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França/ política

Sarkozy visa imigração para agradar extrema-direita

O presidente francês Nicolas Sarkozy deu longa ao Figaro Magazine que irá às bancas no próximo sábado.
O presidente francês Nicolas Sarkozy deu longa ao Figaro Magazine que irá às bancas no próximo sábado. Reprodução / TV
Texto por: Lúcia Müzell
6 min

O cerco à imigração será uma das apostas do presidente francês, Nicolas Sarkozy, para conseguir um segundo mandato nas eleições de abril-maio no país. A intenção ficou clara nas declarações feitas à revista Figaro Magazine, publicada neste final de semana, consideradas como o verdadeiro primeiro passo da campanha do conservador. Sarkozy diz que vai endurecer ainda mais as regras para a obtenção da nacionalidade francesa e reafirma sua oposição a ampliar os direitos dos estrangeiros, como o direito ao voto.

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Analistas políticos não têm dúvidas de que os projetos – aliados a outros planos como o de não autorizar a eutanásia nem o casamento entre homossexuais - demonstram uma estratégia para agradar o eleitorado da extrema-direita. Com as pesquisas indicando um escore entre 16 e 20% para Marine Le Pen, a candidata do principal partido extremista, Frente Nacional, Sarkozy quer garantir que os eleitores mais nacionalistas e conservadores o apoiarão no segundo turno, no caso de uma disputa com o líder das sondagens, François Hollande.

“Proponho que, a partir de agora, os visos de permanência obtidos pelo casamento com um francês [mais de 25 mil por ano] sejam obtidos sob condições de residência fixa e recursos financeiros. Assim, vamos combater as fraudes com mais eficácia”, disse à revista, que chega às bancas no sábado. “Digo claramente: ao contrário de François Hollande, eu não sou favorável à regularização dos estrangeiros ilegais, o que criaria um precedente”, afirmou.

O presidente também defendeu a realização de referendos sobre o direito ao voto nas eleições municipais para os imigrantes e direitos sociais de desempregados, ideias que a Frente Nacional reivindicou como suas.

O fundador da revista Migrations-Sociétés, Pedro Vianna, ex-assessor do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, lembra que a história da França é marcada por uma sociedade dividida a respeito da imigração – a ponto que, nos últimos 30 anos, o retorno ao assunto foi inserido na pauta política pelo governo socialista do ex-presidente François Mitterrand, e não pelos conservadores. Ao adotar um discurso mais à direita, Sarkozy apostando nessa falta de consenso sobre o assunto.

"Se existir segundo mandato, ele será esse que Sarkozy anunciou em sua entrevista, bastante à direita."

Pedro Vianna

“Não há dúvida de que hoje em dia, a direita no poder está utilizando essa carta. Isso não é de hoje: na campanha eleitoral de 2007, o governo atual utilizou a argumentação anti-imigraçao, associando imigração e delinqüência, imigração e desemprego. Quando a isso, não há a menor duvida”, explica Vianna. “O que é muito mais preocupante, para mim, é a falta de clareza dos socialistas em relação a esses temas.”

 Já o cientista político Jean-Yves Camus, especialista em extrema-direita e populismo no Instituto das Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), de Paris, avalia que as propostas de Sarkozy ultrapassam a campanha eleitoral e devem ser o mote do seu eventual segundo mandato na presidência francesa.

Jean-Yves Camus

“Ele está convencido de que a escolha do povo francês nas eleições será decidida sob as questões de valores. Se existir segundo mandato, eu acho que ele será realmente esse que Sarkozy anunciou em sua entrevista à Figaro Magazine, ou seja, bastante à direita, especialmente sobre alguns assuntos, como os de cotidiano, que lhe parecem ir ao encontro da opinião geral do público francês”, analisa Camus.

Mas o especialista alerta que essa estratégia de campanha é perigosa: segundo Camus, por mais que as promessas conservadoras de Sarkozy se acumulem, nada garante que os eleitores de Le Pen estariam dispostos a votar nele – muitos estão insatisfeitos com o balanço julgado “pouco à direita” do primeiro mandato do presidente.

“A verdade é que há eleitores da extrema-direita que, aconteça o que acontecer, não votarão em Nicolas Sarkozy no segundo turno. Acho que há uma dinâmica que existe também à esquerda: François Hollande tem a sua reserva de votos importante no segundo turno. Ou seja, não tenho certeza de que a estratégia de Sarkozy de colocar a campanha ainda mais à direita seja a melhor maneira de ele sair vitorioso”, afirma o pesquisador.

Clique aqui para ler a entrevista completa com Jean-Yves Camus

 

 

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