França

Trauma não foi superado um ano após atentados de Paris

Sala de shows Bataclan reabrirá neste sábado, 12 de novembro.
Sala de shows Bataclan reabrirá neste sábado, 12 de novembro. REUTERS/Charles Platiau

Um ano após os atentados de 13 de novembro de 2015, que deixaram 130 mortos e mais de 400 feridos na capital francesa, a vida nos bairros que foram alvo dos ataques não voltou completamente à normalidade. Para os moradores, comerciantes e frequentadores do 10° e 11° distritos de Paris, a ferida ainda não cicatrizou.

Publicidade

A franco-portuguesa Margarida dos Santos Sousa, de 58 anos, repassa diariamente as cenas que não apenas presenciou, mas protagonizou no 13 de novembro de 2015. Margarida mora e é zeladora de um prédio que fica a poucos metros do Bataclan, a casa de shows no 11° distrito onde os terroristas mataram 90 pessoas. Naquela noite, ela abriu as portas do edifício e acolheu cerca de 40 feridos.

A zeladora franco-portuguesa Margarida dos Santos Sousa.
A zeladora franco-portuguesa Margarida dos Santos Sousa. Daniella Franco/RFI

À RFI, ela contou que conversava com a filha pelo telefone quando ouviu pessoas gritando no hall da entrada do prédio. Surpresa com a movimentação, imaginou que jovens chegavam para uma festa em algum apartamento. "Meu primeiro pensamento foi: se uma festa começou deste jeito, imagina como será o final dela", sorri, lembrando da ingenuidade de sua reação.

De fato, ela não imaginava o que viria pela frente. Ao abrir a porta de seu apartamento, localizado diante da entrada do edifício, deparou-se com jovens desesperados que a informaram sobre um tiroteio no Bataclan. "Quando começaram a chegar pessoas cobertas de sangue, dei-me conta da gravidade do que estava acontecendo", diz. Rapidamente, a zeladora correu para pedir a ajuda de uma médica e de um enfermeiro que moram no edifício.

"Foi muito difícil"

Até a chegada do Samu e dos bombeiros, Margarida também ajudou a prestar os primeiros socorros aos feridos. Ela tentava conversar e acalmar os jovens em pânico, e serviu café e chá para dezenas de sobreviventes e policiais no hall do prédio. Chegou a abrigar uma moça de 26 anos, gravemente ferida com dois tiros nas costas, no próprio sofá de casa. Esse, aliás, foi o momento que mais a comoveu. "Fiquei emocionada de ver aquela jovem ensanguentada, estendida no sofá, que não se mexia e não falava. Dizíamos: 'fica conosco, fica conosco'. Foi muito difícil", relembra.

Aliviada, Margarida conta que a garota sobreviveu. A zeladora chegou a visitá-la no hospital e mantém contato com a moça até hoje. "Meu grande medo era que ela ficasse paralítica, mas foi uma grande alegria quando, no hospital, ela me disse que voltaria a andar", conta. Mas, se emociona: "fiquei muito triste quando ela me deu a notícia seu companheiro, com quem já vivia há vários anos, não teve a mesma sorte e morreu dentro do Bataclan".

Para superar o horror que vivenciou naquela noite, a zeladora precisou de auxílio de psicólogos durante alguns meses e diz que se apega à família, aos amigos e ao trabalho para superar o trauma. Mas as imagens daquela noite, Margarida não esquece. "Aqueles gritos na rua, as pessoas em pânico, sangue por todos os lados, pessoas caídas no chão. Os corredores, as paredes e as escadas no prédio ficaram completamente ensanguentados."

Depois da longa madrugada, a zeladora se preocupou que as crianças do edifício se deparassem com um cenário de guerra pela manhã. Sozinha, a franco-portuguesa ainda teve forças para limpar todo o sangue do local. "Vou levar sempre tudo o que vi nessa noite na minha memória, até morrer. Sei que terei que viver o resto da minha vida com isso. "Mas, ressalta, a vida continua: "não podemos ficar bloqueados e continuar chorando por aquilo que aconteceu. Sinto-me ainda triste, mas feliz pelo que conseguimos fazer", diz.

No último ano, a zeladora recebeu várias homenagens por seu ato de bravura na fatídica noite, entre elas, condecorações da prefeitura de Paris e do governo de Portugal.

Um cemitério ao ar livre

Nem todos guardam o otimismo de Margarida. Na mesma quadra do Bataclan, Laïs Ruffu, proprietária do restaurante Cuisine in Bistro, não conseguiu até hoje digerir a noite do 13 de novembro, quando abrigou muitas pessoas dentro de seu estabelecimento. "Não existem palavras para descrever o que aconteceu aqui ao lado. Eu vi, ouvi e vivi tudo. Fiz o que pude", diz, apontando para a sala de shows. "Essas pessoas que morreram aqui adoravam a vida, fazer festa, ser feliz. Elas não fizeram nada para merecer o que lhes aconteceu", reitera.

