Bloqueio de refinarias e ameaça de falta de gasolina na França preocupam imprensa

Capa dos jornais franceses Le Figaro, Libération, Les Echos desta terça-feira, 24 de março de 2016.
Capa dos jornais franceses Le Figaro, Libération, Les Echos desta terça-feira, 24 de março de 2016. RFI
Texto por: RFI
4 min

A nova fase do movimento de contestação contra a reforma da legislação trabalhista na França está estampada na primeira página dos principais jornais franceses desta terça-feira (24). Os protestos começaram há mais de dois meses, mas há alguns dias os sindicatos passaram a bloquear a entrada de refinarias e depósitos de combustíveis do país, provocando corrida aos postos e falta de gasolina em várias regiões. O governo francês denuncia uma chantagem, destaca Les Echos.

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O diário econômico diz que o primeiro-ministro Manuel Valls acusa uma parte da central sindical CGT pelos bloqueios e pede aos franceses para não ceder ao pânico. A ameaça de interrupção do abastecimento de combustível passou a ser a nova arma dos opositores do projeto de lei que flexibiliza as leis trabalhistas na França para pressionar o governo. Seis das oito refinarias francesas estão cercadas ou em greve, e uma sétima está ameaçada.

Os franceses fazem fila para encher o tanque preventivamente e cerca de 10% dos postos de gasolina no norte e oeste do país já não têm mais combustível para vender. Mas o governo conseguiu acabar com o cerco a alguns depósitos e diminuiu a escassez do produto em algumas cidades. Além disso, a França possui três meses de estoques estratégicos do produto, tranquiliza o texto. Em seu editorial, Les Echos analisa que esta é uma "estratégia de guerrilha", de uma rara violência, contra um governo que tinha a ambição de recuperar sua imagem social-democrata.

Hesitação do governo é criticada

Le Figaro também destaca a chantagem denunciada pelo premiê, mas critica a hesitação do governo diante dessa escalada da CGT. O jornal conservador afirma que o executivo faz tudo para evitar um acidente que sirva de estopim para uma revolta. O diário afirma que o sindicato optou por essa estratégia radical porque não consegue mobilizar os trabalhadores do setor privado.

O editorial do Le Figaro compara a imagem das refinarias bloqueadas com a foto do carro de polícia incendiado na semana passada em Paris por baderneiros. Uma chocou, a outra preocupa e as duas alimentam um sentimento de impotência do governo.

Libération tenta saber se, após dois meses e meio de contestação, a CGT vai conseguir bloquear o país ao radicalizar o movimento. E a resposta é provavelmente não. Segundo o jornal, o sindicato não tem os meios para concretizar sua ambição. A mobilização contra o projeto de lei de reforma trabalhista é limitada, muito inferior, por exemplo, ao protesto contra a reforma da aposentadoria no governo Sarkozy, e acontece em um momento de grande divisão sindical.

Alguns sindicatos abandonaram o movimento, depois que o governo fez algumas modificações que eles consideram favoráveis no texto. Essa estratégia do tudo ou nada da CGT corre o risco de se transformar em uma armadilha que vai enfraquecer todo o movimento e prejudicar os trabalhadores. "Essa ação radical pode se transformar em uma derrota radical", adverte Libé.

Irônico, Le Parisien diz a que situação na França está "cada dia melhor", fazendo referência implícita à afirmação recente do presidente. Além da ameaça generalizada de falta de combustíveis, o "diálogo de surdos" entre o governo e os sindicatos deve provocar novas greves nos transportes públicos a partir de amanhã (25). O clima social e político no país está num impasse e o diário pede, desesperado, "uma porta de saída o mais rápido possível".
 

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