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maio de 1968/Cannes

1968: O ano em que o festival de Cinema de Cannes parou

Jean-Luc Godard e François Truffaut defendem cancelamento do festival de Cannes em 68.
Jean-Luc Godard e François Truffaut defendem cancelamento do festival de Cannes em 68. captura de vídeo/Youtube
Texto por: Patricia Moribe
8 min

Noite de 10 de maio de 1968. Estamos no auge da revolta estudantil e da repressão policial em Paris. A França está paralisada – fábricas, escolas, transportes e meios de comunicação. Enquanto isso, a mais de 900 km ao sul, na Riviera Francesa, acontece a abertura do 21° Festival de Cinema de Cannes, com estrelas do mundo todo.

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Cannes parece muito longe dos tumultos e das greves em Paris. Robert Favre Le Bret, delegado-geral do evento na época, anuncia festivamente aos jornalistas o início da 21a edição: “Vão ser duas semanas sem dormir, muitas ressacas e os incidentes diplomáticos inevitáveis”. Mal sabia ele que a festa ia ser interrompida e que não haveria Palmas de Ouro naquele ano.

Algumas providências foram tomadas de antemão para evitar ânimos exaltados na Riviera. A organização não selecionou dois filmes bem cotados para a competição: “Tell me Lies”, de Peter Brook, e “A Face of the War”, de Eugene S. Jones. Ambos questionavam a Guerra do Vietnã (1955-1975), conflito que foi pólvora de muitas revoltas não só nos Estados Unidos.

A festa de abertura foi grandiosa, apresentada pela princesa Grace de Mônaco, com a exibição da versão restaurada do épico americano “E o Vento Levou”, de 1939, oficialmente dirigido por Victor Fleming (que concluiu o filme após a saída tumultuada de George Cukor) e uma queima de fogos exuberante para lembrar a cena do incêndio de Atlanta. A atriz principal, Vivien Leigh, morta no ano anterior, foi homenageada. A única estrela do filme ainda viva na época, Olivia de Havilland, não estava em Cannes porque a organização não concordou com todas as exigências da atriz.

Cartaz da 21a edição do Festival de Internacional de Cannes, em 1968.
Cartaz da 21a edição do Festival de Internacional de Cannes, em 1968. @Beaugendre/Festival de Cannes

Tensão no ar

Apesar do luxo e do glamour, uma certa tensão pairava no ar. Os estudantes de cinema em Paris e sindicatos pedem a interrupção de todas as atividades cinematográficas, inclusive do Festival de Cannes.

Robert Favre le Bret concorda em limitar os eventos paralelos, mas não admite a ideia de interromper o festival. “Cannes nunca foi e não pode ser uma tribuna. É uma manifestação cultural e artística internacional. Não podemos misturar pessoas de fora com nossos problemas internos”, declarou o delegado-geral.

Os cineastas e artistas presentes em Cannes discutem que atitude tomar. François Truffaut defende a causa dos estudantes e pede a solidariedade dos pares, como relembra o Journal du Dimanche (11/05/2008): “O rádio dá as notícias, de hora em hora. Diz que as fábricas estão ocupadas e os trens estão parados. Daqui a pouco vai ser o metrô e os ônibus. Se anunciarmos de hora em hora que o festival de Cannes continua, francamente, é muito ridículo”.

Jean-Luc Godard reforça a mensagem: “É preciso mostrar, mesmo com uma semana e meia de atraso, a solidariedade do cinema com os movimentos estudantis e trabalhadores. E a única maneira é parar com as projeções”.

Adesão de cineastas

O início do fim do festival foi no dia 18. Um grupo de cineastas, incluindo François Truffaut, Jean-Luc Godard, Louis Malle, Roman Polanski, Claude Lelouche, Claude Berri e outros, anunciam ao público que o festival estava cancelado. Milos Forman, ainda vivendo na então Tchecoslováquia, retira seu filme da competição, em apoio ao movimento. Integrantes do júri, como Monica Vitti, Terence Young, Louis Malle e Roman Polanski, deixam seus cargos.