Depois do massacre, o restaurante de Laïs perdeu 40% dos lucros devido à diminuição da frequentação do bairro e ela teve que demitir a metade de sua equipe. "Esse local se tornou um cemitério ao ar livre. O Bataclan virou uma espécie de túmulo. Tivemos que aguentar, até o início desse ano, quantidades imensas de flores, de velas, de fotos das pessoas que morreram ali. E ver isso diariamente, trabalhar aqui ao lado todos os dias, é muito dolorido."

A situação econômica e o desgaste psicológico levaram Laïs a tomar a decisão de fechar o restaurante e de ir embora de Paris. Magoada, ela conta que vive desde pequena no 11° distrito, onde seus avós, originários do Cabo Verde, tinham um comércio, mas não consegue superar o trauma. "Vi esse local crescer, vivi coisas maravilhosas aqui, eu mesma frequentava o Bataclan. Essa região era praticamente o meu QG. Mas não consigo mais, chega, desisti", confessa, visivelmente abatida.

Laïs Ruffu, proprietária do restaurante Cuisine in Bistro, a poucos metros do Bataclan.
Laïs Ruffu, proprietária do restaurante Cuisine in Bistro, a poucos metros do Bataclan. Daniella Franco/RFI

Memórias ainda são muito recentes, diz moradora do 11° distrito

Para os moradores dos arredores do Bataclan, o choque ainda é presente. A jornalista goianiense Denise Rodrigues mora na rua do restaurante La Belle Équipe, onde 20 pessoas foram mortas no dia 13 de novembro de 2015. Ela lembra que, até os atentados, era uma frequentadora assídua do local. Mas, depois que o estabelecimento reabriu, a jovem ainda não consegue conceber a ideia de voltar lá. "Continuo saindo no 11° distrito, indo a bares, restaurantes, teatros, mas ir no La Belle Équipe como eu fazia antes, eu ainda não posso. Por muito tempo, ao passar em frente ao local, quando ele ainda estava fechado, eu não conseguia nem olhá-lo, pensando nas pessoas que morreram ali. Para mim, é muito difícil", afirma.

Segundo ela, esse bloqueio se deve às memórias ainda muito recentes dos atentados e à intensidade com a qual ela os viveu. "Um ano depois, o meu sentimento é que parece que tudo o que aconteceu foi ontem. Tudo está ainda muito presente nas minhas lembranças: as emoções, a cobertura na televisão, os familiares e amigos preocupados me telefonando e o choque do incidente. Eu lembro muito bem desse 13 de novembro de 2015 e ainda não estou pronta para esquecê-lo."

Por isso, para a jornalista, a reinauguração do Bataclan, prevista para o dia 12 de novembro, ainda desperta sentimentos mistos. "Eu penso que temos que seguir adiante, mas ainda acho que é muito cedo para celebrar a vida neste local ou para voltar a viver normalmente. Não consigo ver de forma positiva a reabertura do Bataclan um dia antes do aniversário de um ano dos atentados. Não julgo quem não tem a mesma opinião que eu e que volte a frequentá-lo. Mas, eu, por enquanto, não pretendo voltar lá."

Monumento em homenagem às vítimas

Todos os locais que foram alvo dos atentados de 13 de novembro de 2015 foram inicialmente inundados de homenagens durante meses. Flores, velas, fotos das vítimas e mensagens chegaram a bloquear uma praça que ocupa uma quadra inteira diante do Bataclan. Mas, dentro do espírito do retorno "à vida normal", a prefeitura retirou no início deste ano todas as homenagens.

Criada por Olivier Legrand e Véronique Aubin, a associação Génération Bataclan (Geração Bataclan, em português) foi fundada com o objetivo de criar um monumento fixo para as vítimas dos atentados. Com o acordo da prefeitura de Paris, o local para a construção já foi selecionado - uma pequena praça que fica diante da sala de shows.

Em entrevista à RFI, Véronique conta que nem ela nem Olivier perderam familiares ou amigos nos ataques e nem conhecem vítimas. Segundo ela, a iniciativa nasceu de uma necessidade cidadã. "O 13 de novembro foi extremamente traumatizante para os franceses. Muitas pessoas sentiram a vontade de fazer algo em homenagem às 130 vítimas dos atentados e para lembrar às gerações futuras o que aconteceu. Foi com esse objetivo que a Génération Bataclan foi fundada", destaca.

No total, 54 artistas e arquitetos se apresentaram para participar gratuitamente do projeto do monumento, que é financiado por meio de doações que podem ser feitas no site da associação. Dez projetos finalistas já foram pré-selecionados em uma votação. O objetivo agora, segundo Véronique, é formar um júri com representantes das famílias das vítimas, de comerciantes do bairro e da prefeitura de Paris para colocar a iniciativa em prática.

O projeto tem o orçamento de € 100 mil. Para chegar a essa valor, Génération Bataclan precisa arrecadar mais € 36 mil. Véronique está otimista: "Tenho certeza que chegaremos a esse valor e que cumpriremos nosso objetivo, que é passar uma mensagem de amor", conclui.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.