Argentina/Ditadura

Ex-ditadores argentinos devem ser condenados por roubo de bebês

Além dos ex-ditadores Jorge Videla (foto) e Reinaldo Bignone, recebem sentença outros ex-chefes militares.
Além dos ex-ditadores Jorge Videla (foto) e Reinaldo Bignone, recebem sentença outros ex-chefes militares. Reuters/Poder Judicial

Num processo histórico, a Justiça argentina emite hoje uma sentença inédita que envolve dois ex-ditadores. Jorge Videla e Reinaldo Bignone serão julgados pelo chamado plano sistemático de roubo de bebês durante a ditadura militar argentina.

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A inédita sentença prevista para o final da tarde desta quinta-feira envolve 35 casos de apropriação ilegal de bebês nascidos em maternidades clandestinas instaladas nos centros de prisão e tortura como a Escola de Mecânica da Armada por onde passaram cerca de cinco mil pessoas e poucas saíram com vida.

Além dos ex-ditadores, recebem sentença outros ex-chefes militares, um obstetra e um agente de inteligência. No total, 11 pessoas estão envolvidas.

Videla e Bignone já foram condenados à prisão perpétua em processos de sequestro, tortura e morte durante o regime militar. Videla, o principal ditador argentino, por exemplo, acumula sete condenações a prisão perpétua por delitos de lesa humanidade. A pena pedida agora pela acusação é de 50 anos de prisão.

Aos 86 anos, o máximo ditador argentino negou que houvesse um plano sistemático. Segundo ele, "se houve sequestro de menores, foram casos isolados e não por ordem superior". Ele chegou a acusar as mães grávidas de serem "militantes ativas do terrorismo e de usarem os filhos embrionários como escudos humanos".

Videla definiu-se como "preso político" do atual governo Kirchner e afirma que "os militarmente derrotados de ontem encontram-se hoje ocupando cargos públicos". Mesmo assim, admitiu que vai cumprir a pena a ser imposta hoje como "mais um serviço a Deus e à pátria".

Em apenas sete anos de regime militar, entre 1976 e 1983, cerca de 30 mil pessoas desapareceram na Argentina, segundo as Associações de Direitos Humanos. Foi a mais sanguinária ditadura da América do Sul e com uma particularidade entre todas: cerca de 500 crianças e bebês nascidos nos cativeiros de tortura foram sequestrados e adotados ilegalmente com nova identidade, muitas vezes pelos próprios militares.

As avós da Praça de Maio, cujo objetivo principal é identificar essas crianças desaparecidas, conseguiram recuperar até agora 105 netos.

Do lado de fora dos Tribunais aqui em Buenos Aires, as Avós da Praça de Maio preparam uma festa em nome da Justiça. Puseram um telão através do qual parentes, amigos e militantes em geral vão poder assistir a sentença ao vivo.

Márcio Resende, correspondente da Rádio França Internacional em Buenos Aires.

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