O Mundo Agora

Terrorismo moderno não tem fronteiras

Áudio 05:08
Atentado terrorista com carro bomba em Bagdá, 27 de maio de 2013
Atentado terrorista com carro bomba em Bagdá, 27 de maio de 2013 REUTERS/Thaier al-Sudani

Mais de uma década depois dos atentados contra as Torres Gêmeas em Nova Iorque, finalmente a “guerra contra o terrorismo” está começando a mudar de cara. Esse conceito um tanto esdrúxulo, inventado pela administração americana de George W. Bush, transformava o terrorismo num inimigo militar colocado quase no mesmo plano do que uma guerra clássica entre Estados. A primeira reação das autoridades americanas pode até ser compreensível: a utilização de aviões de linha pela Al Qaeda para destruir o World Trade Center e atacar o Pentágono equivale, nos seus efeitos, a um bombardeio aéreo das duas principais cidades dos Estados Unidos. O traumatismo só podia ser fortíssimo e a desforra desproporcional.

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O problema é que o “terrorismo” em si, não é nem um Estado nem um ator político-militar dotado de vontade. Ele é uma simples tática de organização da violência. Uma tática notoriamente suja e imoral mas que existe há milênios. Guerrear contra o terrorismo não faz sentido. É como declarar a guerra contra operações navais ou bombardeios aéreos ou assassinatos políticos...

Também é claro que não se trata de um fenômeno abstrato. Boa parte das ações terroristas são executadas por organizações bem precisas e, em muitos casos, apoiadas por governos que as manipulam. Tentar destruir essas organizações terroristas ou punir os Estados que eventualmente as apoiam faz todo sentido. Mas querer acabar com a prática secular das ações terroristas, como se fosse uma guerra que poderia acabar com um vencedor e um vencido, não é só uma ilusão. É também uma receita para ficar atolado num conflito sem fim.

Quando George Bush invadiu o Afeganistão, com o apoio explícito da comunidade internacional, diga-se de passagem, para tentar destruir a Al Qaeda e o governo talibã que a apoiava, tratava-se de uma medida absolutamente necessária, visto a periculosidade demonstrada pela organização de Osama Bin Laden. Mas sair utilizando meios militares para combater o “terrorismo” em geral, sob qualquer forma e em qualquer latitude, era como dar murro em ponta de faca. Perdia-se qualquer probabilidade de vitória e esquecia-se que não é só com tiros que se pode resolver situações sócio-políticas que engendram este tipo de comportamento violento. Napoleão já dizia que era possível fazer tudo com baionetas, menos sentar em cima.

Pelo visto, ainda na glória de ter encontrado e matado Osama Bin Laden, Barak Obama está pouco a pouco chegando a esta mesma conclusão. No seu recente discurso sobre a guerra ao terror, o presidente americano disse claramente que o conceito de “vitória” deveria ser aplicado ao desmantelamento total da Al Qaeda e outras organizações do mesmo tipo bem identificadas. O “inimigo” não é o “terror” mas organismos bem precisos que utilizam esse tipo de tática. Quanto ao terrorismo em si, o inquilino da Casa Branca reconhece que não tem cura e que será necessário continuar vivendo com isso – tomando, é claro, as medidas adequadas para limitar as tragédias e as vulnerabilidades do Estado e dos cidadãos.

O problema é que nesta era de grandes avanços tecnológicos, onde até um indivíduo isolado pode ter poder suficiente para provocar destruições massivas, é sempre difícil separar os atos de terror cometidos por organizações estruturadas ou pessoas ajudados por Estados que utilizam essa tática de violência indiscriminada, dos atentados de indivíduos solitários movidos pelo ódio ideológico e frustrações pessoais. Quando não há possibilidade de provar a cumplicidade de algum governo adversário, a luta contra o terrorismo está cada vez mais sendo considerada como caso de polícia e não um estado de guerra. As recentes bombas em Boston e as agressões contra um soldado britânico em pleno Londres ou um francês em Paris entram claramente nessa categoria.

A dificuldade é que o terrorismo moderno não tem fronteiras e isto leva a que as ações de polícia também tendem a ultrapassar as fronteiras nacionais. Os assassinatos de terroristas, inclusive de nacionalidade americana, por meio de drones comandados por funcionários da CIA, que é uma agência civil, mostra bem a ambiguidade dessa nova situação. A intervenção militar francesa no Mali também não é propriamente uma guerra mas uma simples operação para neutralizar pequenos grupos terroristas islâmicos que, se pudessem crescer, poderiam também acumular poder para ameaçar os Estados do Sahel e a própria Europa.

A verdade é que nesse mundo globalizado com fronteiras cada vez mais porosas, a segurança interna dos Estados depende de acontecimentos por vezes bem longínquos que necessitam respostas rápidas e eficientes. A diferença entre ação militar e policial está desaparecendo pouco a pouco. Mas como não existe nenhum governo mundial para legitimar esse novo conceito de polícia internacional, quem decide e age é quem tem meios para isso. Quem pode, pode. E quem não pode... vai ter que aguentar.

Clique acima para ouvir a crônica de política internacional de Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris.
 

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