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França

Toulouse, cidade de esquerda governada pela direita, rejeita partidos tradicionais

Cartazes dos candidatos à eleição presidencial francesa em Toulouse, no sudoeste da França.
Cartazes dos candidatos à eleição presidencial francesa em Toulouse, no sudoeste da França. Daniella Franco/RFI
6 min

Quarta maior cidade da França, “capital” da região sudoeste do país, Toulouse é conhecida por sua gastronomia, por abrigar excelentes universidades, pelo polo aeronáutico, espacial e de informática, por possuir um considerável patrimônio histórico e artístico. E, claro, por ser uma cidade “de esquerda”, administrada por um prefeito de direita, fenômeno que ganha destaque a oito dias das eleições presidenciais.

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Daniella Franco, enviada especial da RFI à Toulouse

Sábado à tarde, o centro de Toulouse está fervilhando. No coração da “Cidade Rosa”, como é chamada devido à sua arquitetura de tijolos à mostra, a Praça do Capitólio é um desfile de todas as espécies de toulousains. Por aqui transitam grandes famílias, estudantes, comerciantes, turistas, e, especialmente, diferentes grupos de jovens – punks, católicos, muçulmanos, militantes políticos – que coabitam de forma harmoniosa e não menos barulhenta.

Pelas ruas, essa mistura de juventude se mostra desinteressada ou revoltada com a política tradicional. Na banca de jornais, o jovem vendedor muda rapidamente o tom cordial para o sarcasmo quando sua opinião sobre as eleições é questionada. “Não me interesso por política. Não leio jornais, não gosto de jornalistas”, afirma diante de uma vitrine decorada com os principais representantes da imprensa escrita. A contragosto, responde que votará no próximo domingo, já escolheu seu candidato, mas, “ça me saoule” (me enche o saco).

Partidos tradicionais perdem espaço entre os jovens

Pelas ruas, o sentimento do jovem vendedor se reproduz e se justifica. Mas como explicar cinco mandatos conservadores na prefeitura contra apenas um socialista nos últimos quinze anos? “Toulouse é uma cidade de esquerda que vota na direita”, diz Grégoire Rameaux, proprietário da loja de discos Vicious Circle.

Rameaux esclarece que, apesar da importante quantidade de jovens e das ideias progressistas que reinam na cidade, é tradicionalmente a direita quem vence. “O fenômeno é simples: boa parte dos estudantes de Toulouse vêm de outras cidades e continua votando em suas cidades. Enquanto a velha burguesia toulousaine continua trancada na direita e dominando os resultados”, afirma.

Em tom otimista, o dono da loja de discos diz acreditar que o cenário pode mudar, com a evolução dos comportamentos e pensamentos que percebe na capital do sudoeste francês. “Amanhã tenho certeza que milhares de pessoas participarão do comício de Jean-Luc Mélenchon”, declara, confessando que ainda não decidiu se votará no candidato da esquerda radical, que discursa neste domingo (16) em Toulouse, ou no socialista Benoît Hamon.

“Se pudesse, votaria em Jean-Luc Mélenchon”

Diante de um espaço destinado aos cartazes dos presidenciáveis na Praça do Capitólio, o estudante de biotecnologia Noureldin Youssef, de 23 anos, se diverte e faz fotos dos narizes de palhaços colados nas fotos dos candidatos. “Não posso votar aqui, sou egípcio”, diz. “Mas, se pudesse, votaria em Jean-Luc Mélenchon”.

Para o jovem, que estuda há cinco anos na França e segue a campanha eleitoral francesa, o candidato da esquerda radical é “quem tem as ideias mais revolucionárias e quem realmente quer uma mudança”. Assustado com o espaço que a extrema-direita vem ganhando na Europa e com a alta popularidade da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, Youssef espera que “os franceses façam uma boa escolha”. “Talvez se Mélenchon vencer as eleições, a França possa influenciar outros países da Europa a irem pelo mesmo caminho. E quem sabe até o Egito”, afirma, esperançoso.

Missão: barrar Marine Le Pen

A jovem Elodie, de apenas 20 anos, é natural de Lyon, mas trabalha em Toulouse. Ao aceitar conversar sobre a eleição, ela dá a partida: “o mais importante é barrar Marine Le Pen”. A garota diz perceber uma forte preocupação com os bons resultados nas pesquisas de intenção de voto da candidata da Frente Nacional tanto em Lyon como em Toulouse.

Elodie diz que se identifica mais com a direita e já decidiu em quem vai votar: Emmanuel Macron. “Estou cansada dessa velha política, das ideias tradicionais, dos mesmos de sempre. Macron pode até dizer que não é da direita, mas tem ideias que se aproximam da direita. E, de toda a forma, ele é jovem, é dinâmico, tem novas propostas, e é isso que precisamos nesse momento”, responde.

Ao ser questionada se os escândalos do republicano François Fillon a decepcionaram e a levaram a decidir por um candidato centrista, a garota se crispa: “De toda a forma, são todos iguais, são todos corruptos. Seja na esquerda, na direita, na França ou no Brasil. E a mídia utiliza esses escândalos para conseguir mais audiência e ganhar mais dinheiro”, dispara, indicando o momento de finalizar a entrevista.

Um forte espírito progressista

No final da tarde deste sábado (15), a militante Marife Lopez, de 59 anos, distribui santinhos do candidato da extrema-esquerda, Philippe Poutou. O líder do Novo Partido Anticapitalista (NPA), que roubou os holofotes no último debate na televisão, faz um comício na próxima terça-feira (18) em Toulouse. Originária da Galícia, Marife mora há um ano em Toulouse, “governada pela direita, mas com um forte espírito progressista”, salienta.

Questionada sobre como reagem os toulousains aos santinhos de Poutou, a militante desabafa: “às vezes a reação das pessoas é tão ruim que parece que as ofendo ao convidá-las ao comício de Poutou”.

Mas a galega não acredita que isso seja um sinal que os habitantes são conservadores ou que são contra Poutou. “Sinceramente, acho que os franceses estão um pouco cansados da eleição. Talvez eles venham até a Praça do Capitólio fazer compras, descansar, desligar a televisão e esquecer um pouco a campanha eleitoral”, diz ao entregar um santinho a uma garota, que reage: “Ah, sim, monsieur Poutou! É bem nele que eu vou votar, obrigada!”.

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