França/reprodução assistida

Filho de um doador de esperma anônimo, francês acha pai biológico

O diretor comercial francês, Arthur Kermalvezen, 34 anos, que descobriu quem é seu pai biológico
O diretor comercial francês, Arthur Kermalvezen, 34 anos, que descobriu quem é seu pai biológico Captura de vídeo

O diretor comercial francês Arthur Kermalvezen, hoje com 34 anos, nasceu graças a uma inseminação artificial feita com o esperma doado por um anônimo, nos anos 70. Em dezembro de 2017, depois de uma longa investigação pessoal, ele descobriu quem é seu pai biológico, se tornando o primeiro francês a entrar em contato com o doador.

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Arthur cresceu em uma família que nunca escondeu a maneira como ele havia sido concebido. O menino cresceu e com ele sua curiosidade. Afinal, quem era esse homem com quem ele compartilha o mesmo DNA? Essa informação sempre foi um segredo guardado a sete chaves, desconhecido até mesmo de seus próprios pais. Isso porque, atualmente, a lei francesa protege a identidade do doador.

“Sempre pensei que meus pais me apresentariam para ele”, disse Arthur em entrevista à RFI Brasil. “Quando cheguei à idade adulta, disse a eles que eu gostaria de conhecê-lo. Foi aí que descobri o anonimato total e entendi que nem mesmo meus pais tinham acesso a qualquer informação”, declara. O pai e a mãe de Arthur nunca se opuseram à sua iniciativa, mas também não puderam ajudá-lo.

O diretor comercial não se conformou. “Não queria passar minha vida tendo como único traço do doador um pedaço de DNA”, declarou Arthur. “Queria saber quem era essa pessoa, poder conversar com ela, fazer perguntas, rir”. Depois de anos, ele decidiu fazer um teste genético, de uma empresa americana chamada 23andMe, disponível pela Internet, que custa US$ 99, ou R$ 317. Com uma simples amostra de saliva, que detecta o grau de parentesco de um cliente utilizando uma potente base de dados genética que reúne informações de diferentes famílias.

Arthur descobriu que tinha 6,28% de semelhança com um primo chamado Larry, que vive em Londres. O francês ligou para ele, que não tinha a menor ideia de quem era o doador, mas o incentivou em sua busca. Arthur não desistiu. Ele decidiu fazer pesquisas genealógicas e descobriu que uma parte da família britânica tinha raízes na França. Havia muito mais mulheres do que homens e apenas um deles com idade para ser seu pai biológico. Arthur acertou na mosca, descobriu seu nome e endereço e pediu a seus vizinhos que lhe entregassem uma carta, no dia 23 de dezembro de 2017.

Dois dias depois, no Natal, Arthur recebeu um telefonema de seu pai biológico. “Ele ficou feliz e me deu parabéns por tê-lo encontrado. Disse que eu provavelmente tinha muitas perguntas e ele iria tentar respondê-las”, conta. “Também propôs que nos encontrássemos”.

Os dois devem se ver pela primeira vez em fevereiro. “Ele me mandou uma foto, eu também enviei uma minha e de minha família. Conversamos muitas horas pelo telefone”, diz. “No final esperei 30 anos, mas precisei de apenas duas horas para encontrá-lo.” Arthur também descobriu que seu pai biológico era portador de uma anomalia genética, que deve ser despistada por ele e seus filhos.

Associação ajuda a encontrar doadores

Assim como Arthur Kermalvezen, existem muitos outros franceses que lutam para descobrir a identidade de seus doadores. Ele mesmo é ex-presidente uma associação francesa PMA Anonyme (Reprodução Assistida Anônima) que reúne cerca de 300 membros que defendem o acesso à informação.

A França protege a identidade do doador, apesar de ser signatária da Convenção Europeia dos Direitos Humanos ter um artigo que considera “vital para um ser humano saber quem são seus ascendentes biológicos”. Nos anos 70, estima-se que 70 mil franceses tenham nascido graças às fertilizações in-vitro realizadas com esperma de doadores.

O tema deve ser discutido na série de reuniões que começam hoje na França, chamadas de Estado Geral da Bioética. Participam das discussões representantes de organismos, associações e do governo. A questão será levada ao Parlamento, e uma lei deve ser votada nos próximos seis meses. No caso dos doadores, diz Arthur, ou o governo adapta a legislação à demanda dos adultos que desejam conhecer seus pais biológicos, ou as pessoas “vão se virar sozinhas”.

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