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Autora brasileira radicada na França lança livro de memórias de viagens na Amazônia

A psicóloga e psicanalista Marlene Iucksch nos estúdios da RFI Brasil para falar de seu livro "Guaporé".
A psicóloga e psicanalista Marlene Iucksch nos estúdios da RFI Brasil para falar de seu livro "Guaporé". Foto: RFI Brasil/ Elcio Ramalho
Por: Maria Paula Carvalho
5 min

Em 1982, duas mulheres deixam para trás a modernidade e o conforto do Rio de Janeiro e partem numa aventura pelo oeste brasileiro. Assim começa “Guaporé” (Ed. Juruá), uma travessia inusitada pelo Brasil profundo.

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Assista à entrevista na íntegra no vídeo abaixo. 

Elas se embrenham na floresta Amazônica, onde viajam de barco, de ônibus e de carona. Percorrem estradas esburacadas e seguem até por onde nem existe caminho, numa jornada de pura descoberta e contemplação. Esse é o enredo do livro da psicóloga e psicanalista Marlene Iucksch, que conversou com a RFI sobre o seu último lançamento.

“Eu fiz várias viagens à Amazônia, em diferentes momentos e por diversas razões, mas a confecção do livro é uma outra etapa”, explica a especialista em psicologia clínica e relações familiares da Universidade Paris V.

“Esse livro surge como um diálogo da estranheza, porque olhando todos os meus cadernos, as minhas anotações, as fotografias, vivendo a vida que eu vivo na França há mais de trinta anos, isso para mim é um mundo absolutamente estranho. E um mundo que eu nem sei se existe hoje como existiu no tempo em que eu conheci e do qual fiz esse romance”, afirma.

Além de percorrerem paisagens deslumbrantes e se depararem com a exuberância da fauna e da flora brasileiras, as duas amigas embarcam, também, numa viagem ao interior delas mesmas, num mergulho na personalidade de cada uma. Helena tem um papel social forte, que fica evidente ao longo de toda a trajetória, enquanto a narradora, sem nome, é uma pesquisadora.

“Essa dupla corresponde a um perfil da mulher brasileira educada, com nível universitário dessa época. Uma é professora, a outra é pesquisadora. Uma é alienada, enquanto a outra está absolutamente consciente desse momento trágico da ditadura, tem uma consciência política, defende os direitos de todo mundo, é consciente da questão feminista, dos oprimidos, de toda a questão social. E o paradoxo da história é que justamente a narradora, que não tem sequer nome, é que vai ser a porta-voz das palavras da outra”, explica.  

O Vale do Guaporé

As personagens centrais estão em busca de um vale de difícil acesso. Na página 94, Iucksch descreve esse lugar mítico: “o Vale do Guaporé não é a minha terra prometida, mas se transformou em algo que também não sei o que é. Impenetrável, indicível. Um delírio, uma quimera, um lugar dentro de mim colocado lá, uma realidade só minha? Li, me informei. Ninguém anda por lá, mas somente a natureza esplendidamente pura. Aquela volta do rio azul, recoberta de areais branquíssimos onde tartaruguinhas desabrocham” (Iucksch, 2018, p. 94).

“Ela e a outra amiga procuram esse lugar, que é um paraíso perdido, um branco de uma pureza incrível que existe de fato, que era descrito pelas pessoas que se fascinavam com essa ideia”, conta a autora. “E pelo caminho elas encontram ondas de migração subindo do Sul, à procura de um eldorado. São pessoas que estão indo atrás da esperança, de encontrar riqueza, um lugar para viver dignamente. Enquanto elas (as personagens) se dão ao luxo de deixar uma cidade grande, não precisam passar por nada disso, mas vão ao encontro disso tudo à procura de um paraíso perdido”, completa.   

Mesmo quem não conhece as regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil, numa área que se estende até as fronteiras com a Bolívia e o Peru, ao ler o livro vai se deparar com um texto bastante descritivo, que conta o passo a passo dessa excursão, como se o leitor pudesse enxergar através dos olhos das personagens principais. “Esse texto nasceu de cadernos de anotações dessas viagens, de onde foi possível, então, recriar todo esse universo absolutamente minucioso”, conta.   

A história descreve os encontros das personagens com os mais diversos tipos do interior do Brasil: os caboclos, os índios, os fazendeiros, os políticos, isso sem falar das lendas e do folclore.  “Essas experiências de viagens aconteceram no início dos anos 1980, ou seja, de uma Amazônia que era de uma outra época. Então, todas as personagens, todas as situações que estão no livro são reais, sendo que muitas foram até minimizadas, porque eu não poderia contar tudo”, confessa Marlene Iucksch.  

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