França/Macron

Popular do exterior, Macron completa três meses no poder com crise de imagem na França

Emmanuel Macron terá férias curtas e obstáculos políticos a partir de setembro.
Emmanuel Macron terá férias curtas e obstáculos políticos a partir de setembro. REUTERS/Jean-Paul Pelissier

O presidente francês Emmanuel Macron completa três meses no poder nesta terça-feira (15). Apesar de sua boa imagem fora do país, a lua de mel do chefe de Estado com a França não durou muito tempo e ele enfrenta uma forte queda de popularidade. Segundo pesquisas de opinião divulgadas esta semana, cerca de dois terços dos franceses estariam descontentes com o mandato de Macron.

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O entusiasmo do início do mandato, confirmado pelo sucesso nas eleições legislativas de seu partido A República em Marcha, continua tendo um impacto positivo na imagem de Macron no exterior, onde o presidente ainda é visto com bons olhos. Sua aura internacional também foi reforçada pelos inúmeros encontros com chefes de Estado e de governo, além de sua firmeza diante de alguns líderes controversos, como Vladimir Putin ou Donald Trump, e sua cumplicidade com a chanceler alemã Angela Merkel.

A única titubeada no âmbito da política externa foi após o anúncio da criação de postos de controle para os migrantes na Líbia. A medida foi vista com ceticismo tanto pela oposição quando pelas ONGs especialistas do assunto.

Cortar regalias dos políticos não foi suficiente

Mas dentro do país a situação é mais complexa. Se logo após ter sido eleito, em 7 de maio, há exatamente 100 dias, o presidente gozava de altas taxas de popularidade e agradava 62% de seus compatriotas, três meses depois de sua posse, no dia 14 de maio, a situação é bem diferente. Apenas 36% dos franceses estariam satisfeitos com o trabalho do chefe de Estado.

Parte desse declínio foi provocado pelas primeiras medidas do presidente. Macron impôs, como prometido durante sua campanha, uma lei de “moralização da vida política”, que corta uma série de regalias da classe política francesa, a começar pelo direito de empregar livremente membros de sua família. A redução do orçamento de vários ministérios, com o objetivo de alcançar o almejado limite de déficit público abaixo dos 3% do PIB (Produto Interno Bruto) também foi elogiada.

Porém, algumas medidas impopulares revelaram o outro lado da moeda. O projeto de congelamento da remuneração dos funcionários públicos, por exemplo, não caiu nada bem, assim como o possível aumento de impostos sobre as aposentadorias. Já nas altas esferas do poder, o que estremeceu a imagem de Macron foi o anúncio de cortes do orçamento da Defesa, que irritou os militares e provocou a demissão do chefe do estado-maior das Forças Armadas, Pierre de Villiers.

Sem esquecer a polêmica sobre a criação de um cargo oficial de primeira-dama para sua mulher, Brigitte Macron, que suscitou reações negativas da classe política e da população. Mesmo se a função não seria remunerada, em pouco mais de uma semana quase 300 mil já haviam participado de uma petição se opondo ao que foi visto como uma incoerência, já que o presidente se opunha às regalias de seus colegas e instaurava, para sua mulher, um cargo até então inexistente no país.

Férias de verão são um símbolo

Como em vários outros países, a França preza a tradição do balanço dos primeiros três meses de mandato de um presidente. É como se o chefe de Estado passasse – ou não – o seu período de experiência em um novo emprego. Mas entre os franceses, esse ritual é ainda mais presente, já que coincide com o ápice das férias de verão no hemisfério norte. E a volta desse recesso estival, respeitado inclusive pela classe política, é vista como um novo ciclo que começa. Esse fenômeno têm até um nome : a rentrée, expressão usada também para o momento de volta às aulas.

A última prova de fogo do chefe de Estado antes desse “período de experiência”, aliás, acontece nesse momento, quando todos os passos do presidente durante as férias são analisados de forma minuciosa. Um líder que fica muito tempo ausente geralmente é criticado e até mesmo o destino escolhido é alvo de análises e interpretações diversas.

Em 2007, Nicolas Sarkozy passou suas primeiras férias como presidente no iate de um milionário francês, antes de ir para uma mansão nos Estados Unidos. Esse recesso considerado luxuoso marcou o chefe de Estado, reforçando a imagem de um político adepto da ostentação.

Cinco anos mais tarde, François Hollande tentou se distanciar desse passo em falso de seu antecessor e foi fotografado usando um modesto short em uma praia da Côte d’Azur. Mesmo assim, a tentativa de se mostrar com um homem “normal” foi ofuscada pelo fato de que o socialista saiu de férias durante 19 dias, prazo considerado muito longo. Após as críticas, no verão seguinte Hollande se conteve e se ausentou somente durante uma semana.

Emmanuel Macron aprendeu a lição daqueles que ocuparam o Palácio do Eliseu antes dele e optou por férias discretas, curtas e culturais. O chefe de Estado passa alguns dias em Marselha, no Sul da França, mas já avisou que estará de volta a partir de 23 de agosto. Apenas alguns dias antes de uma rentrée” que tem tudo para ser difícil. Afinal, Macron prevê lançar uma reforma do direito trabalhista e os sindicatos já avisaram que uma manifestação está prevista para 12 de setembro.

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