honra da legenda, criticou a estratégia política da filha, defendeu o ex-marechal Pétain − chefe do regime de Vichy, que colaborou com a Alemanha nazista −, desdenhou a democracia e ainda fez um apelo para salvar "os brancos". 

Jean-Marie Le Pen chama o primeiro-ministro Manuel Valls, nascido na Espanha e naturalizado francês, de "o imigrante Valls".

Suicídio político

A quarta-feira foi repleta de declarações dos integrantes da Frente Nacional. O primeiro a reagir pelo Twitter foi o companheiro de Marine Le Pen, Louis Aliot: "entrevista escandalosa". Em seguida, em outro tuíte, o genro completou: "nossas divergências políticas são inconciliáveis".

Poucos minutos depois, o braço direito de Marine Le Pen, Florian Phillipot, vice-presidente da sigla, declarou: "a ruptura com Jean-Marie é definitiva". Logo em seguida, Marine Le Pen anunciou que vai se opor à candidatura do pai às eleições regionais de dezembro. "Jean-Marie Le Pen parece estar em um processo de suicídio político", declarou Marine. 

Em um comunicado, a líder de extrema-direita denunciou "as provocações grosseiras" do pai, que "parecem ter o objetivo de me prejudicar e, infelizmente, fazem mal a todo o movimento".

Ruptura esperada

Analistas políticos são unânimes: a presidente da Frente Nacional não tinha mais escolha a não ser romper publicamente com o pai. Desde 2011, quando assumiu a direção da Frente Nacional, Marine se dedicou a uma intensa campanha retórica para mudar a imagem do partido. De certa forma, ela foi bem-sucedida. A troca no comando e o ingresso de uma nova geração de militantes transformou a Frente Nacional, em três eleições (Parlamento Europeu, Senado e departamentais), na terceira maior força política da França.

O discurso "light" de Marine convenceu uma parcela dos franceses de que ela não é uma extremista de direita, o que a maior parte dos analistas, intelectuais, políticos de direita e de esquerda contestam. Com um pai continuando a lembrar os piores tempos do nazismo, o futuro político de Marine, que ambiciona disputar a presidência em 2017, estava comprometido. 

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