França/ Liberdade de imprensa

Repórteres estão sob a mira do governo Macron; entidades protestam

Jornalistas deverão comparecer à Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI) da França para prestar esclarecimentos no próximo dia 29 de maio de 2019.
Jornalistas deverão comparecer à Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI) da França para prestar esclarecimentos no próximo dia 29 de maio de 2019. Lionel BONAVENTURE / AFP

Não é novidade para os franceses de que o governo de Emmanuel Macron é hostil à imprensa, mas as convocações seguidas de jornalistas para prestarem esclarecimentos ao Estado francês chamou a atenção de entidades de defesa do jornalismo e da liberdade de imprensa nesta semana.

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Depois da convocação da repórter especial do vespertino francês Le Monde, Ariane Chemin, para prestar esclarecimentos à Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI) da França sobre seus artigos sobre o caso Benalla, ontem (23) foi a vez da convocação do chefe-executivo do mesmo jornal, Louis Dreyfus, que terá de comparecer ao órgão no dia 29 de maio.

Ariane Chemin foi convocada por conta das matérias que escreveu sobre os crimes cometidos por Alexandre Benalla - ex-assessor presidencial de Emmanuel Macron - e por ter publicado o perfil de um sargento da Força Aérea, Chokri Wakrim, companheiro da ex-chefe da segurança do Matignon, Marie-Elodie Poitout. A residência de Matignon abriga os serviços do primeiro-ministro francês.

Os jornalistas do Le Monde foram convocados para uma audiência nas instalações livres da DGSI, como parte de uma investigação aberta por causa da "divulgação da identidade de um membro das unidades das forças especiais". Esta investigação teria sido aberta devido a uma queixa apresentada em meados de abril por Chokri Wakrim.

A convocação da repórter do Le Monde e do seu chefe à DGSI se segue às convocações de outros jornalistas que investigaram o uso de armas franceses no Iêmen – os fundadores do site Disclose e um jornalista da Rádio France – e levantou uma onda de protestos de jornalistas e políticos, que a veem como uma violação da liberdade de imprensa e do direito de informar.

Entidades acusam governo de intimidação

A organização de defesa da imprensa Repórteres Sem Fronteiras (RSF) pediu "explicações às autoridades francesas", recordando que a França ocupa o 32º lugar no ranking mundial de liberdade de imprensa em 2019.

"O temor é que, com estas convocações, as autoridades procurem intimidar os jornalistas e identificar suas fontes para puni-las ou dissuadi-las", disse Christophe Deloire, secretário-geral da RSF. "Se em um país o segredo das fontes não é garantido, se ele é fragilizado por ações como estas, os cidadãos serão privados de seu direito de ter informações extra-oficiais", disse.

A associação responsável pelo Prêmio Albert-Londres, um prêmio jornalístico de prestígio, também expressou em um comunicado "sua profunda preocupação com a multiplicação das intimações legais de jornalistas que apenas fazem o seu trabalho de investigação."

De sua parte, a porta-voz do governo, Sibeth Ndiaye, justificou estas convocações pelo fato de que "não se pode revelar a identidade de um agente que pertence às forças especiais".

Ele também defendeu a proteção pelo Estado de "um número de dados que são necessários para atividades do mesmo, principalmente as de defesa externa e as militares".

“Não é normal que uma nota classificada como segredo de Estado seja encontrada na natureza", disse ela.

(Com informações da AFP)

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