O Mundo Agora

Com a crise, europeus perdem confiança em seus políticos

Áudio 04:26
Segundo o analista político da RFI Brasil, Alfredo Valladão, a ascensão do populista Beppe Grillo na Itália é um reflexo da descrença generalizada nos políticos.
Segundo o analista político da RFI Brasil, Alfredo Valladão, a ascensão do populista Beppe Grillo na Itália é um reflexo da descrença generalizada nos políticos. REUTERS/Giorgio Perottino

“Na Europa em crise, os políticos e a política em geral estão afundando junto. O novo governo italiano é paradigmático desta debacle. Nas últimas eleições gerais, um quarto dos eleitores da península votaram num partido anti-partidos, o Movimento Cinco Estrelas do cômico Beppe Grillo. Resultado: com um Senado sem um partido ou coalizão majoritários, não havia governo possível. A solução da desacreditada classe política foi misturar alhos com bugalhos: um governo dito de “união nacional” apoiado pelas duas forças inimigas figadais – o Partido Democrata de Bersani e o PD do antigo primeiro-ministro Berlusconi, famoso pelas suas orgias “bunga-bunga”. Nem direita, nem esquerda, nem nada. Um simples governo “técnico”, praticamente imposto por um presidente italiano de quase 90 anos de idade que só aceitou voltar a ocupar o cargo para impedir a desagregação completa do poder político nacional. Um governo que praticamente já tem data marcada para cair e cujo o único objetivo é tentar realizar uma reforma eleitoral, sem nenhuma garantia que essa ação mais do que necessária possa tirar a Itália do buraco.Itália é Itália dirão os mais cínicos. Só que essa ideia de que os políticos não têm mais nem legitimidade nem capacidade para resolver os problemas do país é cada vez mais popular na Europa. Recentes sondagens, mostram que uma maioria de franceses seria favorável a um governo de técnicos que soubesse administrar a crise de maneira fria e eficiente sem os arroubos passionais da classe política. Na Espanha e em Portugal, cansados das políticas de austeridade econômica, são poucos os que ainda confiam nos líderes políticos tradicionais. E até na bem administrada Alemanha é muito possível que depois das eleições de outubro próximo, a fragmentação política obrigue a chanceler Angela Merkel a ter que se entender com a esquerda social-democrata ou com o Partido Verde. É muita “união nacional” para pouco governo confiável. Mas também é verdade que existem movimentos extremistas, de esquerda e de direita, que ainda acreditam que a política pode tudo e que basta chegar ao poder e dar um soco na mesa para que todos os problemas sejam resolvidos. Esse voto de protesto está crescendo perigosamente, mas ninguém acredita que possam chegar ao poder sem uma implosão geral das instituições europeias, nacionais e supranacionais. A força dos extremistas é só acrescentar mais ingovernabilidade e mais desconfiança com relação à velha política.”Clique acima para ouvir na íntegra a crônica de política internacional de Alfredo Valladão.