O Mundo Agora

Guerra interna do Islã sem solução à vista

Áudio 05:53
Confrontos na Tunísia entre salafistas e polícia.
Confrontos na Tunísia entre salafistas e polícia. REUTERS/Anis Mili

Há vinte anos, o cientista político Samuel Huntington publicou a sua célebre tese sobre o “choque das civilizações”. Uma visão apocalíptica do mundo onde as grandes civilizações iriam se enfrentar em guerras religiosas e identitárias. Já naquela época essa idéia não fazia muito sentido. As “civilizações”, mesmo se fosse possível defini-las de maneira convincente, são profundamente heterogêneas e em hipótese alguma podem ser vistas como atores com vontade política própria, uma condição indispensável para entrar em conflito com quem quer que seja. Hoje então, o mundo árabe-muçulmano está demonstrando uma verdade milenar: os piores enfrentamentos, os mais sangrentos, são aqueles que se dão dentro de uma mesma cultura ou espaço religioso. As guerras civis são sempre infinitamente mais cruéis. 

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O ciclo de violências e revoluções políticas aberto pelos atentados terroristas contra as Torres Gêmeas de Nova Iorque e a intervenção americana no Afeganistão e no Iraque, não foi o começo de uma guerra entre o Ocidente e o Islã. Muito pelo contrário, ele inaugurou uma era de enfrentamentos generalizados dentro do mundo islâmico. O Iraque está à beira de uma nova guerra civil entre a maioria xiita e a minoria sunita, com atentados terroristas sangrentos quase quotidianos. No Paquistão e no Afeganistão, os Talibãs multiplicam as ações terroristas contra os partidos ou autoridades islâmicas moderadas. Na Síria, um governo alauíta (uma dissidência do xiismo) apoiado militarmente pelo movimento xiita libanês Hezbollah e pelo governo xiita iraniano, massacra sem remorsos uma oposição sunita e laica. Essa, por sua vez, também tem que enfrentar a concorrência de grupos sunitas radicais apoiados pela Arábia Saudita e as monarquias sunitas do Golfo que paradoxalmente, em casa reprimem ferozmente este tipo de grupelhos extremistas. Com quase 100.000 mortos em dois anos, a guerra civil síria já é uma das mais sangrentas do Oriente Médio moderno. No Egito, a Irmandade Muçulmana no poder está sendo rechaçada, não só pelos revolucionários seculares mas também por movimentos salafistas mais extremistas, como o Al-Nur, ou elementos radicais abertamente jiadistas que montam operações contra as Forças Armadas egípcias no Sinai. Na Tunísia, o governo islâmico do Enahda decidiu reprimir violentamente os islamistas do movimento Ansar-al-Charia qualificados de terroristas.
Na verdade esta guerra generalizada dentro do Islã possui duas vertentes. Uma é o enfrentamento entre os partidos islâmicos mais moderados que chegaram ao poder durante a primavera árabe e a nebulosa dos grupos islamistas radicais – legais ou abertamente terroristas. Outra é o retorno do velho confronto histórico entre xiitas e sunitas. O problema dos partidos islâmicos mais moderados no poder é tentar administrar e resolver os problemas econômicos e sociais urgentes de suas populações. Só que até agora só foram capazes de demonstrar a própria incompetência, abrindo espaço para a oposição laica e para os extremistas islamistas que acham que basta aplicar os ensinamentos do Alcorão para que tudo seja resolvido. O horizonte dos moderados é político e nacional enquanto o dos extremistas é religioso e transnacional. Os primeiros querem construir um país, os segundos querem realizar a “Uma”, a comunidade de todos os muçulmanos independentemente de suas nacionalidades. Esse choque de projetos cria um clima de tensão e violência permanentes.
E se não bastasse, o grande Oriente Médio ainda tem que amargar o conflito xiita/sunita. A República islâmica do Irã não esconde a sua ambição de se tornar a potência hegemônica na região, provocando uma forte resistência por parte dos vizinhos árabes sunitas. Além de querer possuir armas nucleares para intimidar a região e adversários potenciais, o Irã consolidou uma rede de aliados xiitas: o governo iraquiano, os alauítas sírios e o Hezbollah libanês. Aliados que, inevitavelmente, são rejeitados e combatidos pelas forças sunitas locais.
O resultado desta desagregação do Islã político é que a reforma e a consolidação dos Estados nacionais na região fica cada vez mais difícil. Não há solução à vista para essa guerra entre todas as facções do islamismo político, nacionais e transnacionais. As fronteiras e os equilíbrios geopolíticos herdados da Primeira e da Segunda Guerra mundiais, estão claramente ameaçados. Por enquanto não é possível, nem recair nos regimes nacionalistas autoritários do passado, nem avançar para uma democracia moderna. Mas quem sabe se esta fragmentação geral da autoridade religiosa no Islã não vai acabar favorecendo uma modernização laica no mundo muçulmano? Como aconteceu com o cristianismo depois das terríveis guerras de religião dos séculos XVI e XVII na Europa.

Clique acima e ouça a crônica de política internacional de Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, na íntegra.
 

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