Pela manhã, Carlos Saura e sua companheira, Geraldine Chaplin, tentam impedir a projeção de “Peppermint Frappé”, do diretor espanhol, em competição. O casal e outros manifestantes se agarram às pesadas cortinas vermelhas para tentar impedir que se abram. Muitos da plateia sobem ao palco para fazer bloqueio humano e a sessão é cancelada.

O público volta para a sessão da tarde do mesmo filme, mas os manifestantes continuam de braços cruzados, dispostos a impedir novas projeções. A direção do festival se irrita, pede que o grupo se retire e ordena que o filme comece. Tumulto na sala. Testemunhos falam de Truffaut no chão após um empurrão e de Godard levando um tapa na cara e perdendo os óculos.

No fim da tarde do dia 18, a direção do festival anuncia o cancelamento da competição, mas com a continuação das exibições. Os manifestantes deixam o Palácio dos Festivais, mas as reuniões continuam noite adentro para discutir os próximos passos, tanto entre organizadores quanto cineastas.

Fim de festa

Muitos do meio cinematográfico são pela paralisação completa do evento. Paralelamente, a direção do festival também pesa todas as opções. A informação de que baderneiros teriam chegado a Cannes dispostos a um quebra-quebra geral acaba convencendo os organizadores a baixar as cortinas, cinco dias antes do encerramento, sem Palma, sem mais projeções. Dos 27 longas programados, apenas oito foram mostrados.

No dia 19 de maio de 1968, à tarde, Cannes se esvazia, triste, sem mercado de filmes, com muitas produções privadas de uma bela carreira internacional.

Cinema militante

O ano de 1968 foi um divisor de águas no cinema francês. Antes de Cannes, o meio já estava agitado pelo “caso Langlois”, em fevereiro, no qual o histórico diretor e fundador da Cinemateca Francesa – a primeira do gênero no mundo – foi afastado do cargo por pressão do governo. Personalidades nacionais e estrangeiras do cinema, como Jean-Luc Godard, Jean Renoir, Jacques Rivette, Jean Rouch, Nicholas Ray, Simone Signoret e Orson Welles, se mobilizaram para que Henri Langlois fosse recolocado na posição, o que acontece em abril.

Festival alternativo

Em maio, técnicos do cinema sindicalizados apoiam uma greve geral ilimitada em todo o setor cinematográfico. Em todo o país, filmagens são interrompidas e o Festival de Cannes fecha as cortinas. Ainda em 1968, é criada a Sociedade dos Realizadores de Filmes (SRF), reunindo cineastas franceses que eram contra as regras corporativistas que regiam a categoria e estavam fartos da censura em voga. Eles propõem já para o ano seguinte uma alternativa ao Festival de Cannes, a Quinzena dos Realizadores, na mesma cidade e no mesmo período.

Cartaz da edição 2018 da Quinzena dos Realizadores.
Cartaz da edição 2018 da Quinzena dos Realizadores. photo William Klein, designer Mich Welfringer

O objetivo do novo evento era ser uma vitrine livre da produção mundial, sem seleção, o que explica a primeira edição inflada de 65 longas-metragens, vindos de todos os cantos do mundo, inclusive sete filmes brasileiros, como “Barravento”, de Gláuber Rocha. Em 1969, o diretor baiano também estava em competição pela Palma de Ouro com “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” e levou o prêmio de melhor direção.

Se a Quinzena foi um sucesso e vingou, a mostra oficial de Cannes também comprovou que não parou no tempo. A contracultura deu o tom nos anos pós-68, premiando filmes como “Sem Destino” (Easy Rider), de Dennis Hopper, “If”, de Lindsay Anderson, “MASH”, de Robert Altman, e “Z”, de Costa Gravas.

Cinquenta anos depois, o glamour continua sendo obrigatório na tradicional subida das escadas do Palácio dos Festivais, e o filme de autor é uma prioridade, apesar da presença consistente de um cinema mais comercial. Este ano, por exemplo, o filme de abertura, no dia 8 de maio, será "Todos Los Saben", do premiado iraniano Asghar Farhadi, que já competiu pela Palma de Ouro duas vezes, com "O Passado" (2014) e "O Apartamento" (2017). Farhadi tem também dois Oscars de filme estrangeiro, por "A Separação" (2012) e "O Apartamento".

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