O Mundo Agora

Movimentos de massa espontâneos correm o risco de cair no populismo

Áudio 05:14
Protesto no Rio de Janeiro na quinta-feira, 20 de junho de 2013.
Protesto no Rio de Janeiro na quinta-feira, 20 de junho de 2013. AFP / Marcelo

Os protestos de massa dos últimos anos na Rússia, na Turquia ou no Brasil representam um terrível desafio para todos as corporações e instituições intermediárias, como partidos, sindicatos, representantes locais eleitos e até organizações não-governamentais. As manifestações, convocadas por intermédio das redes sociais e coletivos ad hoc que se organizam em torno de pequenas reinvindicações específicas, não têm lideranças estabelecidas, nem comissão de frente, nem mesmo uma ideia clara do que querem. Ora, todas as instituições que fazem a intermediação entre a dita “sociedade civil” e o poder de Estado só podem existir se houver diálogo e negociação entre uma parte e outra. Essa negociação é a própria função destes organismos. Mas nesse mundo da mobilização eletrônica, sem chefes e sem estrutura, negociar com quem, cara pálida?

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No auge dos enfrentamentos no Rio ou em São Paulo, o ex-presidente Lula, velho sindicalista, declarou que era hora de negociar. E a presidenta Dilma Rousseff anunciou, urbi et orbi, que estava disposta a conversar com os representantes do movimento de protesto.

O primeiro problema é que os partidos – inclusive o PT e os grupelhos da extrema-esquerda – que tentaram tomar conta das manifestações foram expulsos, insultados e tiveram as suas bandeiras queimadas. A massa de jovens que saiu às ruas não está nada a fim de ser recuperada pelos políticos, nem do governo nem da oposição. O rechaço à classe política é generalizado.

O outro problema é que não há um simples corpo de demandas claras que possam ser discutidas e negociadas para que se chegue a um compromisso aceito por todos. Os protestos ultrapassam imediatamente os pretextos iniciais – no Brasil, o preço da passagem de ônibus; na Turquia, as árvores da praça Taksim – e passam a expressar um mal estar geral com a atuação dos poderes de fato.

Não há sindicato ou ONG que possa transformar a denúncia da corrupção ou do autoritarismo, as demandas por serviços públicos de qualidade na saúde e na educação ou a insatisfação com a inflação e os rumos da política econômica em pauta de negociações com o governo. Até podem tentar, mas nunca terão a antiga legitimidade para representar os protestos.

Não é por acaso que a única resposta da democrata Dilma foi reiterar as promessas que os governos vêm fazendo há anos de dar um jeito nisso tudo. E que os autoritários Erdogan na Turquia ou Putin na Rússia tenham optado pela porrada. Em todos esses casos, a solução passa por modificações profundas na maneira de governar, na orientação de todas as políticas públicas e até na própria cultura política. E isto, nenhuma classe política tem condições ou está a fim de fazer. Até na Europa, as poucas e limitadas reformas que estão sendo feitas estão longe de representar uma resposta aos “indignados” ou à radicalização, às vezes perigosa, da opinião pública.

Sociedade x poder político

Essa crescente discrepância entre a sociedade e o poder político, acompanhada pela liberdade e autonomia de se organizar espontaneamente através das redes eletrônicas, está simplesmente minando, pouco a pouco, a legitimidade e a própria capacidade de atuação dos Estados nacionais. A economia globalizada deste início do século 21 já reduziu drasticamente os instrumentos de ação da política pública. Nenhum governo, nem mesmo os mais poderosos, tem condição de resolver os problemas econômicos e sociais de suas populações só no âmbito nacional.

Nem Brasília, nem Ancara, nem Madri ou Pequim podem dar resposta ao mal estar e aos grandes problemas que assolam seus países. Mas como não existe nenhuma hipótese de governo mundial – uma boa coisa porque provavelmente seria um poder ultra-autoritário – e que a cooperação entre Estados nacionais ainda é incipiente, este enfrentamento entre sociedade civil e poder político só pode aumentar. E no mundo inteiro. Cada mobilização constitui um exemplo para os outros países. Até quando os protestos brasileiros não vão se espalhar pela América do Sul?

Esse novo paradigma da expressão política não é só positivo, aumentando o controle da população sobre os que querem representá-la. Ele também tem o seu aspecto negativo: sem representantes legítimos, sem que a frustração social possa se traduzir em projetos de poder, esse tipo de movimento de massa espontâneo pode descambar no populismo autoritário, de direita ou de esquerda. Claro que este tipo de alternativa piora a situação e acaba quase sempre desembocando na violência e na ditadura.

Hoje, as classes políticas democráticas estão confrontadas com um desafio que pode custar-lhes a própria sobrevivência: ou bem elas são capazes de transformar de maneira profunda o seu modo de ser e de agir na política, ou bem serão tragadas pelas revoltas globalizadas, eletrônicas e permanentes.

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